
Euges Lima
Historiador, professor, bibliófilo, palestrante e ex-presidente do IHGM
O que aconteceu na ilha do Maranhão em 8 de setembro de 1612? A resposta tradicional parece conhecida por todos: nesse dia teria sido fundada a cidade de São Luís pelos franceses. A data tornou-se o aniversário oficial da capital maranhense e atravessou gerações como uma verdade histórica aparentemente incontestável.
Mas, quando retornamos ao relato de quem efetivamente esteve naquele cenário e testemunhou os acontecimentos, o capuchinho francês Claude d’Abbeville, encontramos uma realidade diferente.
Em 8 de setembro de 1612 não houve, propriamente, um ato de fundação de uma cidade. Houve uma solene cerimônia de posse da ilha do Maranhão em nome do rei da França. Essa distinção, aparentemente simples, modifica profundamente a compreensão daquele acontecimento e nos obriga a revisitar uma das mais importantes tradições da historiografia maranhense.
Claude d’Abbeville, integrante da missão capuchinha francesa, deixou uma das principais fontes contemporâneas sobre a expedição da França Equinocial. Seu relato, na tradução de Sérgio Milliet (1945), descreve minuciosamente a cerimônia realizada em 8 de setembro.
O que vemos é uma solenidade cuidadosamente organizada. Uma grande procissão religiosa desloca-se até o local onde estava o forte. Participam dela religiosos e integrantes da expedição, além de indígenas. Há crucifixo, água benta, incenso, cânticos, velas e outros elementos próprios de uma cerimônia católica.
Mas o aspecto mais importante está além da dimensão religiosa. A procissão dirige-se ao local onde estava a cruz e, depois, ao espaço em que se encontrava o estandarte da França. Os principais indígenas são incorporados ao ritual e passam a carregar o estandarte francês, ornamentado com as flores-de-lis.
A cerimônia não estava simplesmente celebrando uma missa ou uma devoção religiosa. Ela procurava representar publicamente a submissão daquele território à autoridade do soberano francês. O próprio relato deixa isso evidente.
A cruz, a bandeira, a participação dos indígenas, a solenidade religiosa, os instrumentos militares e a presença das autoridades francesas compunham uma verdadeira encenação de soberania. Era uma cerimônia de posse.
Essa interpretação não é uma leitura isolada. A historiadora norte-americana Patrícia Seed (1999), em seu importante estudo Cerimônias de Posse na Conquista Europeia do Novo Mundo (1492-1640), analisou os diferentes rituais utilizados por espanhóis, portugueses, ingleses e franceses para afirmar simbolicamente sua autoridade sobre os territórios americanos. O episódio do Maranhão ocupa lugar específico nesse estudo.
Seed identifica o acontecimento de 8 de setembro de 1612 como o primeiro dos grandes rituais franceses de posse política realizados no Maranhão. A autora destaca justamente os dois elementos centrais daquela encenação: a procissão e o plantio da cruz.
A interpretação é particularmente importante porque retira o episódio do campo da memória local e o insere num contexto muito mais amplo: o das práticas políticas utilizadas pelas monarquias europeias para tomar posse simbólica das terras do Novo Mundo.
A cerimônia do Maranhão não foi, portanto, uma excepcionalidade. Ela fazia parte de uma linguagem política europeia.
A cruz representava o cristianismo; a bandeira representava o rei; a participação dos indígenas conferia ao ritual uma aparência de consentimento; e a solenidade pública transformava a ocupação militar em uma representação de domínio legítimo.
É nesse contexto que devemos compreender o 8 de setembro. E onde estava Daniel de La Touche? Na memória tradicional da fundação de São Luís, Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, ocupa posição central. Ele é frequentemente apresentado como o fundador da cidade.
Entretanto, quando lemos atentamente o relato de d’Abbeville, chama atenção justamente a maneira como La Ravardière aparece, ou, mais precisamente, a maneira como ele não aparece no protagonismo que posteriormente lhe foi atribuído. Percebemos um total silêncio por parte do texto de Abbeville a respeito da figura de Daniel de La Touche nessa cerimônia do 8 de setembro, deixando transparecer uma ausência do huguenote na cerimônia eminentemente católica. O “fundador” teria faltado a “fundação?”

O relato da cerimônia concentra-se na liturgia, nos indígenas, nos capuchinhos, no estandarte francês e, sobretudo, na atuação de François de Razilly. A partir de d’Abbeville, percebe-se na própria estrutura do relato, evidência que Razilly desempenha papel central no ato de posse e na declaração dirigida aos indígenas.
Se estivéssemos diante de um verdadeiro ato formal de fundação de uma cidade chamada São Luís, seria natural esperar uma declaração explícita nesse sentido, com a indicação do lugar como cidade e com a identificação clara do fundador. Nada disso aparece dessa maneira no relato de d’Abbeville. O que aparece é outra coisa: uma cerimônia de apropriação territorial francesa.
A cruz plantada em 8 de setembro possui enorme importância simbólica, mas não constitui, por si só, a fundação de uma cidade. Os europeus utilizavam cruzes, estandartes, cerimônias religiosas e outros objetos como instrumentos de afirmação de domínio territorial. A cruz podia representar simultaneamente a cristianização e a apropriação política do território.
No Maranhão, os dois sentidos aparecem associados. O próprio percurso dos franceses demonstra isso. Antes de 8 de setembro, já haviam ocorrido outros rituais religiosos e de posse. Em 29 de julho, na pequena ilha posteriormente denominada Santana, os franceses já haviam realizado uma cerimônia envolvendo cruz, procissão e bênção. E em agosto ocorreu outra importante solenidade religiosa. Portanto, 8 de setembro não pode ser isolado de todo o conjunto ritual que acompanhou a chegada e a instalação francesa.
Quando a posse virou fundação? É aqui que a questão se torna ainda mais interessante. Durante muito tempo, a historiografia maranhense não considerou 8 de setembro de 1612 como o nascimento de São Luís. A transformação dessa cerimônia em “auto de fundação” ocorreu posteriormente.
No final do século XIX e, sobretudo, no início do século XX, começa a surgir uma nova interpretação sobre as origens da cidade. José Ribeiro do Amaral terá papel decisivo nessa mudança.
Em trabalhos publicados em 1911 e, principalmente, no livro Fundação do Maranhão, de 1912, Ribeiro do Amaral reinterpretou o acontecimento descrito por d’Abbeville.
Aquilo que anteriormente poderia ser compreendido como uma cerimônia de posse francesa passou a ser apresentado como o “verdadeiro auto de fundação da cidade”. A própria edição de Fundação do Maranhão registra expressamente essa formulação de Ribeiro do Amaral.
Ela altera o sentido do acontecimento e transforma uma cerimônia de soberania francesa em certidão de nascimento de São Luís.
A partir dessa releitura, o ano de 1612 passa a assumir novo significado. O francês deixa de ser apenas o ocupante estrangeiro derrotado pelos portugueses em 1614 e passa a ocupar o papel de fundador da cidade.
A interpretação ganha força justamente no contexto das comemorações do terceiro centenário, em 1912. A operação realizada por Ribeiro do Amaral teve enorme impacto na memória da cidade.
O 8 de setembro passou a ser apresentado como a data inaugural de São Luís. A antiga cerimônia francesa foi incorporada à identidade da capital maranhense e transformada em marco fundador.

Não se trata de negar a importância histórica dos franceses. Ao contrário. A França Equinocial constitui capítulo fundamental da história do Maranhão. A chegada de La Ravardière, Razilly, d’Abbeville e dos demais integrantes da expedição, a aliança estabelecida com grupos indígenas, a construção do forte e a tentativa de implantação de uma colônia francesa são acontecimentos incontornáveis.
O que precisa ser discutido é outra coisa: qual foi exatamente a natureza do acontecimento de 8 de setembro de 1612? E a documentação disponível permite responder: foi uma cerimônia de posse política e religiosa da ilha do Maranhão em nome do rei da França.
Não encontramos, no relato de d’Abbeville, a descrição de um “auto de fundação” de uma cidade chamada São Luís.
A questão não é simplesmente escolher entre uma “verdade francesa” e uma “verdade portuguesa”. São Luís possui uma história francesa, portuguesa, indígena, africana e brasileira. A cidade é resultado de processos sucessivos de ocupação, conflito, transformação e construção de memória.
O problema surge quando uma interpretação produzida séculos depois é apresentada como se fosse a descrição literal do acontecimento de 1612.
A memória criou o aniversário de São Luís em 8 de setembro. A historiografia do início do século XX conferiu à cerimônia francesa um significado fundacional. E a cidade incorporou essa narrativa como parte de sua identidade.
Mas o historiador deve retornar às fontes. E, quando retornamos a Claude d’Abbeville, encontramos uma cerimônia extraordinariamente rica em símbolos de poder. Os franceses levaram a cruz. Os indígenas carregaram o estandarte da França. A ilha foi solenemente abençoada. O poder do rei foi simbolicamente afirmado. E tudo isso ocorreu diante de uma população que os franceses pretendiam incorporar à sua empresa colonial era uma tomada de posse. Essa é, talvez, a maneira mais adequada de compreender o 8 de setembro de 1612. Revisitar o 8 de setembro não significa retirar importância da data. Significa devolver-lhe seu significado histórico.
A grandeza daquele dia não está necessariamente em ter sido o “nascimento” de uma cidade, mas em ter representado um momento extraordinário da disputa europeia pelo Novo Mundo. Naquele dia, os franceses procuraram afirmar que a ilha do Maranhão pertencia ao domínio do rei da França.
Três séculos depois, essa memória seria reinterpretada por Ribeiro do Amaral e transformada em narrativa fundadora. A partir de então, 8 de setembro de 1612 deixaria de ser apenas a data de uma cerimônia de posse francesa para tornar-se o aniversário de São Luís.
É justamente nessa passagem, da posse à fundação, do acontecimento à memória, da cerimônia política à tradição urbana, que reside uma das mais fascinantes questões da historiografia maranhense.
Por isso, neste 8 de setembro, talvez seja necessário fazer uma pergunta diferente. Não apenas: “Quando São Luís foi fundada?” Mas: “Quando e por que passamos a considerar que São Luís foi fundada em 8 de setembro de 1612?” A resposta nos leva de volta a Claude d’Abbeville, passa pela análise de Patrícia Seed e chega a Ribeiro do Amaral, no início do século XX. E revela algo essencial ao trabalho do historiador: o passado não muda, mas a maneira como as sociedades o interpretam pode mudar profundamente. O 8 de setembro de 1612 continua sendo uma das datas mais importantes da história do Maranhão.
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