Século da Benfazeja “Dona Cardenora”

(Foi como Minha Avó chamou Minha Madrinha, que, com Meu Padrinho, me criou como um filho. Com eles, estou contando vantagem de Jornalista e Escritor vitorioso)

Os filhos biológicos e de criação de D. Cardenora, no seu aniversário de 80 anos (26.5.2000). Na foto: Dene(Coni), Vilma, Amariles (Deda), Luzia(Cheirinho), Francisco(Galego), Léa, Aldêfran (Seu Dê), Marita, Herbert (Betinho) e Yete – Foto: Arquivo de Herbert de Jesus Santos

Foi como se hoje, quando eu cheguei à casa dos Meus Padrinhos, Francisco Galvão dos Santos (Chiquito) e Aldenora Ferreira Galvão dos Santos (Dedé), na Rua do Apicum, n.º 260, e entregado às mãos deles, pelas da Minha Avó paterna, Marcelina Cirila dos Santos (Marcela). Analfabeta de quatro costados, e com um poder de convencimento sacerdotal, exercitado à frente da organização da Festa de São Pedro, desde sua origem, em 1940, e de zeladora da capela dele, na Madre de Deus, ali manteve a tese de que já estava fraquejando na lida comigo, que queria mais tomar banho de maré, e jogar bola de borracha, na rua, e ela me queria nos estudos, longe das pescarias dos seus filhos, como Meu Pai, Felipe Nery dos Santos (Filipão). Ali, ficou na cara que sua comunicação errava no português, nunca o alvo pretendido: “Dona Cardenora, eu não posso mais lidar com ele”! Dali, só aos domingos, eu regressava à casa paterna e aos papos com os inesquecíveis parceiros da infância praiana.

Nunca eu soube se era do conhecimento dali que eu havia jogado pedra no Padre Martinho, que me queria na missa dominical vespertina, no bairro, e colocado quase nua a Minha Prima mais velha, Isabel (Bela), na Rampa Manoel Nina, antes de subir sua escadaria para eu ser desasnado, com D. França, na vizinhança do Mestre Filu, que fazia Jesus, nas encenações da Paixão de Cristo, e fofões, no carnaval, e do Tambor de D. Genésia. Eu confirmaria essas passagens no poema Maio, o meu Irmão mais Velho (*), em suas primeiras estrofes: Papai, pescando no Rio Bacanga,/ou no alto-mar de Araçaji,/Mamãe era operária na Fabril,/Vovó Marcela preparando a Festa de São Pedro,/e minha prima Bela na Loja Rianil/(não era domingo do pé-de-cachimbo,/os anjos têm mais tempo aos domingos!), Maio cuidava de mim, olhava-me querido:/eu era seu irmão mais moço,/e, talvez por isso, me chamavam Agosto.

Ficou inolvidável o fecho de ouro da conversação dos grandes, sem qualquer concessão, com a Minha Madrinha, falando para a eternidade e aos que seriam meus queridos irmãos de criação, ali, mesmo por que ela seria a corresponsável pela minha  Educação, doravante: “D. Marcela, deixe este moleque comigo, para ver se ele não vai obediente para os estudos”! Dito e feito: Meu Padrinho matriculou-me na Escola-Modelo Benedito Leite, na iniciação do primário, com os meus irmãos de criação, Luzia (Cheirinho) e Aldêfran (Seu Dê); ela resolvia conosco, de manhã cedo, os exercícios passados na tarde anterior, e foi assim até que os seus conhecimentos podiam; e participou da nossa Primeira Comunhão, pela Escola-Modelo, na Igreja de São João. Meu Padrinho foi a euforia em pessoa, com a minha aprovação no acirrado Exame de Admissão ao Liceu, e no Vestibular para Direito da UFMA: tinha esperança de me ver desembargador. Só aprovou meu êxito no de Comunicação Social (Jornalismo) da UFMA, e minha preferência por este àquele, com as minhas reportagens e os primeiros prêmios literários, benditos em seu jogo de dama, às tardes, na Rua do Outeiro, onde era Seu Minino, e faleceu em 4.2.1988 (dia do aniversário de Dene, sua filha caçula).

Minha Madrinha foi também a da Colação de Grau, com Missa em Ação de Graça, na Igreja de São Pantaleão; nas noites de autógrafos dos meus livros, incentivava para eu ir em frente; e foi o anjo terreno que cuidou ainda das minhas filhas pequenas (Amarílis, Alessandra e Amanda, recém-nascida), já na residência de n.º 264, na Rua do Apicum, quando a mãe delas (Marilda-Flor) teve que passar dias internada no Hospital Presidente Dutra. Nascida, em São Luís, a 26.5.1920, ela nos deixou em 6.8.2007, aos 87 anos. Dia da recordação de que, no meu aniversário natalício de seis anos, num domingo, em que os meus anjos tinham mais tempo, no meu berço, atrás da igrejinha primacial de São Pedro, Meus Pais (Filipão e Doralina Esmeralda de Jesus Santos-D. Dora), Vovó Marcela e Meu Padrinho tratavam do meu futuro. Após a queimação de palhinha de Santos Reis, do presépio que D. Dora botava todo ano, em 1957, cheguei na Rua do Apicum com a comunicação infalível  de Vovó de que já não tinha mais força comigo; em 1960, adoeceu congestionada e morreu em 1966.  Dona Cardenora formou todos nós, por ordem de chegada ao Mundo: Yete (assistente social), Vilma (farmacêutica-bioquímica), Léa (médica), Francisco-Galego (oficial do Exército), Amariles (engenheira-agrônoma), Luzia (professora), Aldêfran (advogado), Herbert (jornalista e escritor), Dene (farmacêutica-bioquímica) e Marita (engenheira-agrônoma).

Minha Avó Marcela com São Pedro(**) — Assim poetizei  sua alma espirituosa: (…)Minha Avó tirava de letra, pois, mesmo analfabeta, em magia, para acordar o dia mais cedo, era Marcela, e, também, Luzia,  em acender alegria e estrela aos companheiros e aos filhos pescadores,  com sua venda de mingau de todo o dia, antes de brilhar São Pedro e seus andores. Na Festa do Glorioso São Pedro, num tempo que ainda não foi, sabia de cor e salteado o segredo, no largo enfeitado pro Boi, qual zabumba que vinha distante: de Mizico, Medonho, ou Lorentino, dos quais, eu guardava o brilhante, caído do Boi e do brincante, para eu preservar seu destino, numa caixa de papel coração, que cresceu mais que o menino e reluz no céu do seu chão. Minha Avó tinha cada ideia! Queria que eu fosse alguém na vida que é plateia e louva mais os que têm! Vovó cresceu minha infância em seu brilho de todo dia. Ser rico de luz, sua ânsia, com ouro de tolo, não me via. Estou sujando a capela, São Pedro é a bola da vez: Eu fiz escola por ela e lia o jornal pra nós três. E disso eu fazia praça, satirizando o enredo e me lavava na graça, botando a culpa em São Pedro. Cara de santo eu fazia, mas Vovó conhecia cara de tambor que amanhecia, santo de casa e de arara: — Nem “mais” nem meio “mais”, santo não tem “dô” de dente! Naquilo em que eu era capaz, faltava ao santo ser gente. Passa o tempo, marco passo, com a fronte erguida, porém, pois não corrompo o compasso da reta que a linha tem(…). Chegou sem pedir licença, não era a Irene do Manuel Bandeira, nem tratou “sua incelença”, “meu branco” nem abriu porteira.  Era só pra varrer o céu e cuidá-lo tão cedo: ela, na Madre de Deus, já era assim com São Pedro! (*) (**)Fragmento de poema e poema  do livro Uma Canção Para a Madre de Deus)



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