A fé que move montanhas na consolidação do turismo paraense

A festa do Círio de Nazaré, em Belém do Pará, nos transporta para aquilo que parece ser um mundo de gratidão, amor, sentimento, união, amizade e companheirismo, bem visíveis na aura das pessoas. É perceptível uma atmosfera que nos permite acreditar que o amor move montanhas e que ainda existem muitas possibilidades de se construir e reconstruir para melhor

Acreditar, seguir em frente, ter fé em tudo aquilo que lhe é possível, é a sina daquele que coloca suas gratidões em primeiro plano e persevera no poder do senhor, através das suas orações. Sentir o Espírito Santo dentro de si e a força que vem do conversar com Deus, não são meros acontecimentos, são buscas constantes, na condição primordial de todo amor existente

A festa do Círio de Nazaré, em Belém do Pará, nos transporta para aquilo que parece ser um mundo de gratidão, amor, sentimento, união, amizade e companheirismo, bem visíveis na aura das pessoas. É perceptível uma atmosfera que nos permite acreditar que o amor move montanhas e que ainda existem muitas possibilidades de se construir e reconstruir para melhor

Centenas de embarcações acompanham a procissão fluvial do Distrito de Icoaraci até a Escadinha do Caís do Porto de Belém – Foto: João Ramid
Milhares de fiéis reverenciam Maria Mãe de Jesus na Praça do Santuário de Nossa Senhora de Nazaré – Foto: João Ramid

Belém, no Norte do Brasil, é assim. No Pará, a religiosidade e o turismo caminham de mãos dadas no fortalecimento, cada vez maior, de suas festividades e peculiaridades atrativas que fazem do estado um forte e potente destino do turismo brasileiro.

Essa possibilidade se descortina na medida em que nessa trajetória festiva, sua gente e seus costumes não sofrem transfigurações em sua essência, não se modifica e nem sofre radicais mudanças, como vemos em diversas culturas e costumes que se fazem presentes na cultura popular brasileira, e que hoje se perdem ao desconstruir sua originalidade. O que se vê permanece como no passado, em toda sua magnitude, roteiro e perseverança espiritual capitaneada pela fé de sua gente.

Ao adentrar o espaço geográfico do estado paraense, já se percebe um conjunto de fatores e ecossistemas diferenciados, com campos inundáveis e salinos, manguezais, várzeas de marés e restingas que compreendem uma terra, um solo de bastante produtividade.

Assim, o Pará começa a se diferenciar de outras regiões, através de suas peculiaridades. Um estado com uma boa parte do pulmão brasileiro, a Amazônia, com uma extensa faixa da exuberante e densa floresta, com propriedades de clima tropical, mas dominado pelo clima equatorial que permeia a maior parte da Floresta Amazônica.

FÉ E RESPEITO – Na estrada, romeiros e promesseiros ganham os acostamentos em passos rumos à capital. Nesse ínterim, já se sente o diferente, já se percebe a forma e enormidade que as homenagens a Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do estado, toma nessa procissão de devotos. Grupos a pé, em bicicletas, motoqueiros, ônibus, automóveis fazem o trajeto para a capital paraense, todos com o mesmo objetivo, o de reverenciar Maria – Mãe de Jesus.

Nos restaurantes das estradas que ligam a Belém, camisetas, bonés, utensílios religiosos se colorem em meio a familiares e amigos, numa mostra do destino que todos irão seguir, juntos em uma só alegria e fé contagiante.

Na capital, Belém, turistas desembarcam de todas as cidades brasileiras e do mundo. Durante a semana que antecede o segundo domingo do mês de outubro, a população decora a cidade para uma das maiores festas religiosa do Brasil, o Círio de Nazaré. Balões enfeitam as vitrines, fachadas das casas e empresas espalhadas pelo centro da cidade, assim como nos arredores e bairros mais afastados.

A cidade se enfeita, a fé toma conta da população. Hotéis mostram a força da gastronomia e da cultura popular paraense com danças e o famoso carimbó – gênero musical de origem indígena com influências da cultura negra e portuguesa -, ritmo tradicional tocado por toda a cidade e em recepções espalhadas pela rede hoteleira da capital, todos os hotéis com 95% de seus leitos ocupados, numa média quase que permanente no período de todos os anos, principalmente nos três dias do ponto máximo da festa, no segundo final de semana de outubro, sexta-feira, sábado e domingo, segundo dados do Sindicato de Hotéis Restaurantes, Bares e Similares do Estado do Pará (SHRBS-PA).

Religiões em comunhão no Auto do Círio realizado pela Escola de Teatro e Dança da UFPA – Foto: João Ramid

JUNTOS E MISTURADOS EM UMA SÓ DEVOÇÃO – O profano se mistura ao religioso. A receptividade se aflora, os visitantes se encantam, as religiões se entrelaçam na maior naturalidade, a cidade respira turismo; logradouros, recantos, pontos turísticos recebem pessoas vindas de todos os cantos do mundo.

Não existe espaço para a discriminação, para a soberba, é o sentimento de fraternidade fluindo entre as pessoas naquela que é a festa do calendário paraense mais importante para sua gente, a festa que ultrapassa em comemoração, o Natal – o nascimento de Cristo Jesus -, e que naquela data festiva é representada pela mãe de Jesus Cristo, Maria, em toda sua plenitude para reverência dos paraenses. É o Círio de Nazaré provando a todos os presentes que o mundo fica melhor quando se quer, e todos ali parecem querer.

O aroma da exótica e apetecível gastronomia paraense ganha os quatro cantos da cidade – Foto: João Ramid

SEUS COSTUMES, ATRATIVOS E SABORES – A cidade transformada recebe os romeiros, promesseiros e turistas, o Complexo Turístico e Cultural da cidade, a Estação das Docas, antigo Porto da capital paraense se transforma na passarela dos que visitam Belém, o lugar congrega aspectos peculiares da gastronomia entre pratos como: pato no tucupi, muçuã, caruru, taperebã, piracui, pirarucu, filhote de pai d`égua, tacacá, maniçoba, além de cultura e toda uma diversidade de atrativos turísticos da região em frente a Baia do Guajará, de onde se pode fazer algumas viagens mais longas, assim como um breve passeiono Rio Guamá, observando os atrativos histórico da capital paraense, dentre  o Ver-o-Peso, Forte do Presépio, Casa das Onze Janelas, Cidade Velha, Porto do Sal, assim como a Ilha de Marajó e algumas ilhas próximas.

Religiosos e turistas acompanham a passagem da imagem nas ruas e avenidas da capital – Foto: João Ramid

PROCISSÕES E MUITA EMOÇÃO – Onze procissões fazem parte da programação da Festa do Círio de Nazaré. No sábado, véspera do Círio, a Romaria Rodoviária tem inicio às 5h30. A imagem de Nossa Senhora de Nazaré sai da Igreja Matriz de Ananindeua (PA) em direção à orla do Distrito de Icoaraci, com chegada prevista para 8h da manhã. Ao longo dos 24 quilômetros da procissão, acontecem diversas homenagens e queima de fogos no atravessar de toda cidade rumo ao histórico distrito.

A partir de Icoaraci começa a Romaria Fluvial, que faz um percurso de 18km pelas águas da Baía de Guajará, considerada um dos momentos mais belos da festa, onde centenas e embarcações acompanham a Imagem Peregrina que nesse trajeto é levada por uma embarcação da Marinha do Brasil.

Na chegada à Escadinha do Cais do Porto, já em Belém, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré é recebida com honras pela Polícia Militar e aguardada por motociclistas, na Moto Romaria. O cortejo de 2,6 quilômetros pelas ruas da capital paraense leva a imagem até a Basílica Santuário, onde acontece uma das cerimônias mais esperadas, a descida da Imagem Original de Nossa Senhora de Nazaré do Glória sobre o altar-mor.

No limite da dor e na fé, devotos seguem em caminhada pelas ruas da capital – Foto: João Ramid

O domingo do Círio é marcado pela maior concentração de fiéis, o dia já amanhece com milhares de pessoas percorrendo as ruas logo nos primeiros raios do sol. Na principal procissão de 3,6 quilômetros, da Catedral até a Praça Santuário de Nazaré, o que se vê são as mais fortes manifestações de fé que se possa tentar imaginar. Pessoas pagam promessas ajoelhadas pelas ruas lotadas, outras mostram toda sua gratidão pelos objetivos alcançados em suas vidas carregando réplicas de casas, carros, em meio às lágrimas e emoção que toma conta da cidade e transparece nos mais diversos semblantes espalhados pelas avenidas, são olhares atônitos, curiosos, espantados, tomados pela felicidade, súplica, emoção, devoção e fé.

A busca pelo tocar na corda da berlinda que carrega a imagem de Nossa Senhora de Nazaré também mostra a efervescência de cada momento, a passagem da corda se transforma em um dos principais ícones da festividade. Ela é usada nas duas maiores e mais tradicionais procissões: o Círio na manhã do segundo domingo de outubro e na Trasladação, que acontece na noite da véspera.  A corda passou a fazer parte do Círio em 1885, quando uma enchente da Baía do Guajará alagou a orla do Ver-o-Peso até as Mercês, no momento da procissão, fazendo com que a Berlinda ficasse atolada e os cavalos não conseguissem puxá-la. Os animais, então, foram desatrelados e um comerciante local emprestou uma corda para que os fiéis puxassem a Berlinda. Desde então, o símbolo foi incorporado às festividades e passou a ser um elo entre Nossa Senhora de Nazaré e os fiéis.

O médico cearense Paulo Roberto Lívio de Meneses, juntamente com a família, participou da procissão do Círio de Nazaré, acompanhando cerca de quatro quilômetros. Paulo Roberto ficou impressionado com a movimentação e fé nas ruas da capital paraense. “Foi muito emocionante ver o povo nas ruas, movido pelo espírito de amor que envolve toda a população, uma festa digna das mais importantes festas religiosas do mundo”, comentou o médico. Os familiares de Paulo Roberto participaram de quase todas as procissões.

O Estado do Pará, mais uma vez, deu mostras de um conjunto de valores necessários para o fortalecimento de toda uma cadeia produtiva, a organização, preservando: tradição, crença e costumes, tudo isso na valorização de seu potencial natural, cultural e histórico.

O JP Turismo viajou para a cidade de Belém a convite da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo –Abrajet/Seccional Pará, numa parceria do Projeto Transatlântico Pará/Portugal, e apoio da Secretaria de Turismo do Estado do Pará – Setur, da Prefeitura da Salinas/PA, através da Secretaria Municipal de Salinópolis e da Deputada Estadual Paula Gomes – Presidente da Comissão Parlamentar de Turismo da Assembleia Legislativa do Estado do Pará.

Texto: Gutemberg Bogéa



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