Cidade mais antiga do Estado, à época Goiás, Natividade preserva história e cultura em casarões e igrejas seculares, nos sabores e nos saberes de seus moradores mais antigos


Natividade não se visita, se atravessa, como quem cruza um tempo que ainda pulsa. Entre ruas de tempos distintos, muros erguidos por mãos negras escravizadas e igrejas que resistem há quase três séculos, a cidade de Natividade guarda algo raro, origem e memória. Foi ali, no século XVIII, no rastro do ouro e do conflito, que começou a se desenhar o Norte goiano que mais tarde se tornaria o Estado do Tocantins (1988). Por isso, Natividade não carrega o título de “Mãe do Tocantins” como metáfora, carrega como fato histórico.
Fundada no auge da mineração, o antigo arraial chegou a concentrar uma população que hoje parece improvável para seu tamanho: milhares de pessoas, em sua maioria escravizadas, extraindo ouro que seguia em lombos de burros até Salvador. Dizem que, por muito tempo, o metal podia ser encontrado até nas ruas. Hoje, o brilho permanece, menos ostensivo, mais simbólico, espalhado pela arquitetura, pela fé, pela cultura e pelos saberes que resistiram ao tempo.


Patrimônio
O conjunto urbano de Natividade, tombado em 1987 como Patrimônio Histórico Nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), é um dos mais expressivos do Brasil Central. São cerca de 250 edificações coloniais preservadas, entre casarões, igrejas e ruínas, que narram, sem artifícios, as contradições da formação do país. Ali, cada fachada carrega camadas de história: colonizadores, missionários, sertanistas, povos indígenas, quilombolas e criadores de gado moldaram um território onde tudo foi profundamente humano.
No centro dessa narrativa está a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Natividade, erguida em 1759. É ali que repousa a imagem da padroeira do município e do próprio Estado, trazida pelo rio Tocantins e conduzida até o arraial por escravizados. A devoção atravessou séculos e segue viva, como eixo da vida comunitária.
A poucos passos dali, as ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos permanecem inacabadas desde o início do século XIX. Construída em pedra canga por negros escravizados, a igreja nunca foi concluída, e talvez por isso seja um dos monumentos mais potentes de Natividade. Suas paredes interrompidas falam de fé, resistência e da presença negra que estruturou a cidade e ainda se reflete nos traços, nas tradições e na identidade do povo nativitano.


Essa herança se manifesta também nas festas religiosas, que fazem parte do calendário simbólico da cidade. Celebrações como a Romaria do Senhor do Bonfim, em agosto, e os festejos do Divino Espírito Santo, em maio, ajudam a compreender a força da religiosidade popular, marcada pela participação coletiva, pelos rituais herdados da colonização portuguesa e pelas releituras afro-brasileiras que atravessaram gerações.
Natividade também é o lar de Mãe Romana, misto de vidente, profetiza, guia espiritual e rezadeira, que vive em um ambiente mágico, místico e exótico, o Sítio Jacuba, a 4 km da cidade, por ela construído na década de 1980. O local é considerado por ela “Fundamento Espiritual para a Firmeza da Terra”. Chama a atenção as esculturas humanas, de anjos e animais, estrelas e figuras geométricas, todas em pedra canga e construídas conforme as orientações que dona Romana recebe das entidades celestes.


Riquezas únicas
Se o ouro moldou o passado, ele também sustenta o presente, agora transformado em arte. A ourivesaria de Natividade, reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil, mantém viva a técnica da filigrana, com fios de ouro tão delicados quanto um fio de cabelo. Em oficinas discretas, ourives perpetuam um saber secular que sobreviveu à decadência da mineração e se consolidou como identidade cultural única no país.
Mas talvez o símbolo mais afetuoso da cidade não venha do metal, e sim do forno. O biscoito Amor Perfeito, feito com poucos ingredientes e assado lentamente, tornou-se uma espécie de assinatura sensorial de Natividade. A receita, eternizada por Dona Naninha, segue viva no casarão histórico ao lado da Igreja Matriz, onde memória, hospitalidade e sabor se encontram em um café que é quase um ritual.
Em Natividade também se preserva a Suça, uma dança circular de origem africana, marcada pelo toque de tambores artesanais, e a catira, dança marcada pelo ritmo das palmas e das batidas dos pés (mas distintas da catira goiana) – tradições da região sudeste do Estado. Durante eventos ou ensaios, é possível se deslumbrar com apresentações de grupos como o Tia Benvinda, o Mãe Ana e os Catireiros de Natividade.


Natureza
Para além do patrimônio histórico e cultural, Natividade também se revela na paisagem natural que a cerca. Trilhas, serras, rios e cachoeiras desenham um cenário propício ao ecoturismo e à contemplação. Caminhar até a Serra de Trindade é retornar às ruínas do Arraial de São Luiz, onde a cidade começou. Já as cachoeiras do Paraíso das Águas mostram que a geografia local também sabe surpreender, de acordo com cada período do ano.
Com menos de nove mil habitantes, Natividade segue preservando algo cada vez mais raro: tempo. Tempo para a conversa na porta, para a fé compartilhada, para o trabalho artesanal, para a memória. Não é uma cidade que se impõe ao visitante. Ela se oferece, aos poucos, para quem sabe olhar.
Como chegar
Natividade está localizada a 220 km de Palmas, a Capital tocantinense, e está na rota para outros atrativos da Região Turística das Serras Gerais e para Brasília, passando pela Chapada dos Veadeiros.
De carro, é possível montar diversos roteiros, seja seguindo para Goiás ou para atrativos tocantinenses, como a Lagoa do Japonês, a 75 km, as cachoeiras de Almas (63 km em estrada pavimentada e trechos variados em estrada de chão) ou 150 km até a região das cachoeiras de Paranã, na região de Campo Alegre, com acesso em veículos 4×4. Até Alto Paraíso (GO) são 450 km.
Texto: Seleucia Fontes





































































