Até quando o carnaval voltar

 

Este ano não vai ser igual ao que passou, cantava a marchinha sucesso do Carnaval do início dos anos setenta. Como em 2021 não acontecerá no Maranhão a maior festa popular do país, é melhor guardar a fantasia e conservar a alegria represada para o ano que vem. O motivo para a suspensão do festejo momesco é justo e pode salvar muitas vidas. Eu, apesar de grande folião, vou estacionar a Pastoral do Grogue/Jardineira do Grogue, e esperar o próximo carnaval chegar, se Deus quiser, vivo, muito vivo e com energia redobrada para usar. Como se fala no bar, bola pra frente e pé na tábua.

O carnaval de São Luís se concentrava nas ruas e nos clubes Jaguarema(desfile de fantasias na segunda-feira gorda), Lítero(com as vesperais imbatíveis), Casino, na avenida Beira Mar(manhã do domingo gordo), Clube dos Sargentos, no João Paulo – na área militar do 24º Batalhão de Caçadores, Baile do Teatro, os Bailes de Segunda, do legendário Moisés, e os populares do Cinema Éden.

No sábado-gordo acontecia a grande celebração da Boate Elite, onde as melhores raparigas da cidade, fantasiadas, fervilhavam de alegria. Nesse dia “D”, estudantes e lisos eram vetados na porta. Concorriam com ele as festas da Maroca, Crás, Cristal, todas de alto padrão, e a da Marambaia, na singular 28 de julho, a rua das meninas sem grandes esplendores. Nas ruas, o carnaval era fantástico. Tinha Maizena, para jogar nos foliões; roque-roque, vendido pelos pregoeiros; máscaras de fofão de meia e papel machê. Em qualquer lugar se comprava “Sangue de Momo”, mistura química que manchava roupa da multidão e que somente o sabão Rinso (primeiro sabão em pó brasileiro, fabricado por Irmãos Lever), costumava recuperar. Grupos de Fofões assustando a criançada protegida no peitoril das janelas, turmas de Baralho, Bloco Vira-Latas, Tribos de Índios e as pitorescas presenças de Coelho, transvestido de mulher com vestido, sapatos, bolsa e rosetas na cor encarnada. E ainda Dico Zebra, o corno oficial do carnaval maranhense. Tudo acontecia no circuito Madre Deus, Deodoro, Rua do Sol e terminava na Praça João Lisboa. As Escolas de Samba desciam a rua do Passeio e terminavam o desfile na Deodoro, canto com a Caixa Econômica. A Flor do Samba, presidida por Piranha(José Alves) e a Turma do Quinto, sob o comando de Tabaco(Hermenegildo Tibúrcio da Silva) que anos depois morreu atropelado por bicicleta no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Alegravam as ruas da cidade a Banda do Baixo Leblon que virou Beira Mar, Banda do Grafite, a Banda de Gerd Pflueger, talvez a pioneira na cidade, e o empresário Vitor Trovão fantasiado de Centurião Romano, pilotando biga puxada por imponente burro, acompanhado do carroceiro.

E os “assaltos carnavalescos” nas casas das famílias viravam grandes festas. O corso de caminhões enfeitados, repletos de crianças fantasiadas com pandeiros de plástico nas mãos, cantarolado “Sapo não lava o pé”; passando pela praça Deodoro, local onde a exuberante caixa d’água de flandre, em frente ao restaurante do Sesc, era um símbolo da cidade.

A Casinha da Roça, brincadeira comandada por Seu Henrique, com sede no Monte Castelo, atrás da igreja, ao lado da secular barrigudeira. Uma história que vale a pena contar. A Casinha da Roça era montada em caminhão cedido pela Prefeitura. Como o dono da brincadeira teve dificuldade em conseguir o veículo pela via oficial pediu minha ajuda. Como tinha acesso ao Seu Noronha, dono da Comave, concessionária da Chevrolet, foi lá para manter essa tradição do nosso carnaval. O empresário comprou o projeto e emprestou o veículo. No dia do recebimento, Seu Henrique meio constrangido alertou-me que o caminhão estava em perfeito estado, parecendo zero/km. Tomei um susto e corri até a Comave para comunicar que o caminhão deveria ser antigo, pois seria desmontado e em seu chassi instalado a Casinha da Roça. O empresário, passado o espanto, de pronto cedeu modelo muito velho, ideal para a transformação e pronto para desfilar no percurso carnavalesco.

Outras alternativas se apresentavam nos bairros, como a URBV(União Recreativa da Boa Vontade), no Cavaco(atual Bairro de Fátima), sede social do time de futebol Boa Vontade, que não teve vida longa. Lá ficavam também o cabaré da Ziloca e o bar de Marinalva, local de meninas esbeltas do cabelo “mel com terra”(louras oxigenadas com água 3 volumes). Também por aquelas cercanias residiam “De Anta” e “Pilota”, notáveis mulheres estabelecidas na praça Benedito Leite, contribuidoras das primeiras emoções de grande parte da garotada da cidade. Elas possuíam extraordinário senso empresarial, anotando na caderneta adquirida da Livraria Borges, na rua do Sol, todos os fiados passados pela vasta e fiel clientela.

Com a suspensão dos festejos do carnaval maranhense um trio de defensores público, um deles turista na França, tenta emplacar novo lockdown no estado impetrando Ação Cível Pública. O trambolho vai conturbar a vida das pessoas e provocar insegurança no ambiente de negócios. Por antecipação à decisão, diversas empresas resolveram manter as portas fechadas. Na lista estão a Farmácia Sanitária, a Arpaso, os Colégios Ateneu e Rosa Castro, a Meruoca, a King Jóias, a Lojas Acácia, o BEM, a Boate Filipinho, o Hotel São Francisco e Pipocas Oriental. Bom Carnaval, em casa, para todos.

Antônio Nelson Faria – Jornalista

 

 



0 Comentários


Deixe o seu comentário!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *