Voltamos a assistir, na Semana Santa e Páscoa, em São Luís, desta vez, no Teatro João do Vale, na Rua da Estrela (Centro Histórico), à Paixão, Segundo Nós, montado pela Coteatro (Companhia Oficina de Teatro), com direção de Tácito Borralho, há um bom tempo, ator e teatrólogo renomado, em nível nacional, e já mestre e doutor em Cultura. Presenciamos, e passamos adiante, por dever de ofício, novamente, a um dos mais alterosos momentos do labor cênico maranhense, em qualquer tempo, será de bom grado repetir.


Com o meu Jornalismo comprometido, em boa parte, com a Cultura Maranhense (Popular e Erudita), desde egresso do Curso de Comunicação Social da UFMA, então correu com excelente repercussão, nos meios da Imprensa escrita, notadamente, que a Coteatro preparava para acontecer, há coisa de 37 anos, na Igreja do Desterro, a primeira versão de Paixão, Segundo Nós, anunciado qual “um espetáculo vibrante e polêmico, durante a Páscoa”. Foi assim um roteiro de Tácito Borralho, “adaptando textos de Kalil Gibran, do Evangelho, Segundo Mateus, dos Evangelhos Apócrifos e do Cântico dos Cânticos, de Salomão, e utilizando músicas do Folclore Maranhense, culminando com composições de Tácito Borralho, Cesar Teixeira e Sérgio Habib.”




A entrada de Satanás em duas formas —– Ficou entendido, com clarividência, lendo o folder da entidade, que a Coteatro arquitetou sua terceira versão na percepção de ser por oportuno o momento histórico da sua existência de um grupo artístico sem fins lucrativos, formado por sócios efetivos, os quais compõem o seu elenco, enquanto o Mundo arde entre a Cruz e a Espada, com uma guerra em cima da outra. Certo foi que apôs aos textos originais a cena da tentação de Cristo no deserto, por meio da sedução de Satanás, em duas formas de matéria única, o macho e a fêmea, porque “relatam os evangelhos apócrifos e como se permite a interpretação poética das figuras expostas, revelando o caráter humano e frágil de Cristo, sendo sobrepujado pela vontade divina”. Cá, com os meus botões, eu não havia visto, na parte tocante ao feminino, a um demônio mais explícito possível, seu interesse, insistente e insinuante, expondo seus atrativos, belos e intumescidos, mais esfuziante que a atriz da fita “made in” Hollywood.
Papo de plêiade: o tormento de Pilatos —– Fim do espetáculo, na segunda sessão da Sexta-Feira Santa. Na frente do João do Vale, figuras ligadas ao teatro, música e comunicação, comentavam o que sentimos: tirando proveito de técnicas do teatro de arena, ficamos envolvido pelo elenco, participando da tensão estendida no transcorrer da exibição. Debatiam o angustiante remorso de Pôncio Pilatos sobre a dúvida da sentença proferida, quando o Nazareno perdeu a absolvição para o salteador Barrabás, que escapou da morte.


O mais humano e poético drama cristão —- Concordaram que o delírio de Pilatos e seus depoimentos reviviam o drama do julgamento de Cristo: discutiram a segunda parte com “O espetáculo remonta uma reflexão do trajeto para o Calvário, até a desnudação de Cristo, sua morte, sepultamento e ressurreição. Arremataram, como se lendo o folder: “A Paixão é um espetáculo profundo, que abala os alicerces da fé e faz refletir o mais humano e maís poético drama cristão.
Uma mãe e o filho produtor teatral: “A peça fica com gosto de quero mais!” —– No sábado de Aleluia, segundo horário, Léia Pimenta e seu filho, Carlos, produtor teatral, ele, carioca, recém-chegado do Rio. Ela comentou para mim: “Espetáculo maravilhoso! Coisa de mestre! O Carlos, meu filho, gostou muitíssimo e eu muito feliz por apresentar a ele um trabalho de tanta qualidade em nossa querida São Luís”! Carlos: “O grupo é formado de mestres! A peça fica com gosto de quero mais”! Léia aínda: “Quanto ao Tácito, não o vi! Ouvi um dos atores dizer que ele não saía do camarim!”


Tu és um doido espetacular! —- Antes, com Paixão, Segundo Nós ainda fervilhando na cachola, digerida, consumida na véspera, encontrei Tácito Borralho no camarim, e o tratei de tu és doido! O mestre ajustava a veste de uma atriz, como se fosse assim todo teatrólogo grandioso, olhou-me, calmamente, e tratou: “Ah, és tu”! Continuei: “Esse show merece ganhar o Mundo”! Na fumaça da pólvora, disparou, contumaz: “Que bom que fosse possível a Alemanha!”
Era o fim de papo, cada qual fazendo seus ossos do ofício! Ficou para agora eu dizer-lhe que a nossa amiga Léia Pimenta veio também procurá-lo, com o filho dela, nascido no Rio, produtor teatral. Fizemos (eu e ela) o Clube de Jovens da Madre de Deus, e ele, com José Antônio Broer (Alemão), agitava o Clube de Jovens da Igreja de São Pantaleão, num movimento de ativismo social sem precedente e sucessão no Maranhão!
Texto: Herbert de Jesus Santos
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