Da força das matriarcas à Mostra Cultural valorizada pelo Governo de Minas, ancestralidade e memória moldam a identidade da cidade




Em São Thomé das Letras, entre pedras milenares e histórias que atravessam gerações, a força da cultura preta pulsa na tradicional Rua de Baixo. É ali que ganha vida a festa conduzida pelas matriarcas do Restaurante Panelinha, liderado por Dona Ana Zélia e por duas de suas dez descendentes — Uriali Aparecida da Silva Barros e Tiana. A família, uma das poucas negras nativas a manter um empreendimento gastronômico na cidade, sustenta uma herança que atravessa três gerações de mulheres e ocupa lugar central na memória e na identidade local.






Essa vitalidade cultural, forjada entre cozinha, ancestralidade e celebração, vem alcançando novos horizontes graças a iniciativas públicas de valorização da cultura mineira. O Governo de Minas, por meio da Secult-MG e da Codemge, incluiu o Panelinha e a Festa da Rua de Baixo entre as experiências culturais destacadas em press trips que apresentam o potencial turístico da Serra da Mantiqueira. Ao eleger São Thomé e outras cidades da região por sua hospitalidade, sabores e patrimônio histórico, as ações reforçam a posição do estado como referência em turismo cultural, de experiências e gastronômico.


Nascida na zona rural de São Thomé das Letras, Ana Zélia, hoje com 83 anos, aprendeu os saberes da cozinha com seus pais, Seu Luciano Foguete e Dona Dorvalina. Sem acesso à escola, formou-se pela prática e pela tradição transmitida pelas mulheres pretas que lhe antecederam. Sua cozinha, marcada por sabor, afeto e ancestralidade, tornou-se referência no Panelinha, ponto de encontro para moradores, visitantes e estudiosos da cultura mineira.”Entre todos os pratos servidos no restaurante, um dos mais procurados é o tutu à mineira, vendido por R$ 130″, afirma Uriali. A iguaria é uma síntese da história da família e da culinária preta que estrutura Minas Gerais. Um simples purê espesso de feijão, engrossado com farinha de mandioca e temperado com alho e cheiro-verde, servido com lombo de porco, couve refogada, ovo frito e torresmo. A origem do prato está ligada à vida dos tropeiros, que nos séculos XVIII e XIX precisavam de alimentos nutritivos e fáceis de preparar durante longas jornadas. O tutu nasceu para “engrossar” o feijão e torná-lo mais substancioso. O nome vem do termo quimbundo quitutu, que significa “iguaria”, revelando a influência africana e a força da culinária negra nas Minas Gerais. No Panelinha, essa história ganha um novo capítulo: o prato segue preparado como antigamente, com gestos herdados de mulheres que, antes mesmo do restaurante existir, cozinhavam para tropeiros, vizinhos e trabalhadores da região. É memória que se serve quente.
Mas a importância da família de Dona Zélia vai muito além da mesa. Há mais de 60 anos, eles são responsáveis por um dos festejos mais simbólicos da cidade: a Festa da Rua de Baixo. O evento começou como uma festa junina familiar, organizada de forma comunitária, quando moradores e comerciantes doavam alimentos e recursos para que a quadrilha tomasse a rua. Era tão marcante que Ana Zélia recebeu o título de “Rainha do Congo” por sua participação na congada e por sua dedicação à festa ao longo das décadas.


A celebração aparece em fotografias antigas, como as registradas no acervo pessoal de José Bento Vasconcellos, onde uma multidão toma a Rua de Baixo em 1988. “Depois de mais de uma década de interrupção, a festa foi retomada em 2018, agora com novo sentido”, afirma Tiana, liderança responsável pelo festejo, que passou a resgatar explicitamente a história do povo preto de São Thomé das Letras — história essa tantas vezes silenciada na cidade. “Se São Thomé foi fundada por pretos, cadê nossa história? Vamos mostrar que a gente existe!”, acrescentou Tiana.


Hoje, a Festa da Rua de Baixo é a única celebração dedicada à cultura preta no município. Transformou-se em uma grande Mostra de Cultura Preta e Mineira, reunindo Folia de Reis, Congada, Terço de São Gonçalo, Samba de Roda, Afoxé, Capoeira, moda de viola, artistas locais e diversas expressões populares que emocionam moradores e visitantes. Quitutes e pratos típicos da culinária mineira — muitos deles preparados pela família de Dona Zélia — completam o clima de afeto e celebração, que movimentou a cidade nos dias 12 e 13 de julho com música, dança, memória e resistência.
A continuidade do festejo, mesmo diante das dificuldades, é prova de força coletiva. Para os 18 netos de Dona Zélia, ela é memória viva; para São Thomé, um farol que ilumina a trajetória negra da cidade. O Coletivo Festa da Rua de Baixo realiza o festejo em parceria com o Ponto de Cultura Voz da Terra, e conta com apoio da Prefeitura Municipal de São Thomé das Letras e do Ponto de Cultura Culturando na Montanha.


O impacto cultural da festa e da culinária da família vem ganhando visibilidade também no turismo. O Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG) e da Codemge, incluiu o Panelinha e a Festa da Rua de Baixo entre as experiências destacadas em press trips oficiais. Em outubro, uma comitiva de 30 jornalistas e influenciadores percorreu cidades da Serra da Mantiqueira — incluindo São Thomé — para conhecer atrativos naturais, históricos e gastronômicos. A ação integra a estratégia de fortalecer a visibilidade dos destinos mineiros por meio da promoção integrada de cultura, gastronomia e turismo. Ao longo do roteiro, o grupo participou de degustações de cafés, queijos artesanais, doces, cachaças e vivenciou experiências que representam a hospitalidade mineira. “Minas Gerais é um estado que inspira e acolhe”, afirmou a secretária de Estado, Bárbara Botega. A iniciativa reforça o papel da Serra da Mantiqueira como um dos maiores potenciais turísticos do estado, capaz de impulsionar o desenvolvimento regional e ampliar o fluxo de visitantes.
Em meio a esse movimento, o Restaurante Panelinha e a Festa da Rua de Baixo reafirmam sua relevância: são expressão viva de uma memória que se recusa a desaparecer. A comida, a música, as danças e os rituais celebrados pela família de Dona Zélia não são apenas tradições — são a prova de que a cultura preta de São Thomé das Letras sempre existiu e continua, geração após geração, a ocupar seu lugar.
Texto: Elisa Torres
Edição: Gutemberg Bogéa
A jornalista Elisa Torres viajou a convite da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG)





































































