
Longevidade, lazer e bem-estar
Iniciativa da Ressoar Consultoria, idealizada por Adriana Flexa, cria oportunidades de encontro para pessoas experientes, aproximando um público que busca diversão, autonomia e novos circuitos de amizades
Por Gutemberg Bogéa
Sair de casa, conhecer pessoas, dançar, descobrir lugares e construir novas amizades. Essas experiências estão no centro do Rolê 60+, iniciativa da Ressoar Consultoria que promove encontros presenciais em São Luís para valorizar o protagonismo das pessoas com 60 anos ou mais.
Idealizado pela turismóloga Adriana Flexa, o projeto reúne lazer, cultura, gastronomia e convivência, conectando a participação social na maturidade a oportunidades para a economia local. O Rolê 60+ funciona por meio de encontros em diferentes espaços da cidade, como bares, restaurantes e ambientes de lazer. A programação varia conforme a edição e pode incluir música, dança e outras atividades de integração.
A proposta parte de uma necessidade cotidiana: ter companhia e oportunidades para aproveitar a cidade. Ao facilitar esses encontros, o projeto busca ampliar as redes de convivência e estimular a descoberta de novos interesses, respeitando as escolhas e a diversidade das pessoas que chegam aos 60 anos e seguem construindo seus projetos de vida.
No campo social, o Rolê 60+ cria oportunidades para fortalecer amizades, desenvolver o sentimento de pertencimento e ampliar a participação na vida cultural da cidade. Os encontros oferecem um ambiente favorável à construção de vínculos e podem ajudar a enfrentar situações de isolamento social. A iniciativa também busca dar visibilidade aos desejos e à autonomia da pessoa idosa, contribuindo para questionar o idadismo – preconceito relacionado à idade.
A realização dos encontros conecta o Rolê 60+ à economia prateada, expressão que reúne produtos, serviços e negócios relacionados ao envelhecimento da população. Ao reunir participantes em estabelecimentos locais, a iniciativa cria oportunidades de consumo e contratação para gastronomia, entretenimento, produção de eventos e transporte, beneficiando músicos, dançarinos e fornecedores.

Nova Atividade
Em sua nova atividade, o projeto lança a Jornada 100+, um momento descontraído para dialogar sobre envelhecimento saudável e em grupo, sem “mimimi”. A inspiração é o documentário Como Viver até os 100, que apresenta seis lugares no mundo com maior concentração de pessoas que vivem mais de 100 anos com saúde e vitalidade.
A proposta é trazer os aprendizados desses territórios para a realidade de São Luís, debatendo hábitos, vínculos e propósito.
A Jornada 100+ acontece no dia 05 de novembro de 2026, das 16h às 18h30, no Auditório do Ed. Lagoa Corporate & Offices. A inscrição é gratuita e deve ser feita pelo site role60mais.com.br, onde também está a programação completa do Rolê 60+.

Entrevista
JP Turismo – Adriana, o que te motivou, como turismóloga, a criar o Rolê 60+? Foi alguma cena ou conversa em São Luís que te marcou sobre a falta de opções de lazer para quem tem 60+?
Adriana Flexa – Foi a necessidade da minha mãe, que aos 70 anos queria encontrar pessoas da sua idade para conversar, sair, se divertir. E em um evento de moda e gastronomia que fiz, ela disse: “É isso que eu quero!” A partir daí comecei a estruturar e planejar, até sair o primeiro evento.
P Turismo – Por que o nome “Rolê”? O que você quer quebrar quando coloca uma pessoa de 70, 80 anos para “dar um rolê” em um bar ou pista de dança?
Adriana Flexa – Exatamente pelo “pré” conceito de que pessoas idosas querem sossego, bailes de época ou seresta. O público 60+ está vivo e conectado com o mundo. Eu sempre escutava os mais jovens falando de Rolês, com animação. Então, juntando o estilo de evento com a “gíria” jovem, nasceu o Rolê 60+. Afinal, quem disse que Rolê é só pra jovem?
JP Turismo – É muito perceptível uma autonomia e protagonismo hoje desse público. Na prática, o que você ouve dessas pessoas quando elas voltam a sair, a dançar, a fazer novas amizades?
Adriana Flexa – Escutamos muito feedback positivo. Pessoas que voltaram a ter ânimo para sair, pessoas que passam o mês inteiro esperando a próxima data do Rolê 60+. Porque na prática, muitas pessoas idosas precisam quebrar barreiras e tabus para viver plenamente essa autonomia.
Já tivemos pessoas que foram a primeira vez, com uma certa desconfiança, achando que não iam gostar, especialmente por conta de todos os eventos que existem serem muito semelhantes, e saem dizendo que não faltam mais, que se divertiram muito.
Escutamos também sobre o pertencimento, que nos nossos eventos, as pessoas desejam as mesmas coisas, compartilham as mesmas experiências e necessidades, reencontram amigos de longa data ou fazem novos amigos.
É muito gratificante saber que estamos estimulando cada vez mais pessoas a terem autonomia.
Apesar de grande parte dos nossos frequentadores já terem essa autonomia, precisavam de comunidade.
JP Turismo – Como o Rolê 60+ ajuda a enfrentar o idadismo e o isolamento social que ainda são tão comuns nessa fase da vida?
Adriana Flexa – Essas são nossas principais bandeiras. O idadismo é real e presente em muitas camadas.
Além de promover eventos que “tiram” as pessoas de casa, estamos mostrando para a sociedade que todas as idades merecem respeito e ocupar espaços urbanos.
Dentre as ações de organização para o evento, realizamos treinamentos com as equipes dos bares e restaurantes, sobre o atendimento focado no público 60+. Conversamos sobre idadismo e formas de combatê-lo, além de abordar a força da economia prateada.
Além disso, temos outros produtos como a Oficina Rolê Digital, que promove a inclusão digital das pessoas idosas. E estou ministrando um curso em parceria com a UNITI-UFMA, de Recepcionistas de Eventos, com o objetivo de inclusão da força de trabalho sênior nos eventos de São Luís.
JP Turismo – Você conecta o projeto diretamente à economia prateada. Como os bares, restaurantes e artistas de São Luís têm reagido? Eles já perceberam o potencial desse público como consumidor?
Adriana Flexa – Sim. Toda a cadeia dos eventos tem sentido a potência da economia prateada e estão despertando para um público que estava invisibilizado.
Neste primeiro ano de operação, o Rolê 60+ já movimentou cerca de 80 mil reais, fora a movimentação indireta.
Posso afirmar que todos os espaços que receberam o Rolê 60+ sentiram a potência desse mercado e estão com outro olhar para ele.
JP Turismo – Que adaptações simples um estabelecimento precisa fazer para receber bem o público 60+ e que acabam beneficiando todos os clientes?
Adriana Flexa – Primeiro é entender o que é idadismo, para não cometer.
Depois ajustes simples como cardápios com letras adequadas, não apenas maiores, mas legíveis, com cores e contrastes adequados, além de oferecer iluminação para a leitura do cardápio e da conta.
A acessibilidade também é importante, para todas as idades, tais como tampas de acesso, não apenas na entrada, mas em todas as áreas de circulação e banheiros.
Banheiros limpos (todos agradecem).
O que muitas empresas ainda não perceberam é que quando eles preparam seus estabelecimentos e suas equipes para atender o público sênior, estão preparados para atender todos os públicos.
JP Turismo – Como você escolhe os lugares e a programação de cada edição? O que não pode faltar para ser um verdadeiro Rolê 60+?
Adriana Flexa – Escolhemos lugares que tenham espaço adequado, já que o grupo cresce a cada edição, e que aceitam o sistema de comandas individuais. Esse é um grande diferencial do Rolê 60+, pois cada um paga exatamente o que consumiu, sem confusão para encerrar a conta. Sem aquela dependência de esperar as outras pessoas da mesa para sair.
O local precisa ainda organizar a equipe para participar do treinamento de preparação para nos receber. Isso faz toda diferença para o resultado final.
E não pode faltar animação, música de boa qualidade, boa gastronomia, drinks e cerveja gelada.
JP Turismo – A Jornada 100+ é a nova atividade do projeto e traz a provocação do documentário Como Viver até os 100. O que São Luís pode aprender com esses 6 lugares do mundo que têm mais centenários com saúde?
Adriana Flexa – A respeitar os mais velhos!
Isso tem me chamado muito a atenção. A falta de respeito aos saberes, a falta de percepção sobre a capacidade de realizar tarefas que a pessoa idosa tem, a falta de escuta, o isolamento social.
As zonas azuis, como estes lugares são chamados, têm uma combinação de alguns fatores relevantes para a longevidade. Convido todos a assistirem, não esperem passar dos 60 anos. Eu, por exemplo, assisti quando completei 40 anos e mudou muita coisa em mim.
Quando entendermos que o convívio intergeracional é saudável para todos, muitos problemas de saúde e de relacionamentos serão eliminados.
JP Turismo – O Rolê 60+ hoje é São Luís, mas qual o seu sonho de expansão? Você imagina o projeto virando uma rede, um selo para estabelecimentos amigos do 60+?
Adriana Flexa – Sim! Já estou trabalhando nisso.
Sempre que apresento o Rolê 60+ para parceiros e colegas, tenho cada vez mais a certeza que o Rolê 60+ pode se expandir para todo o Brasil. É um modelo de negócio sensacional, que pode sim virar uma rede.
Hoje já entregamos um selo “Empresa amiga do Rolê 60+” para os estabelecimentos que já receberam o Rolê 60+ e passaram pelo treinamento sobre atendimento ao público sênior.
JP Turismo – Para quem está lendo agora no jornal, tem 62, 75, 80 anos e está em casa achando que “isso não é mais pra mim”, o que você diria?
Adriana Flexa – O Rolê 60+ é para todos! Costumo dizer que o Rolê 60+ é tão democrático que todos se sentem bem. Quem gosta de dançar e quem não gosta, quem gosta de beber e quem não gosta, quem gosta de conversar e quem quer só observar. Todos são livres para ser quem são, no seu tempo e no seu limite.
Ninguém fica “forçando a barra”. A regra nº 1 é ser feliz.
E para quem ainda não tem 60 anos e se sentiu representado, o Rolê 60+ também é para essa pessoa, afinal, a intergeracionalidade é fundamental para a longevidade.
Minha mãe sempre diz que os mais novos precisam aprender a lidar com os mais velhos e os mais velhos também têm muito a aprender com os mais novos.
Edição: Gutemberg Bogéa
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