

As atividades da Igreja Católica na Ribeira do Mearim, em domínios da América conhecidos como Maranhão, começaram paralelamente com a instalação de colonos portugueses na região, desde meados do século 17. Sacerdotes incursionavam pela região – alguns até o fizeram como missionários, e é certo que vários o fizeram agregados às campanhas militares contra os nativos resistentes à penetração portuguesa –, mas o fato é que não havia no Mearim, principalmente por efeito dessa legítima e natural resistência indígena, a presença contínua da Igreja sob a forma mais comum de sua atuação celular: uma paróquia e seu vigário.
Em 18 de março de 1723, uma solitária e simples decisão do rei D. João V, no alto do parecer favorável do Conselho Ultramarino a um pedido do bispo do Maranhão (“Como parece”), selava o destino dos colonos de Portugal na Ribeira do Mearim: passava a existir na região uma paróquia, com seu pároco, sob a invocação de Nossa Senhora de Nazaré, quando existiam no Maranhão apenas outras quatro: de Nossa Senhora da Vitória da Sé Catedral (São Luís), do Apóstolo São Matias de Tapuitapera (Alcântara), de Nossa Senhora da Conceição da Vila de Santa Maria do Icatu (Icatu) e de Nossa Senhora do Rosário do Rio Itapecuru (Rosário).




Documento do acervo da Arquidiocese de São Luís do Maranhão, sob a guarda do Arquivo Público do Estado, mostra que antes mesmo de 1793, de quando data o Círio de Nazaré até hoje realizado em Belém do Pará, já se realizava na Paróquia do Mearim uma festa também em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, padroeira local. Trata-se de uma demanda do pároco local, padre Felipe Néri de Faria, datada de 1791, contra um particular, cobrando-lhe pagamentos relativos à referida festa.


Na sequência dos anos, o acervo da Arquidiocese dá conta da persistência da festa, sob a coordenação de fiéis organizados, no ano de 1810; e, já sob os auspícios do pároco local, na década de 1830, a partir de quando, pelo que registra a memória oral, nunca deixou de ser realizada.
No Município de Vitória do Mearim, antigo Arraial da Vitória, elevado a vila (sede de município) em 1833, a Festa de Nossa Senhora de Nazaré está presente, por assim dizer, no calendário religioso, cívico e cultural do seu povo. Com efeito, o referido festejo não somente é a maior manifestação religiosa local, mas também a maior expressão cultural vitoriense, o que vem ocorrendo ao longo de séculos.


A Festa de Nossa Senhora de Nazaré é um momento especialíssimo na vida da comunidade vitoriense, ano após ano. Sobretudo nos dias 7 e 8, percebe-se o clima de comunhão de sentimentos que invade os corações dos filhos de Vitória do Mearim, sejam os nela residentes, sejam aqueles apenas visitantes, porque, para quem se identifique como vitoriense, legítimo ou por adoção, esse é o momento de rememoração do próprio advento da comunidade que, sob as bênçãos da Virgem de Nazaré, surgiu no baixo curso do Rio Mearim como matriz do povoamento de toda a região.
Reconhecendo patente a necessidade de valorizar e reforçar a maior manifestação religiosa local, que também é a maior expressão cultural vitoriense, compreendi que urgia se propusesse a quem de direito a adoção de medidas nesse sentido. Para isso, coloquei-me à frente de um grupo de vitorienses com residência em São Luís: Maria dos Reis Rocha Mendonça, Sandra Regina Rodrigues dos Santos, José Alberto Sampaio Ferreira, José Maria Rodrigues Júnior, Zuíla Fernandes Souza, Raimundo José da Silva Filho, Maria do Espírito Santo Fernandes Neves, Hilbert Rocha Mendonça e Raimundo Arnaldo Correa. Com o auxílio de um primo, João Nazaré Cantanhede Costa, radicado na distante Caxias-MA, procuramos, no início de dezembro do ano passado, um parlamentar amigo dele, cuja base política é também ali, o deputado estadual Catulé Júnior, e lhe fizemos a sugestão de apresentação de um projeto de lei oficializando tal reconhecimento.


Resultado: o projeto, em 15 de abril último, restou completamente aprovado no âmbito da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão e, após uma inusitada demora na sua remessa para a Governadoria do Estado, foi, finalmente, sancionado e promulgado pelo governador Carlos Brandão no dia 25 de maio. Agora está na Lei nº 12.855/2026: a Festa de Nossa Senhora de Nazaré, realizada anualmente pela paróquia de mesma invocação, na cidade de Vitória do Mearim, é reconhecida e declarada como Patrimônio Cultural Imaterial do Maranhão! (art. 1º)
E mais: o dia 8 de setembro, Dia da Padroeira de Vitória do Mearim, ápice da Festa de Nossa Senhora de Nazaré (Dia da Natividade de Maria Santíssima), feriado local, fica incluído no Calendário de Eventos do Estado do Maranhão (art. 2º), cujo Poder Público poderá adotar medidas para proteção, valorização e preservação do festejo (art. 3º).
No último dia 7, durante e após a Santa Missa noturna, no Centro Litúrgico Padre Sergio Ielmetti, na cidade de Vitória do Mearim, sede da Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, sob a presidência de Padre Rozivaldo Freitas Moraes, pároco local, renderam-se graças a Deus e se comemorou esse reconhecimento, presente o deputado Catulé Júnior, autor da proposição, os paroquianos e os munícipes, enfim, da antiga terra de Nossa Senhora de Nazaré da Ribeira do Mearim.
Texto: Washington Luiz Maciel Cantanhêde
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