A nova expedição do VerAmazônia (João Ramid e Mariluz Coelho), chegou ao Baixo Amazonas, onde o rio Amazonas desenha a paisagem e a floresta molda a vida. Depois de percorrer comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas e territórios marcados pelos desafios das mudanças climáticas, o projeto desembarcou em Juruti para acompanhar um festival, que começou a ser conhecido como uma manifestação folclórica, e um dos mais surpreendentes espetáculos culturais da Amazônia brasileira.

A experiência revelou algo maior. Quarenta anos depois, o retorno à cidade onde esta história também começou permitiu um novo olhar. O jornalismo socioambiental e a pesquisa científica levaram a equipe do VerAmazônia por diferentes territórios da Amazônia e da Europa, investigando as relações entre cultura, natureza e sociedade. Foi essa trajetória que trouxe uma nova pergunta para Juruti: o que, de fato, representa hoje o Festribal?
A resposta não surgiu em uma única noite de espetáculo. Ela foi sendo construída em cada conversa com artistas e moradores, na dedicação de centenas de voluntários e, sobretudo, na dimensão artística apresentada pelas tribos Munduruku e Muirapinima.
Ao final da cobertura, uma impressão permanecia: o festival cresceu. Cresceu artisticamente, em qualidade técnica e na capacidade de transformar a Amazônia em narrativa. O que ainda parece não ter crescido na mesma proporção é o reconhecimento nacional e internacional de um espetáculo que há muito tempo ultrapassou os limites de uma celebração regional.

A arena onde a Amazônia fala
Basta a luz diminuir para que Juruti desapareça. No lugar da pequena cidade do oeste do Pará, surge uma Amazônia grandiosa, construída por centenas de artistas que transformam a arena em palco para contar histórias, denunciar ameaças e celebrar a vida.
Nos dois anos em que o Tribódromo permanece em reforma, cada tribo passou a apresentar seu espetáculo em sua própria arena, inspirada no espaço simbólico de sua aldeia. Enquanto uma ocupava o palco, a outra acompanhava a apresentação por telões, respeitando o território e o tempo da rival.
Em 2027, com a reabertura do Tribódromo, as duas voltarão a dividir a mesma arena. O reencontro promete devolver ao festival uma de suas imagens mais emblemáticas: duas paixões ocupando um único espaço. Mas isso revela também um novo desafio. O público já não cabe na estrutura construída décadas atrás. O Festribal cresceu, e a procura por ingressos passou a mostrar que o espaço se tornou pequeno para a dimensão que o espetáculo alcançou. Quem assiste pela primeira vez dificilmente permanece indiferente.

Quando duas tribos contam a mesma Amazônia
É na rivalidade que o Festribal encontra sua força para continuar. À primeira vista, tudo parece girar em torno da disputa. De um lado, a Munduruku, nas cores amarelo e vermelho. Do outro, a Muirapinima, em vermelho e azul. A cidade escolhe um lado, veste suas cores, canta seus hinos e transforma o festival em uma paixão coletiva que atravessa gerações. A rivalidade é intensa. É ela que movimenta Juruti durante meses, mobiliza centenas de artistas e voluntários e faz da torcida parte inseparável do espetáculo.

Mas basta assistir às duas apresentações para perceber que a disputa fica na superfície do espetácuo. Na arena, não é apenas competição entre duas tribos. É o encontro de duas formas de interpretar a Amazônia. A pioneira Munduruku, inspirada no povo que deu origem à história de Juruti, apresenta “Puxirum – O Levante dos Povos”, um espetáculo-manifesto que transforma o antigo mutirão amazônico em um chamado contemporâneo à união.
A partir das cosmologias indígenas, dialoga com o pensamento de lideranças como Davi Kopenawa e lembra que a crise climática não é apenas ambiental. É também uma crise da relação entre a humanidade e a natureza. Em cena, a construção coletiva da maloca, os rituais Xavante, a espiritualidade Yanomami e a mãe-terra dos povos Tupi unem-se em uma mesma narrativa: somente uma aliança entre povos, saberes e gerações será capaz de sustentar o céu e proteger a vida.

A Muirapinima escolhe outro caminho. Em vez do manifesto, apresenta “Sentimentos”. Poderia parecer uma resposta mais intimista. Mas é justamente aí que reside sua força. A tribo lembra que nenhuma mobilização coletiva nasce apenas da razão. Antes da luta existe o pertencimento. Antes da resistência existe o afeto. Antes da defesa da floresta existe o sentimento de fazer parte dela. O espetáculo recupera a memória dos fundadores da tribo, homenageia as gerações que mantiveram viva essa tradição e reafirma que proteger a Amazônia também é preservar aquilo que une um povo ao seu território: sua identidade, sua cultura e sua história.
É nesse ponto que o Festribal revela sua singularidade. As duas tribos não contam histórias opostas. Contam capítulos diferentes da mesma história. A Munduruku convoca. A Muirapinima sensibiliza. Uma fala da ação. A outra explica de onde nasce a vontade de agir. Separadas, apresentam grandes espetáculos. Juntas, constroem uma narrativa que dificilmente seria alcançada por apenas uma delas. Talvez seja essa a maior obra do Festribal.
Ao longo de mais de três décadas, a rivalidade obrigou cada tribo a criar mais, pesquisar mais, aperfeiçoar sua linguagem artística e aprofundar sua leitura da Amazônia. A competição tornou-se um instrumento de excelência cultural. Quem venceu foi Juruti. É essa complementaridade que faz do Festribal um acontecimento raro.

Enquanto o mundo procura novas linguagens para falar da Amazônia, uma pequena cidade do oeste do Pará construiu, pela arte, uma narrativa sofisticada sobre memória, identidade, povos originários e mudanças climáticas. Não há vencedores sem a existência do outro lado. A Munduruku só alcança toda a potência de seu chamado porque a Muirapinima lhe oferece o contraponto do sentimento. A Muirapinima só emociona com tanta intensidade porque a Munduruku amplia o horizonte da reflexão.
Essa talvez seja a magia que faz do Festribal um espetáculo único. Não pela rivalidade que divide. Mas pela rivalidade que completa. E é justamente essa linguagem, profundamente amazônica, profundamente humana, que ainda espera ser descoberta pelo Brasil e pelo mundo.
Agradecimentos: Edvander Batista ( presidente do conselho de Artes e Direção de Espetáculos da Tribo Munduruku), Alex Guedes ( presidente da Tribo Munduruku), Júnior Campos (Tribo Muirapinima), Yuri Mathias (Tribo Muirapinima), jornalista Christian Emanoel (embaixador do Festribal), Manuela Canto ( Diretora do Departamento de Cultura e Turismo da SECDET – Prefeitura de Juruti), Helder Batista (artista nativo da Amazônia) e família que nos recebeu em Juruti Velho, Idelcifran de Souza, Gracilane Bentes, Mannu, Lulu e Maelli.
Texto: Mariluz Coelho
Fotografia: João Ramid
Edição: Gutemberg Bogéa
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