


A igreja na qual acontece o festejo foi erigida em razão do fato de que, na época, os negros escravizados eram proibidos de frequentar a igreja dos brancos (igreja de Nossa Senhora do Carmo). O templo foi benzido no dia 29 de maio de 1803 pelo vigário José de Almeida e Silva, tendo início o culto, após a chegada, à igreja, das imagens de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito. Em 1974, uma parte da construção desabou, sendo prontamente restaurada. Em razão do fato de que foram os negros escravizados que ergueram a igreja (no local da construção e no seu entorno existia um antigo cemitério de escravizados) com o suor do próprio rosto, tornou-se tradição festejar São Benedito (provavelmente em pagamento de promessa), anualmente, em frente ao templo, numa festa que vem atravessando várias gerações.

Embora tenha sofrido várias modificações, o que é natural em todo processo cultural, a festa continua atraindo o interesse dos devotos do santo, além de mestres de Tambor-de-Crioula, oriundos de vários povoados de Alcântara, sobretudo de comunidades quilombolas rurais que se apresentam com seus grupos em frente à igreja, durante o transcurso da festa. Com o toque cadenciado dos tocadores, a dança frenética e sensual das coreiras, a realização de ladainhas e de procissão, contando com a presença da comunidade alcantarense e de turistas e devotos, o festejo continua atraindo a atenção dos adeptos da manifestação religiosa, que também apresenta naturalmente seu lado dito profano.
Alcântara sempre recebe muitos visitantes por ocasião do festejo que, neste ano, teve início quinta-feira, 27 de agosto, e prossegue até a próxima segunda-feira, dia 31 de agosto. A festa é móvel, e se realiza de acordo com a lua cheia, que neste ano acontecerá no sábado, dia 29. Essa tradição se firmou pelo fato de que, na época do início do festejo, a cidade não possuía luz elétrica, e a lua ajudava, ao lado das fogueiras, a iluminar o local. A eletricidade chegou; no entanto, sempre se observou a tradição (com algumas exceções, em alguns anos), com a presença da força da lua.
A permanência da fé dos devotos
Com o passar dos anos, houve uma diminuição da presença de grupos de Tambor-de-Crioula no evento, já que não é fácil angariar recursos. A organização do festejo, contudo, aposta nas parcerias, no voluntariado, e nas doações dos devotos para driblar as naturais adversidades, pois um festejo dessa natureza requer planejamento e muito trabalho para garantir alimentação dos participantes, traslado, acomodação decente na cidade, decoração do ambiente, dentre outros detalhes.

O festejo possui vários ícones. Dona Fausta, antiga festeira, sempre era relembrada por seu Liene Pinheiro, que comandou o festejo durante muitos anos. Dona Naíza também é citada por todos como fiel devota do santo e grande organizadora da festa. Pessoas da comunidade estão direta ou indiretamente ligadas a São Benedito. Em conversa descontraída com dona Zeneide Patrícia Lima Ribeiro, oriunda do povoado de Peru (de uma localidade chamada Cá Vem), nascida ali a 17 de março de 1938, e moradora da sede há 20 anos, ela declara que “antes de eu vir morar aqui eu já ajudava; era no tempo de seu Manduca, seu Liene e de dona Naísa, e aí eu limpava carne, fazia bolo, o que faço até hoje, dando minha ajuda. Hoje já não é como dantes, que o tambor amanhecia tocando; agora, por causa das festas ali perto, do reggae, quando dá meia noite ou pouco mais o tambor se cala. Sempre houve muita fartura, muita bebida: vinho, conhaque, cachaça. Eu digo que sou da casa de dona Maria de Liene, gosto muito de todos de lá, e estou sempre disposta a ajudar, descasco coco, ajudo a fazer bolo, tudo pelo santo”.
Ao longo do festejo os tambores ecoam, relembrando o antigo esplendor dessa manifestação cultural que atrai mestres e mestras de todos os cantos, inclusive da capital. Neste ano, a programação do Festejo teve o diferencial de se abrir, em São Luís, na Galeria de Arte Trapiche Santo Ângelo, a Exposição “Mantos de São Benedito de Alcântara”, no dia 12 de agosto de 2026. A exposição ficará em cartaz até o dia 10 de setembro.
Segundo nos diz a advogada Alda Pinheiro, atual Coordenadora da ASBA, “dando continuidade às atividades, no dia 22 de agosto, a Associação, com a organização de Augusto Pinheiro, Caerão e outros, promoveu um mutirão para pintar a igreja por fora, unindo a comunidade. No dia 24 de agosto o grupo de trabalho masculino começou a organizar o largo. Com montagem do cercadinho no qual ficam coreiros e coreiras para as apresentações, colocação de ariris e bandeirinhas. Teremos apresentações de vários grupos de Tambor-de-Crioula de povoados de Alcântara, tais como Mocajituba 2, Só Assim, Itamatatiua, dentre outros. Haverá também, como aconteceu no ano passado, a exposição de dez mantos de São Benedito no interior da igreja. A expectativa é pulsante, e estamos contando com a presença de devotos, promesseiros, de pessoas que apreciam a nossa cultura. A minha atuação na ASBA é desde sua fundação. Sou sócia fundadora da Associação, em agosto de 1994. Em 2022, assumi a direção para reorganizar a ASBA e o festejo. Juntamente com os sócios e a comunidade, estamos resgatando algumas tradições, como os balões que guarnecem o portal da igreja (Salve São Benedito), e o restabelecimento de contato com algumas comunidades que estavam distantes: São Raimundo, Cajueiro, dentre outras. Queremos restabelecer a pujança do festejo, pois essa foi uma de nossas metas, e creio que já conseguimos tal intento, em parte”.

Contando com a presença da comunidade, e de devotos, tocadores, coreiras, que chegam à cidade Museu a Céu Aberto buscado o encanto do festejo, acontece a renovação da fé e de laços afetivos que vêm sendo construídos ao longo de anos durante a permanência desse maravilhoso evento cultural alcantarense. Viva São Benedito!
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Serviço
O quê? Festejo de São Benedito de Alcântara
Quando? De 27 a 31de agosto de 2026
Onde? Igreja (interior e adro) de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (igreja do Galo)
Promoção: Associação de São Benedito de Alcântara – ASBA
Ações do festejo: Missas, ladainhas, procissão, distribuição de alimentos, toque de Tambor-de-Crioula.
Doações pelo pix: 00.744.167/0001-67
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Texto: Paulo Melo Sousa
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