
Academia do Samba escolhe hino que vai embalar “Laroyê Xica da Silva: A História por trás da História” e revisita um de seus capítulos mais gloriosos
Foi mais um reencontro marcante, a reportagem do JP Turismo retornou a quadra do Grêmio Recreativo Escola de Samba Salgueiro, justo na noite da grande final para escolha do samba-enredo da agremiação para os desfiles da Marquês de Sapucaí 2027.
Em mais uma noite em que o Rio de Janeiro reafirma porque é a capital maior da cultura popular brasileira, jornalistas, compositores, passistas e a comunidade mais fiel da Zona Norte do Rio puderam testemunhar o reencontro do Acadêmicos do Salgueiro com uma de suas mais marcantes personagens.
Na quadra da Rua Silva Teles, que na madrugada do domingo (!3/09), se transformou em um verdadeiro terreiro de celebração, o Salgueiro escolheu o samba-enredo que vai conduzir seu desfile no Carnaval de 2027.
A obra vencedora, a da parceria de Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão, foi eleita após uma madrugada acirrada, com o resultado já sendo anunciado no amanhecer, depois de uma final disputada por três sambas que fez a Academia ferver desde as primeiras horas da noite de sábado (12/09).

Não foi apenas uma escolha de samba. Foi um ritual de pertencimento. Sob o comando do intérprete Igor Sorriso e da Bateria Furiosa dos mestres Guilherme e Gustavo, com a presença soberana e já histórica de Viviane Araújo, a Rainha das Rainhas, à frente da bateria, o Salgueiro deu o pontapé inicial para um carnaval que promete ser um marco de reparação histórica.
O enredo que volta à Avenida é “Laroyê Xica da Silva: A História por trás da História”, do carnavalesco Jorge Silveira. O tema nos transporta para um Brasil colonial ainda pouco contado em sua profundidade.
O nome Xica da Silva não é estranho ao pavilhão vermelho e branco. Foi em 1963, há mais de seis décadas, que o Salgueiro levou pela primeira vez Francisca da Silva de Oliveira para a Marquês de Sapucaí e conquistou o campeonato com um desfile que se tornou referência, que entrou para a dramaturgia do carnaval e para a memória afetiva do povo brasileiro.
Agora, em 2027, a proposta é outra. Mais madura. Mais necessária.
Com base em documentos inéditos, entre eles o testamento de Francisca da Silva, descoberto e estudado para a construção do enredo, o Salgueiro se propõe a ir além do mito, da caricatura que por décadas hiperssexualizou e reduziu a figura da mulher negra. Quer revelar a mulher, a mãe, a senhora de posses, a estrategista que existiu por trás da lenda.
“Com a descoberta do testamento de Francisca da Silva, vamos conhecer a mulher por trás do mito construído. É o Salgueiro se reencontrando com suas grandes narrativas, colocando em destaque a negritude, ancestralidade e resistência cultural”, afirmou Jorge Silveira.
O samba vencedor já traduz essa força em versos que são oração e manifesto:
“Francisca, mãe da encruzilhada, rosa indomada, deusa da rua!
Na procissão da academia, negra fidalguia se perpetua”

Com o hino definido, o Acadêmicos do Salgueiro inicia oficialmente sua caminhada para ser a terceira escola a desfilar na segunda-feira de Carnaval, dia 8 de fevereiro de 2027, na Marquês de Sapucaí.
É o Salgueiro se reencontrando com sua própria história, nos lembrando que as paisagens que nos transportam nem sempre são de cânions e rios, mas também são feitas de corpos, de tambores e de histórias que resistiram ao tempo para serem contadas em forma de samba.
Texto: Gutemberg Bogéa
__________________________

























































