No mês de agosto, Natividade e Taguatinga transformam antigas manifestações de fé em experiências que revelam a riqueza cultural das Serras Gerais

Em agosto, o Sudeste do Tocantins muda de ritmo. Em Natividade, os passos dos romeiros percorrem a estrada que leva ao Santuário do Senhor do Bonfim. Em Taguatinga, cavalos, mascarados e cavaleiros tomam conta das ruas e do Cavalhódromo para reviver uma tradição que atravessa gerações, durante os Festejos de Nossa Senhora D’Abadia. Distantes poucos quilômetros, as duas manifestações têm histórias e rituais próprios, mas compartilham a capacidade de manter viva a memória e a fé.
Mais do que festas do calendário religioso, a Romaria do Senhor do Bonfim e as Cavalhadas de Taguatinga são expressões de um patrimônio cultural que continua sendo praticado, transmitido e reinventado pelas comunidades. E, ao reunir devoção, história e cultura popular, também abrem possibilidades para o turismo no território das Serras Gerais.

Caminho feito de fé
Em Natividade, a tradição do Senhor do Bonfim remonta ao século XVIII, período de formação dos primeiros arraiais do atual Tocantins. A história contada pelos moradores fala de um vaqueiro que teria encontrado uma pequena imagem de Cristo crucificado sobre um toco de madeira. Levada para Natividade, a imagem teria desaparecido e reaparecido repetidamente no mesmo local, levando os devotos a construir ali o santuário que deu origem ao povoado do Bonfim.
Todos os anos, milhares de fiéis refazem esse caminho. A peregrinação entre Natividade e o povoado do Bonfim percorre cerca de 24 quilômetros, em uma caminhada que, para muitos, representa penitência, pagamento de promessa ou simplesmente uma demonstração de fé.
O calendário oficial dos festejos se estende de 6 a 17 de agosto, com o ponto alto no dia 15, quando é celebrada a missa campal em louvor ao Senhor do Bonfim. O povoado, com poucas casas, ganha outra dimensão durante a festa, com áreas de camping, barracas de alimentação, tendas para proteção dos fiéis durante as missas, comércio de artigos religiosos e outros serviços. voltados aos romeiros.
A tradição não se limita à Natividade. A Romaria do Senhor do Bonfim também acontece em Araguacema, no oeste do Estado.
Cavalos e cores
A cerca de 216 km de Natividade, Taguatinga preserva outra manifestação que mistura religiosidade, história e cultura popular. As Cavalhadas acontecem durante os festejos de Nossa Senhora da Abadia, padroeira do município, também em agosto.
A tradição recria a luta entre cristãos e mouros, inspirada nas batalhas medievais da Península Ibérica. O ritual começa com a bênção do sacerdote aos cavaleiros e a entrega das lanças que serão utilizadas durante a apresentação. Em seguida, entram em cena os exércitos, o rei, o embaixador e os 24 guerreiros que representam os dois lados do conflito.
O espetáculo é também uma festa de cores e símbolos. Os cristãos vestem azul, enquanto os mouros usam vermelho. Os cavalos são cuidadosamente ornamentados e os cavaleiros usam trajes, adornos e arreios preparados especialmente para a celebração.
As encenações incluem desafios, batalhas e demonstrações de habilidade dos cavaleiros, como a tradicional corrida para pegar argolas suspensas no centro da arena. No segundo dia, a narrativa chega à rendição dos mouros e à conversão ao cristianismo.
Mas talvez a característica mais importante das Cavalhadas de Taguatinga esteja fora da arena. A participação nos grupos de cristãos e mouros é uma tradição transmitida entre famílias da cidade desde os anos de 1930, com referências às festividades de Pirenópolis (GO). A preparação dos trajes e da selaria também faz parte desse conhecimento passado de uma geração para outra.
A programação inclui missas na igreja de Nossa Senhora D’Abadia, no coração da cidade, e shows noturnos movimentados.
Mais que festas
Quando uma manifestação religiosa chega ao calendário turístico, existe uma linha delicada entre valorização e transformação da tradição em espetáculo. No caso das festas do Sudeste tocantinense, o desafio está em fazer com que a circulação de visitantes fortaleça aquilo que já existe: as comunidades, os saberes, o patrimônio, o comércio local e a própria experiência de fé.
A Romaria do Bonfim e as Cavalhadas mostram que turismo e religiosidade podem compartilhar o mesmo território sem que um precise substituir o outro. Para o visitante, a experiência pode representar uma oportunidade de conhecer uma tradição; para quem participa dela todos os anos, trata-se de algo muito mais profundo, uma prática que pertence à memória e à identidade da comunidade.
Texto: Seleucia Fontes
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