De acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT), 2020 foi o pior ano da história do turismo internacional. A entidade avalia que o setor retrocedeu a nÃveis de 1990. De janeiro a outubro de 2020 o setor perdeu 900 milhões de viajantes em comparação com o mesmo perÃodo de 2019. A OMT avisa que a recuperação do setor, mesmo após a vacinação da população, encontrará um longo caminho pela frente.
De março a dezembro de 2020 o turismo brasileiro amargou um prejuÃzo de R$ 261,3 bilhões de reais. à o que estima a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Para Fábio Bentes, economista da CNC, o turismo brasileiro só deverá retomar os nÃveis de receitas pré-pandemia no segundo semestre de 2022.

As expectativas positivas para o começo de 2021 foram derretidas por uma nova escalada de contaminação do vÃrus no paÃs. Neste mês o Brasil já ultrapassou a marca de 200 mil mortes causadas pela pandemia de coronavÃrus. Enquanto não começa a vacinar a população, as perdas do setor devem alcançar patamares ainda mais dramáticos, já que muitos estados começam a aumentar as restrições de deslocamentos.
Em meio a um cenário delineado por incertezas, o turismo brasileiro pode esperar o quê de 2021? A professora de turismo da USP e presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, Mariana Aldrigui, afirma que a adesão maciça da população à vacina será determinante para a recuperação do setor. E projeta: âinfelizmente, com a postura do governo federal e a inação que se viu ao longo de 2020, as perspectivas são muito pessimistasâ.
Neste momento, prossegue Aldrigui, é fundamental âinvestir em mapeamento de produtos e serviços que possam atender à demanda [de viagens] de curta distância (até 300km), valorizando percursos em carro, próprio ou alugadoâ. Entre as prioridades estão a sobrevivência de pequenos e médios negócios e a geração de empregos para as pessoas que ficaram desamparadas pelo auxÃlio emergencial do governo federal.
Quedas e demissões
Os pequenos e médios negócios foram os mais impactados pela pandemia. Segundo a CNC, 49,9 mil empresas de turismo fecharam as portas no paÃs de março a agosto de 2020. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) revelam que o setor demitiu 437,9 mil profissionais de março a novembro de 2020, o que representa uma queda de 12,5% na força de trabalho do setor.
A travessia desse perÃodo requer união de profissionais e entidades representativas da cadeia de turismo, aponta o presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa), Roberto Nedelciu. Ele sublinha que a pandemia arrancou a todos da zona de conforto e âcolocou à prova a nossa capacidade de resiliência, foco, jogo de cintura e estratégias certeiras. Aprendemos que dependemos uns dos outrosâ.

Nedelciu avalia que a pandemia trouxe muitos aprendizados para o turismo. âDestaco a coalização de entidades em diversos projetos cujos objetivos se fundem no mesmo caminho: conquistar o melhor para a sustentabilidade e retomada do setor. Precisamos estar mais conectados do que nunca para vencer essa batalha contra a covid-19. O setor de turismo criou e instaurou uma série de protocolos de saúde e precisamos da adesão irrestrita dos viajantesâ.
Nedelciu pontua que, em 2021, também será muito importante âa criatividade, a flexibilidade e o alto poder de customização das operadoras para a criação de novos produtos com o intuito de manter nas vitrines opções diferenciadas para todos os perfis de viajantes. As palavras-chave de 2021 são responsabilidade, conscientização, união e trabalho duroâ, afirma o presidente da Braztoaâ.
Muito trabalho em 2021

O fundador da CVC e da GJP Hotels & Resorts, Guilherme Paulus, se mostra otimista. âO setor de turismo já passou por grandes altos e baixos em diversos perÃodos, mas a capacidade do segmento em se reinventar é muito grandeâ. Ele diz que as empresas precisam cuidar neste momento de seus bens mais precisos: os clientes. âA vacina vem aà e teremos muito trabalho pela frente em 2021, com uma excelente temporada de vendas para todosâ.
A empatia é um dos grandes aprendizados desse perÃodo, considera Paulus. âSem dúvida uma das grandes lições que devem se perpetuar após esse perÃodo. O exemplo de doações das mais diversas áreas e em proporções também jamais vistas no nosso cotidiano mostra que é possÃvel estarmos conectados de uma forma ainda mais completaâ.
O turismo não é para amadores

Para a diretora-executiva da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), Simone Scorsato, o Brasil entrou em 2021 a alguns passos atrás na corrida pela retomada econômica do setor ao demorar a apresentar um plano de vacinação. A ausência de estratégias contra a expansão da covid-19 no paÃs prejudicou o destino Brasil. âTemos que trabalhar muito a imagem do Brasil no mercado internacionalâ, ela avalia.
Scorsato afirma que o turismo aprendeu mais sobre resiliência e sustentabilidade durante o enfrentamento da pandemia. Segundo ela, os empreendimentos que atuavam de uma forma não sustentável, econômica e socialmente, foram os mais impactados. âO turismo não é para amadores. à uma atividade que demanda conhecimento, técnica, inovaçãoâ.
A implantação de uma polÃtica de saúde pública em território nacional, promovendo a vacinação para todos, é prioridade, considera Scorsato. âEm 2020 vivemos a pandemia de uma forma global. Em 2021 a gente vai ver um cenário onde alguns paÃses já avançam no processo de imunização da sua população, e, consequentemente, o turismo vai começar a andar a passos mais largos em destinos que já tenham uma campanha de imunização e estratégias seguras para receber visitantes estrangeiroâ.
Sobrevivência
Presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), Alexandre Sampaio destaca que âsem vacinação, não há recuperaçãoâ para o turismo. âO recrudescimento da covid-19 fez as reservas de final de ano despencarem. Agora não vai haver recuperação, e sim sobrevivênciaâ, constata ele, que considera essencial o governo federal estender a lei 14.020, que permitiu à s empresas fazer acordo de redução de jornada de trabalho e de salários e de suspensão de contratos.

Alexandre afirma que, em 2021, será necessário muita negociação, diálogo, calma e maturidade. âUma coisa eu já adianto. Os protocolos de biossegurança, como uso de máscara, álcool gel e distanciamento social, vão continuar. O processo de vacinação vai demorar muito, dado o tamanho do paÃs. Diante disso, o que se apresenta é um quadro tênue e de débil recuperação. Não tem retomada. A intenção das pessoas de viajar e a demanda reprimida existem, mas há a preocupação com a saúde. A minha projeção para uma situação mais estável é no verão de 2022. Só então veremos uma luz no fim do túnelâ.
Texto: Reproduzido do DT
Edição: Gutemberg Bogéa


























































