Amigo, isso é farsa…

Normalmente, quando vou escrever uma matéria sem a pressão de prazo para entregar, levo alguns dias maturando e remoendo o tema na cabeça, mudo de forma e abertura algumas vezes, o tempo do verbo, inclusive o título. Os primeiros para essa matéria eram: “Repita comigo: Quando isso acabar…” ou “As LIVES resolveram os problemas do turismo…”, ou “A Retomada da…”. Comecei a escrever essa matéria no inverno, quando os termômetros mostravam temperaturas negativas, a neve caía no Sul, ao tempo em que as labaredas lambiam os banhados do Pantanal devastando a flora e a fauna impiedosamente, deixando um rastro de morte, destruição, tal como a Covid-19 nos 7 meses de pandemia, para alguns, 7 meses de quarentena para outros.

Entramos na Primavera, os Ipês ficaram coloridos, as flores brotam nos jardins das casas alegrando a vida de quem nelas vive recluso, recebemos dezenas de mensagens pelo Whatsapp com flores e jardins floridos. As chuvas diminuíram as queimadas, os animais já podem caminhar pelo chão sem queimar as patas, os pássaros poderão pousar nos galhos das árvores que escaparam do fogo, quem sabe os jacarés encontrarão rios com água para mergulharem. Enquanto, ansiosos, olhamos da entrada da Primavera para enxergar como poderá ser o início do verão e não alcançamos nada que nos diga algo diferente de que precisamos permanecer em distanciamento social, usando máscaras, o que ainda é melhor que um tubo na garganta. Com joelhos ao chão rezando pela vacina, seja ela que sotaque tenha, os braços da humanidade estarão estendidos para recebê-la, contritos como se recebe a hóstia para ser abençoado e ganhar o reino da liberdade em direção à praia, bares, restaurantes, carnaval, viajar para além da porta das suas casas… Eram127 mil mortos quando comecei escrever, hoje são 136 mil e não sei quantos serão quando terminar, só no Brasil. Milhões de infectados no mundo, dezenas de bordões criados, economia quebrada, desemprego por todos os lados, ah, sim, a vacina, a esperança da vacina, ou quando a vacina chegar tudo isso vai passar. Quando tudo isso passar vamos nos encontrar para… Um rosário de promessas para depois, mas hoje, muitas já estão sendo cumpridas. Não deu para esperar.

O mundo virou digital, a solução dos problemas criados pela COVID-19 no Brasil, todos serão resolvidos pelas LIVES. Problema na Economia, Live às 15:00; problema com os animais, Live às 16:00; o marido não está funcionando, Live às 17:00; perdeu o emprego, Live de gastronomia ás 18:00.

Brasil, seus problemas acabaram. Foram solucionados por LIVES. Será que alguém teve a ideia, tempo e tecnologia para compilar todas as LIVES e fazer livros de todos os assuntos que trazem as soluções para os diversos problemas do Brasil? Formaria uma rica biblioteca. O turismo, por exemplo, não deverá ter mais problema. O Brasil terá o turismo mais perfeito do mundo, os problemas solucionados pelas milhares de teorias debatidas exaustivamente, de manhã, de tarde e de noite, de domingo a domingo, de norte/sul, leste/oeste.

Inicialmente, todos os segmentos da sociedade criaram seus protocolos. Foi protocolo para protocolar protocolos. E tome LIVE! Passado este momento, com as notícias de que as pesquisas das vacinas avançavam de fase para fase, todos os segmentos se sentiram seguros para começarem a preparar “as retomadas” dos setores mortalmente atingidos, que começam a falir. Enquanto estes preparativos eram criados, os números de infectados continuavam a subir exponencialmente; os prefeitos das cidades, pressionados pelos empresários enforcados, começavam a flexibilizar a população para que a economia começasse a respirar; enquanto isso, olho na TV, nas curvas dos gráficos das mortes, eles continuam a oscilar entre subidas e descidas, as médias móveis da semana indicavam entre o vermelho, amarelo e azul . Mas as praias, shoppings, cinemas, bares, restaurantes, hotéis, aeroportos, academias começavam a abrir suas portas e tirar a poeira dos móveis e o mofo das prateleiras dos quartos. O grito de Goooolllll já se prepara para sair das salas, dos bares, para os estádios. Os protocolos estão sendo criados. Todos se preparam para a grande e retumbante retomada das atividades. Vencemos a Covid-19… Onde? quando?

Com o Turismo não aconteceu diferente, a palavra de ordem é a retomada das atividades… O réveillon está perdido. Hummmm, quem sabe, se a vacina chegar até dezembro não dá pra fazer o carnaval??? Será a salvação para hotéis, restaurantes, bares e similares… Ei, e aí, combinaram com os turistas? Eles serão caçados, atraídos e seduzidos. Como será montada a estratégia de marketing e comunicação para que esses turistas desejados venham desfrutar seus protocolos carinhosamente e cuidadosamente estabelecidos e seguidos?

E assim, depois do carnaval, na quarta-feira de cinzas… Epa, Epa, Epa, Epa, vira essa boca pra lá, não me venha com essa, 2ª Onda, só se for mergulhando na praia do Buracão… Mas, sobre o assunto, confabulavam dois amigos em conversa na mesa de um bar no Rio Vermelho entre um e outro gole de roska de amoras e uma cerveja gelada: Com o olhar perdido no mar vendo as ondas quebrarem nas pedras da casa de Iemanjá e com a experiência de quem namora aquela paisagem todas as tardes, profetiza: “Companheiro, quer saber de uma coisa? Na verdade, isso nunca existiu”. Enquanto o outro, sem tirar os olhos da Igrejinha que está prestes a desabar por falta de conservação, de bate-pronto sentencia: “Amigo, repita comigo, isso é uma farsa”.

Gorgônio Loureiro – Jornalista especializado em Turismo, vice-presidente da Abrajet-BA



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