“Todos os dias, quando acordo, não tenho mais o tempo que passou….” Layla acabara mais uma sessão de químio. Estava fraca, debilitada. Aos 49 anos, quando tudo em sua vida parecia correr no trilho da normalidade, o imponderável mais uma vez lhe cruzou a estrada. Calejada na arte de superar perrengues, estava diante de algo inesperado. Mesmo para quem se achava tão forte. A libitina sempre esteve à espreita. Layla nunca deu moral para a morte. Sabia da finitude da vida e isso a encorajava a seguir em frente.
No frio hospital, olhou o entorno com dificuldade, um pouco tonta, viu a roupa pendurada no gancho, na parede clara do quarto. Teria de se vestir sozinha – não quis esperar pela técnica em enfermagem, mesmo grogue das drogas injetada em sua carne fraca.
Andou um pouco, vestiu-se. Sentou-se no pufe, pegou a bolsa, tirou um pequeno espelho com cabo dourado, olhou sua imagem refletida e pensou: “Como já fui bonita, agora é isso que sobrou. Vamos em frente”. A vida não anda para trás.
Layla, mulher forte e decidida, tinha que guerrear uma vez mais para continuar viva. Rodolfo, o antigo companheiro, não aguentou o tranco e partiu. Layla não esperava essa atitude dele. O tratamento contra o câncer, mexeu com tudo nela. A libido foi a primeira a ser afetada. De cumplicidade e parceria com Rodolfo, sem cama, não havia mais sintonia. “Melhor, assim”, pensou ela.
“O tempo que passou, não tenho muito tempo, não tenho todo o tempo do mundo……..”
“Todos os dias, antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia, sempre em frente, não tenho tempo a perder”.
Vestida, Layla passou o batom escarlate, viu um leve sorriso no canto da boca. Pensou na vida, o quanto havia mudado desde que recebera o diagnóstico. O objetivo agora era lutar para manter-se viva.
“Nosso suor sagrado, é bem mais belo / que esse sangue amargo, e tão sério / e selvagem! Selvagem! Selvagem!”
Cartesiana, pensou mais uma vez: “Isso que aconteceu comigo, acontece com tantas pessoas ao redor do mundo”.
Agora era encarrar de frente o problema. Precisava ser forte mais uma vez. Para quem ficara órfã, aos 4 anos, sentir o gosto amargo da perda, mais uma vez… se achava calejada na arte de transpor obstáculos. Esse seria apenas mais um.
“Veja o sol, dessa manhã tão cinza… / A tempestade que chega, é da cor dos teus olhos castanhos.”
Pensou novamente em Rodolfo, lembrou de quantas vezes pediu: “Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo…”.
Pegou o celular na bolsa, viu as mensagens, nenhuma de Rodolfo. Viu que era o aniversário de Rita, a fiel amiga, parceira, confidente. Lembrou da alegria de viver de Rita.
Sabia que não teria forças para ir ao encontros dos amigos para celebrar Rita. Preocupava-se se estaria viva no próximo aniversário, quando completará meio século.
“Temos nosso próprio tempo, temos nosso próprio tempo, temos nosso próprio tempo……” Sabia que não teria tanto tempo assim…..
“Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora…/ O que foi escondido, é o que se escondeu, e o que foi prometido, / ninguém prometeu, nem foi tempo perdido.”
Pegou a bolsa, se encaminhou para a porta, virou a maçaneta e pensou: “Meu Deus o tempo passou….”. “Já não sou assim tão jovem, tão jovem! Tão jovem!”
O sol forte da tarde fez com que Layla renovasse a esperança de cura. Queria continuar viva, lutaria para continuar viva, mesmo sabendo que a vida se esvai…….a qualquer momento.
Luiz Thadeu Nunes e Silva – Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista e viajante. Autor do livro “Das muletas fiz asas”, o latino americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 151 países em todos os continentes.





































































