Erasmo Dias e as pestes em São Luís (2)

(Um surto de varíola, em pintura do escritor genial, na novela Maria Arcângela. O que diria de Antônio Vieira, artista idolatrado, não o Padre, sob a suspeição de delator da ditadura militar?)

Nathan, no Sobrado Maia, datilografou Maria Arcângela. Antônio Vieira teria dedurado Nathan, sindicalista da Petrobras, que penou sob o tacão do regime ditatorial? Foi, na afirmação do seu filho Gut (em pé, com o irmão Luís Washington Maia)
– Fotos: Arquivo de Herbert de Jesus Santos

Achava-me na frente da sede da Flor do Samba, que iniciava, na noite do último sábado de novembro de 2002, as eliminatórias para a escolha da sua composição ao carnaval maranhense de 2003, com o tema Antônio de Outros Sermões Vieira—Uma Opereta de Rua, homenagem ao celebrizado cantor e compositor nativo, quando Gutemberg Maia Souza (o Mestre Gut de bateria de brincadeiras folionas), com toda sua árvore genealógica, esbravejou, sobre a mesa, que o reverenciado da agremiação do Desterro denunciara seu pai, Nathanael Fernandes de Souza (Nathan), como comunista, preso no auge da ditadura militar. Escutou isso ainda o jornalista e poeta Cesar Teixeira, ao chegarmos de umas cervejas, na Praia Grande, com o jornalista Zema Ribeiro, que desabeirou logo do recinto, antes de Gut não transigir com o dissimulado Antônio Vieira, na elucidação do que não sabíamos.

Um gigante em benquerença e probidade — Já desafogado, por haver sido compositor vitorioso do certame da Favela do Sacavém, na parceria do capixaba JB, para a nossa consagração de sambistas campeões, na Passarela do Anel Viário, no desfile de 2003, com o enredo De Sousândrade e Louco, Todos nós Temos um Pouco, mas Genial e Errante só O Guesa (tema de minha nomeação, louvação ao nosso Poeta Precursor do Modernismo no Brasil), ali Antônio Vieira perdeu a minha consideração, por injuriar-se com um gigante em benquerença e probidade. Nathan, na maçonaria, buscou uma bolsa de estudo para eu firmar o Curso de Direito da UFMA; e o seu segundo filho, Luís Henrique (Maia Souza-Lula), não me deixou por menos: prestigiou o baile da minha conclusão do Liceu, no Clube Sírio Libanês; as minhas sabatinas, em apostilas, à aprovação no Vestibular de Direito; da romaria para Ribamar; e, na evasão do Direito, para, em outro vestibular, ser acadêmico de Comunicação Social (Jornalismo) da UFMA, foi o que disse, com todas as letras, sendo o que desejava, eu faria o melhor possível, e se também enveredasse na Literatura: Anteviu-me exitoso de repórter a editor-geral em diversos diários e vencedor de concursos literários, até hoje.

No encalço do delator — No início dos 1970, com Nathan excedendo sua via-crúcis, Lula presenciava mais cabedal para si nos pássaros de altas plumagens esticando a boêmia à Casa Naro (Nathan e Rosa), bar e mercearia na Rua Melvin Jones, ou Travessa Maia,  alusiva ao benfeitor português Manoel Maia, genitor de D. Rosa: Eram a  biblioteca itinerante de Erasmo,  o jornalista Sérgio Brito e os poetas  Bernardo  Almeida, Carlos Cunha e Fernando Braga, e o vereador Luís Papagaio. Daí por que a minha indignação majorou, eu na sintonização de que Gut, o caçula, em 2002, na Flor do Samba, vociferou que seu pai fora jogado ao regime de chumbo pelo músico idolatrado, na Cidade, e encetei a sabença maranhense de que tambor pequeno só fala depois do grande.  Procurei Lula, irmão mais velho, sobre a grave acusação, e recebi que Nathan teve absolvição de um coronel, vindo de Belém(PA), exaurindo, sem substância,  o fel do dedo-duro, e presumíveis torturas.

Lembranças afetuosas — Quando eu subia a Rua do Apicum, com o São João (2012) na cabeça, de matracas em punho, atrás do Boi da Madre de Deus, brincando na Rua Frei Querubim, na adjacência, falei, com meus botões, que, nas evidências, o Maranhão não deveria mais render tributo ao reincidente acusador, por crime de lesa-humanidade. Aí, lembrei Nathan(falecido a  5.6.2004) e D. Rosa, sentados em cadeiras, “namorando de porta”, perto do carnaval de 1988, sob uma lua cheia que clareava bem onde fora a Quinta do Barão de Bagé, e se espraiava pelo Caminho da Boiada, ao tempo em que um (D. Rosa) olhava para a Av. Kennedy, e o outro (Nathan), para a Rua do Apicum, na minha descida, vindo do batente de secretário de Redação do Jornal de Hoje, na Rua das Crioulas, rumo à minha morada já de pai de família, na Rua João Ramalho, na vizinhança. Fui ter com eles, e os notei com um quê de preocupação, e aí brinquei, em consonância com o figurino de nossa grandiosa amizade:

— Em namoro de porta, com esse luaceiro,  não pode haver apreensão!…

Responderam-me, quase em uníssono:

— Estamos esperando essas crianças!…

— Quais essas criança0s?!… — devolvi-lhes (já pensando em Gut, ás de cursos de instrumentos de percussão, e Luisinho, que havia dado baixa no Exército, há uns 10 anos, e, na certa, no mesmo samba que o irmão), e acertei, em cima da bucha:

— Gut e Luisinho, e já é perto da meia-noite!…

— Essas crianças!… — despedi-me, vivenciando a sapiência de que “filhos criados, trabalhos dobrados!”, pois parece que não crescem! E “Essas crianças!”, em alto e bom som, ficou a minha saudação para Luisinho e Gut, e vice-versa.

A peste da varíola num quadro luzente de Maria Arcângela — O Gênio dos Apicuns, na pintura do surto da varíola, que pôs a Cidade em polvorosa, não decepcionou a máxima do mestre romancista russo Tolstói de “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia!”:  “(…)Foi quando a peste chegou. A última varíola que assolou São Luís. Interditaram parte do  Codozinho, pois lá estava o isolamento, hospital para onde iam os bexigosos. O pânico tomou conta da cidade. As escolas todas fecharam. O governo reagiu com uma vacinação domiciliar e compulsória. Foram proibidas as reuniões. A peste se alastrava. Mestre Quirino se vacinou, vacinou a mulher e a filha.(…)  Romualdo, negro safado e velhote, bebedor de cachaça, que, ainda comigo bebeu, me sussurrava, discreto, em carraspana, quando eu ainda moço era: —Seu doutô, a finada Rita — a quem Deus a tenha— era do chifre furado. Brancarana bonita e de xandanga, com nunca eu vi. Que o mestre não me ouça, lá onde todos os dois já estão, mas a pequena, a Maria Arcângela, não era filha dele; era filha de Edinho, que cantava como ninguém e sabia bater um pinho de fazer chorar.  (…)A varíola declinou. Nas ruas do subúrbio, ainda que proibidas as reuniões, já não se encontravam os penitentes, com velas acesas e uma imagem pequenina do Santo, cantando, medievalescamente tomados de fé, as coplas que arrepiavam de um a todos: ´Ó Mártir de Cristo, meu Santo varão, livrai-me da peste, São Sebastião!´”

(O centenário de Antônio Vieira seria festejado por artistas maranhenses amanhã, 9 de maio, gorado pela pandemia do Novo Coronavírus. O Maranhão poderá celebrar os de Cristóvão Alô Brasil, em 2022, e de Lopes Bogéa, em 2026, que compuseram com o primeiro o legendário Os Velhos Moleques, com a mesma grandeza musical, e sem nenhuma exceção no repertório da vida e obra.)



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