Por que batizar grupos folclóricos na pandemia Covid 19?

Foto: Arquivo JP Turismo

Tenho observado que as limitações da ação humana provocada pela Pandemia Covid 19, muitas práticas de nossa sociedade foram colocadas em estado de espera ou adiadas para outros períodos ou mesmo para um futuro ainda incerto, como o próximo ano. Neste cenário incluem-se os festejos juninos e todos aqueles que requerem a presença da população na sua execução.

Os exemplos mais evidentes dessa nossa afirmativa estão os festejos religiosos desenvolvidos pela igreja católica, assim os consagrados santos festeiros do mês de junho vão ficando sem o calor da devoção humana de maneira presencial, que ocorria em quase todas as localidades em que havia templos religiosos para lhes consagrar. Ainda neste cenário estão cancelados os tradicionais batizados de grupos folclóricos maranhenses, que pragmaticamente desenvolvia neste período de festejos suas práticas ritualísticas de abençoar seu grupo para agradecer o trabalho desenvolvido e a união do próprio grupo para que fizesse uma temporada alegre, virtuosa e sem grandes atropelos, pois o sentido maior seria o de consagrar e confraternizar-se com a sua comunidade mais um período ritualístico.

Vale lembrar que essa ação ritualística envolve um conjunto das regras a observar; etiqueta, praxe ou protocolo que os grupos ligados ao ciclo junino já havia naturalizado como paradigma que deveria ser executado junto aos praticantes e apreciadores de cada manifestação, estando entre eles os grupos de Bumba Meu Boi (BMB), que rigorosamente buscavam as bênçãos divinas neste período, especialmente quando iam apresentar sua nova indumentária, as coreografias, o repertório e os novos integrantes do grupo, incluindo os padrinhos escolhidos para a temporada vigente.

Mas, se as atividades ritualísticas estão prejudicadas pela Pandemia Covid 19, por que alguns grupos insistem em desenvolver a prática de se batizar? Afinal, os grupos estão proibidos de realizar apresentações públicas para não disseminar o maldito vírus da Covid que ainda não tem medicamentos eficientes comprovados pela ciência e nem vacina que possa prevenir o povo de ser contaminado. Seria oportunismo dos gestores dos grupos culturais para manter-se em evidência ou ganhar pontos junto ao povo devoto? Ou seria uma obrigação de cunho religioso e cultural que é praticada por nossa gente?

Sinceramente acho que todas essas possibilidades são justificativas plausíveis, pois segundo a ritualística no grau de aprendiz nos mostra que os “Conceito e Rito” são procedimentos que, determinado por uma autoridade competente, deve ser seguido para celebrar-se um cerimonial religioso. O rito é formal, podendo ser verbal, transmitido oralmente ou escrito em um livro, manual ou código, formando assim a prática ritual. Desse modo, a nossa sociedade já incorporou essa prática, portanto a necessidade de se manter essa vinculação afetiva e de crendice religiosa.

Os rituais são característicos de quase todas as sociedades humanas conhecidas, passadas ou atuais. Eles podem incluir os vários ritos de adoração e sacramentos de religiões organizadas e cultos, mas também os ritos de passagem de certas sociedades, como coroações, posses presidenciais, casamentos e funerais, eventos esportivos e outros. Várias atividades que são ostensivamente executadas para concretizar propósitos, como a execução da pena de morte e simpósios científicos que são prescritas por legislações, regulamentos ou tradição e, portanto, tornam-se parcialmente ritualísticos, portanto, são carregadas de ações simbólicas. Várias ações comuns, como o aperto de mão ou comprimentos podem ser entendidas como pequenos rituais.

O ritual esboça comportamentos de troca que ganham valor comunicativo e, dentro de uma perspectiva etológica, evoluem de comportamentos sem nenhuma função comunicativa, que passam a ser estereotipados, maximizando a comunicação das espécies e minimizando os riscos. Na medida em que a espécie humana dominou a linguagem e desenvolveu-a com seus valores culturais e religiosos, os rituais passaram a simbolizar ideologias e ensinamentos tornando-se mais complexos. Assim, os batizados desenvolvidos nesta época de limitações da sociabilidade humana são práticas plenamente justificáveis, valendo-se do uso de “lives”, recursos propiciados pela evolução tecnológica da nossa época contemporânea.

As “lives”, neste escopo social, funcionam como a corte dos homens pela conquista no meio social, como as competições pelas fêmeas, quando os movimentos de bandos de animais em deslocamentos ou os movimentos exagerados acabam ou aumentam a capacidade de atrair a atenção, ganhando assim conformação ritualizada. Pelo sim ou pelo não, os batizados de nossos grupos culturais são demonstrações de que a nossa cultura permanece viva, resistente e recusa-se a morrer. Pense nisso. Continuamos atravessando esse período temeroso da Pandemia Covid 19.

Euclides Moreira Neto – Professor Mestre em Comunicação Social e Investigador Cultural.



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