
Por Euclides Moreira Neto
Se você quiser entender São Luís, não comece pelo mapa. Comece pelo som. Pelo batuque do tambor de crioula numa rua da Madre Deus, pelo gemer da zabumba do bumba boi no João Paulo, pelo chiado do reggae num barzinho do Centro. São Luís não se visita. Se escuta.
Nestes 414 anos, a cidade que os franceses batizaram de Saint Louis em 1612 e que portugueses e holandeses disputaram a ferro e a cruz, aprendeu a ser muitas cidades numa só. E é isso que o turista – e sobretudo o ludovicense – precisa redescobrir.
Nosso roteiro começa onde tudo começou: no Centro Histórico. Não como cartão-postal congelado, mas como organismo vivo. São mais de 3.500 imóveis tombados, o maior conjunto de azulejaria portuguesa da América Latina. Cada fachada é um livro. O azulejo não era só enfeite: era climatizador, era status, era a forma que o colono encontrou de dizer que era rico no tempo do algodão. Quando o sol bate às quatro da tarde na Rua Portugal, a rua brilha. É Pombalina, inspirada nas reformas do Marquês de Pombal. Mas quem levantou cada pedra foram mãos negras, africanas, trazidas à força para cá. Nosso turismo precisa contar essa história inteira, não só a parte bonita.
Desça para a Praia Grande. Entre no Museu do Reggae, o único do Brasil dedicado ao ritmo jamaicano. Ali você entende por que somos a Jamaica Brasileira. O reggae aqui não é importado: é traduzido, é nosso. É de lá que você segue para as embarcações. No Cais da Sagração, ainda resistem os mestres que fazem canoas de um pau só, uma tecnologia ancestral. Passeio de barco pela Baía de São Marcos, ao pôr do sol, é obrigatório. Ver a cidade a partir do mar é entender por que os invasores a queriam tanto.
São Luís é também a cidade que Padre Antônio Vieira tentou defender dos escravocratas e por isso foi expulso. Essa memória de conflito, de resistência, está em cada canto. Está no Museu do Bumba Meu Boi, que precisa ser visitado não em junho, mas o ano todo. O Bumba Meu Boi, Patrimônio Imaterial da Humanidade, não é show de temporada. É teatro, é ópera popular, é nossa forma de contar a história do campo e da cidade. O mesmo vale para o Tambor de Crioula: vá a uma roda. Deixe o tambor chamar.
Fomos a Atenas Brasileira porque mandamos nossos jovens estudar em Coimbra e eles voltaram fundando academias, jornais e livrarias. Essa vocação intelectual está viva nos sebos da Rua do Giz, nos cafés do Reviver, nas casas de cultura que resistem.
E por que digo resistir? Porque o turismo de São Luís vive um contrassenso. Vendemos a Ilha do Amor lá fora, mas descuidamos de quem faz a ilha ser amor aqui dentro. O turista quer autenticidade. Ele não vem a São Luís para ver um show que ele vê no Rock in Rio. Ele vem para ver o que só existe aqui. Hoje, o que vê? Gastamos milhões com cachês de fora no São João e no Carnaval, enquanto o grupo de boi que ensaia o ano inteiro no Anjo da Guarda recebe migalhas e com atraso. Não temos sequer uma Passarela do Samba digna para o nosso carnaval, que é um dos mais criativos do país. Como queremos ser destino turístico de excelência se negamos estrutura ao nosso maior produto, que é a cultura popular?
O turista volta quando é bem recebido. E o anfitrião só recebe bem quando é valorizado. Valorizar o fazedor local é política de turismo. Dar palco, pagamento justo e calendário anual para boi, tambor, blocos afros e reggae é garantir que o visitante encontre a cidade viva em setembro, em novembro, e não só em junho.
São Luís tem tudo para ser o principal destino cultural do Norte-Nordeste: história de quatro invasões, arquitetura única, títulos da UNESCO, gastronomia de peixe, arroz de cuxá e tiquira, belezas naturais do Dique ao Araçagy, e um povo que sabe acolher.
Nestes 414 anos, o convite que faço, como professor e como apaixonado por esta cidade, é simples: faça turismo na sua própria cidade. Caminhe sem pressa pelo Centro. Converse com o artesão. Entre numa casa de tambor. Ouça a história que o azulejo conta.
São Luís não precisa inventar um futuro. Precisa reencontrar seu passado com respeito ao seu povo. Quando o poder público entender que cultura popular não é gasto, é investimento, que o mestre de boi é tão importante quanto o artista da televisão, aí sim deixaremos de ser apenas a cidade dos títulos e voltaremos a ser a cidade do futuro.
A luz no fim do túnel existe. E ela tem cor de azulejo azul, som de tambor e sotaque de bumba boi.
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