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JP Turismo

Ecos da ciganagem no festejo do Divino Espírito Santo

por JP Turismo
28/10/2024
no Matérias
Reading Time: 6 mins read
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Ecos da ciganagem no festejo do Divino Espírito Santo

A ciganagem é uma prática que vem desaparecendo do festejo do Divino de Alcântara - Foto: Paulo Melo Sousa

As raízes do Festejo do Divino Espírito Santo apontam para a construção, realização e continuidade de um ritual que se baseia na distribuição de donativos, esmolas aos pobres. Essa prática sempre existiu, na Europa, em países como Itália e Alemanha e, posteriormente, em Portugal.

Alcântara é um legítimo Museu a Céu Aber

As celebrações religiosas nas quais a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes coletivos designados de Bodo aos Pobres, com distribuição de comida e esmolas, é uma tradição que perdura no festejo do Divino Espírito Santo, tanto em Portugal quanto em outros países, sendo o bodo a distribuição de comida às pessoas mais necessitadas, além de presentes em forma de roupa e ainda distribuição de recursos em dinheiro. Para o bodo contribuíam os lavradores e proprietários mais abastados da terra, oferecendo farinha, feijão, vinho, reses, etc.

A princípio, embora sejam associadas ao nome da rainha Santa, Isabel de Aragão, a distribuição de bodo aos pobres, relacionada ao festejo do Divino Espírito Santo, “a verdade é que existem referências documentais mais antigas a comprovar esse culto em Portugal. De fato, já em 1237 se encontra documentada uma confraria do Espírito Santo em Benavente, que organizava um bodo aos pobres no dia do Espírito Santo. E, sensivelmente desta época, seria também a igreja do Espírito Santo da Pedreira, em Lisboa, que tinha uma confraria do Divino Espírito Santo e, anexada, um hospital para práticas caritativas.

Outros investigadores relacionam estas instituições de beneficência e caridade à Ordem franciscana ou a devotos ligados ao franciscanismo espiritual, que circulava na Europa e, necessariamente, também em Portugal. Contudo, vários autores avançam na explicação para a introdução do culto em Portugal e, sobretudo na região de Tomar e Castelo Branco, na qual a prática se devia à ação da Ordem do Templo, instalada no local desde o século XII e depois à sua sucessora, a Ordem de Cristo. Num estudo das Capelas do Espírito Santo na região de Castelo Branco, verifica-se a coincidência entre as povoações que pertenciam à Ordem e as que têm culto ao Espírito Santo” (NOÉ, Paula. Os Impérios do Espírito Santo na Ilha Terceira. 2012. SIPA / Sistema de Informação para o Património Arquitetónico).

A tradição foi adotada e potencializada em Portugal no século XIII pela Rainha Santa Isabel de Aragão. A palavra bodo tem origem latina (votu, significando voto, promessa). O bodo é a esmola, considerada em várias religiões um ato caridoso dirigido aos pobres. Na religião católica, a esmola se constitui num dos três atos da caridade, sendo igualada à oração e à fé. No período da Quaresma e do Advento, é considerada ato de penitência. Segundo São Roberto Belarmino (Roberto Francesco Romolo Bellarmino foi um jesuíta italiano e cardeal católico; grande representante da Contra-Reforma, foi canonizado em 1930), a esmola possui vários benefícios para os devotos: são uma satisfação por pecados cometidos; acumulam méritos para a vida eterna; trazem o perdão dos pecados; aumentam a confiança em Deus; inspira os pobres a rezarem por seus benfeitores.

No Festejo do Divino Espírito Santo de Alcântara, a prática de se pedir esmolas, também denominadas de “jóias”, está relacionada à necessidade de donativos para cobrir os custos do festejo. Dessa forma, informa o historiador e pesquisador de cultura popular Carlos de Lima:

No dia 24 de agosto, pela madrugada, deixa a cidade, a mando do Imperador e dos Mordomos, o cortejo de pessoas, que percorrerá léguas e léguas recolhendo esmolas para a festa. É a Folia do Divino, constituída de três caixeiras (tocadores de tambores), três bandeiras (porta-bandeiras), 1 bandeireiro, 2 cidadãos de confiança e três carregadores, para a condução das ofertas de toda ordem e que incluem galinhas, perus, patos, cofos de farinha, etc. E, ainda, o “Vicente”, assim chamado o menino que recolhe as esmolas em dinheiro, quer seja Pedro, Paulo ou Simão.

As caixeiras são quase sempre lavadeiras que pouco trabalham pelo “ofício”, visto que suas funções do Divino só lhes deixam livres três meses no ano. Geralmente idosas, causa admiração sua resistência à fadiga, nas longas caminhadas e constantes vigílias da festa, além dos inevitáveis ataques de maleita. As bandeireiras são meninotas de 10, 12, 14 anos, que conduzem pequenas bandeiras brancas e vermelhas, com a coroa do Divino bordadas ao centro. Os “responsáveis” marcham atrás, revezando-se no transporte da coroa de prata (ou pomba de cerâmica) guardada numa lata redonda, de folha-de-flandres pintada.

Estas “embaixadas”, contratadas e custeadas pelos festeiros, percorrem todo o território municipal e o de São Bento e Pinheiro, ao sol e à chuva, palmilhando areais, transpondo brejos, atravessando rios, a pé, de carros-de-boi, de barco e a cavalo, durante mais de dois meses, para regressaram à sede, em novembro, com espórtulas e oferendas, muitas das quais, por impossibilidade de transporte ou perecíveis, convertem em outras ou vendem, apurando o dinheiro, com a honestidade dos humildes e dos devotos. Durante as travessias, abre-se a lata e expõe-se a coroa, invocando-se sua milagrosa proteção. E é realmente lindo o cortejo do Divino em pleno descampado, sol a pino, a grande bandeira vermelha aberta ao vento, as bandeirolas tremulando, agitadas pelas meninas, os “responsáveis”, circunspectos, guarda-chuva aberto, protegendo a coroa, as vozes fanhas entoando as cantigas, o rufar das caixas. (LIMA, Carlos de. Festa do Divino Espírito Santo em Alcântara (Maranhão). Departamento de Cultura do Estado do Maranhão, São Luís – MA. 1972.).

Esse tipo de prática se relacionava com a necessidade de se adquirir recursos para a realização do festejo, baseado na fé e na caridade dos participantes e da população em geral. Tais recursos foram se tornando mais difíceis, ao longo do tempo. Antigos fiéis abandonaram o catolicismo e se tornaram evangélicos, as dificuldades econômicas foram dominando boa parte dos lavradores e fazendeiros, o interesse pelo festejo diminuiu no seio da população.

Atualmente, se o governo estadual e municipal não ajudarem, a festa irá desaparecer em pouco tempo por falta de recursos. Contudo, a prática de se esmolar ou tirar joias continua, restrita á sede do município, á cidade de Alcântara. Serve para ajudar nos custos do festejo, mas também para fortalecer as cestas básicas que são distribuídas para pessoas carentes, no exercício da caridade cristã.

 

Nesse contexto, ainda perdura a prática da ciganagem, que também visa a arrecadação de donativos, só que de pequena monta. Trata-se de uma prática realizada por alguns festeiros, que se utilizam de meninas, denominadas de “ciganinhas”, que saem pela cidade no chamado sábado do meio, com uma bandeja nas mãos, esmolando ou pedindo joias para os moradores, com o intuito de ajudar nas despesas das casas dos festeiros. “No sábado seguinte, durante o dia, mocinhas e crianças, sempre acompanhadas das caixeiras, se entregam à “ciganagem’, novo recolhimento de pequenas oferendas – um punhado de folhas de vinagreira para o arroz de cuxá, dois limões, uma talhada de jerimum, uma garrafa de cachaça, um sabonete de cheiro” (LIMA, Carlos de. Festa do Divino Espírito Santo em Alcântara (Maranhão). Departamento de Cultura do Estado do Maranhão, São Luís – MA. 1972.).

Dona Joralda Ramos Ribeiro, atualmente morando na rua de Baixo, nº 265, em Alcântara (Maranhão) nasceu numa casa nessa cidade no dia 30 de abril de 1940, na antiga rua do Apicum (atual Cônego Lusitano). Ali cresceu e começou a participar de algumas manifestações culturais locais. Aos 15 anos de idade, em 1955, participou pela primeira vez da festa do Divino Espírito Santo, como ciganinha, personagem do festejo representada por meninas que realizam a chamada ciganagem, ou seja, a atividade de esmolar pelas ruas da cidade, recolhendo donativos e ainda dinheiro em espécie para ajudar nas despesas dos preparativos do evento, através de solicitação dos festeiros. Tal atividade está quase em extinção. No ano de 2018 apenas uma ciganinha foi vista desenvolvendo a atividade em um dos dias do festejo.

Segundo dona Joralda, moradora de Alcântara, que fabrica o licor utilizado no festejo, e que quando jovem foi “ciganinha”, “na minha época de jovem as ciganinhas faziam essa atividade com a roupa do corpo, a convite dos festeiros, mas eles não davam roupas para nós; eu fui ciganinha por dois anos. Às vezes os festeiros convidavam crianças ou adolescentes para fazerem a ciganagem, e davam como retribuição um almoço. Nós recolhíamos tomate, cebola, limão, verduras, temperos para ajudar os festeiros com as despesas da festa, lembrando que no sábado que antecede o final da festa existe um cortejo para distribuição de esmolas aos pobres, obrigação dos festeiros. Nós pedíamos assim: ‘me dá uma coisinha aqui’! e às vezes nós tomávamos mesmo essas coisas e saíamos correndo com o tamanco nas mãos e o que conseguíamos pegar das pessoas; era muito divertido. Com o passar do tempo, algumas pessoas que tiravam essas jóias (esmolas) ficavam com uma parte do que era recolhido para si, principalmente dinheiro, o que não era correto. Havia disso também!”.

Dona Joralda procurou estimular suas filhas para participarem da ciganagem, mas, segundo ela, as moças ficaram com vergonha de pedir. “Minhas filhas, Iara e Ricardina também foram ciganinhas; no ano em que elas foram tirar jóias para o Divino a festeira dona Benedita do Colégio Henrique de La Roque deu as roupas para elas; era uma saia vermelha, mas a blusa era a que se usava no colégio, e aos poucos as ciganinhas foram sumindo do festejo, acho que por vergonha, desinteresse, e também as meninas faltavam às aulas quando faziam a ciganagem, e aí foi sumindo aos poucos a figura das ciganinhas do festejo”, explica dona Joralda.

Texto: Paulo Melo Sousa

 

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