
Convidado mais uma vez pelo amigo Gutembeg Bogéa para escrever algo sobre o aniversário de São Luís, acabei me lembrando que o mesmo pedido me fora feito quando a cidade completou seu quarto centenário. Preparei e publiquei naquela época neste guerreiro Suplemento JP Turismo um texto intitulado “Exercício de flanerie no túnel de um tempo nunca perdido de 400 anos”. Texto melancólico, no qual estavam inseridas boas memórias e algumas lamentações. E terminava assim: “estas palavras, breve exercício nostálgico, surpreendentemente me remetem ao fato de que a cidade está muito mais em mim do que eu poderia supor. E assim como eu, centenas ou milhares de leitores se identificarão com estas lembranças. O Centro Histórico de São Luís… possui uma trajetória poética, vigorosa, e a rua Grande é um dos seus símbolos, e sobre a sua espinha dorsal a cidade foi erguida. Cada recanto da antiga São Luís possui um substrato sobre o qual se pode contar e reconstruir a história da capital patrimônio da humanidade. Apesar do abandono de alguns logradouros, a cidade ainda respira beleza e heroicamente faz nascer, mesmo a duras penas, a sua mais raivosa e terna poesia”. Hoje já são novos tempos…. Novos?
E dessa interrogação me vêm à memória uma história a mim contada pelo historiador, dileto e saudoso amigo, meu patrono na Academia Ludovicense de Letras – ALL, escritor Carlos de Lima. Dizia seu Carlos que havia uma velha senhora, chamada Ludovica, que trabalhava na casa da família. Sempre que seu Carlos contava uma novidade com relação aos costumes, à cidade, a velha Ludovica exclamava: “quá, seu Carlos, tem uns ‘amioramentos’ que não passam de ‘apioramentos’…”. Concordo! Muitas das vezes o que se propaga como algo moderno não passa de coisa modernosa. Sempre reflito sobre isso quando registro alterações nos costumes ou na paisagem de São Luís, tanto em relação ao patrimônio edificado quanto ao patrimônio cultural.
E logo me vem à memória cenas vividas na Feira da Praia Grande, a antiga Casa das Tulhas, bem descrita em obra de José de Ribamar Reis. Quando eu me entendi como inveterado boêmio, a “Pharmacia de seu Riba”, como a chamávamos (uma cachaçaria que ficava num dos quiosques da Feira) era ponto de encontro de poetas, músicos, artistas de vários segmentos, desocupados, arruaceiros, funcionários públicos, os doidos de plantão, os pés inchados de sempre; enfim, uma fauna pra lá de diversificada. Ali apareciam personalidades como José Maria Nascimento, Nauro Machado, os capoeiristas Mendes e Patinho, Ubiratan Teixeira, o escritor Wilson Martins, poetas Fernando Abreu, Cunha Santos, Cláudio Terças, Ribamar Filho, Zé Maria Medeiros, compositores Uimar Cavalcante, Erivaldo Gomes (Gereba), César Teixeira, e ainda ovip Valdelino Cécio, o pessoal da Banda Guetos e tantos outros, pois a lista é grande (vou me dedicar a ampliar a lista e voltarei a este tema em outra ocasião). Era uma turma que também se abrigava, em parte, no bar do seu Adalberto, o último reduto boêmio clássico da Praia Grande. O dono do estabelecimento era seu Riba, que era evangélico e não bebia, mas tratava a todos com muito respeito e, de vez em quando, dava uns corretivos nos mais abusados. A cachaça era a pura, da terra, sobressaindo-se a de Santo Antônio dos Lopes, a Jatobá, a Faísca, de São Bento, só manguaça da boa. Mas seu Riba também servia as ditas temperadas, com ervas milagreiras, além das naturalmente batizadas, servidas para quem já lá pelas tantas começava a chamar urubu de meu louro…
A palavra pharmacia, com esse ph charmoso, vem do grego antigo (pharmakeia, significando uso de remédios, poções, veneno, filtro, feitiço, encantamento ou drogas). Na Grécia antiga, o povo acreditava que a mesma substância era capaz de curar ou de matar, a depender da dose. Cachaça também é conhecida popularmente como água benta, que possui princípios milagreiros, e é capaz de curar ou de encomendar o sujeito para vestir seu paletó de madeira. Pode curar muita dor de cotovelo, mas também pode matar pelo excesso. Muitos se foram por conta desse excesso, como o capoeirista Mendes, parceiro de grode das antigas.
Dessa pharmacia saiu muita gente envenenada pelo álcool, mas também brotaram dali muitos poemas prenhes de encantamento, muita letra de música que fez sucesso. Era uma época em que o piso da Feira era todo em pedra lioz. Até que inventaram uma reforma no local, as pedras portuguesas tomaram chá de sumiço e colocaram korodur no piso. Para onde foram essas relíquias? É assim que, aos poucos, São Luís vem perdendo seus tesouros, tanto materiais quanto humanos. A pharmacia fechou, seu Riba morreu, Zé Maria Nascimento largou a bebida, Nauro se encantou, São Luís está ficando modernosa e eu estou ficando um velho saudosista.
No entanto, a cidade resiste, pouco mais de quatrocentona. Ainda mantendo nas suas entranhas alguns fiapos de pura poesia. E viva São Luís, brindando a data com uma generosa dose da premiada cachaça maranhense da gema, Reserva do Zito!.
Texto: Paulo Melo Sousa
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