Em Montevidéu, o Museo del Carnaval ajuda a entender uma das manifestações culturais mais importantes do país, e revela que folia também é memória, identidade e território

Tem carnaval no Uruguai? Tem, sim, senhor! E, para a surpresa do brasileiro acostumado à pompa dos grandes desfiles e às diferentes expressões da folia pelo país, os uruguaios agregam pertencimento e perseverança para manter vivas as raízes de um carnaval que dura mais de 40 dias.
Um pouco dessa história pode ser conhecida no Museo del Carnaval, em Montevidéu. Inaugurado em 2006, o espaço ocupa uma área histórica da Ciudad Vieja, em frente ao porto e ao lado do Mercado del Puerto. Mais do que reunir fantasias, máscaras, fotografias e tambores, o museu conta como diferentes influências ajudaram a construir uma festa que ganhou características próprias no Uruguai.

É ali que o visitante começa a entender que carnaval, por aquelas bandas, não é apenas desfile. É murga, candombe, chamadas, tablados, humor, música, figurinos e, sobretudo, uma relação muito forte com os bairros e com a própria história de Montevidéu.
A visita também ajuda a perceber algumas diferenças em relação ao carnaval brasileiro. Os grupos de candombe, por exemplo, levam para as ruas uma tradição de matriz africana marcada pelo som de três tambores — chico, repique e piano —, especialmente nas tradicionais chamadas dos bairros Sur e Palermo. E não, candombe não é candomblé, são manifestações diferentes, embora ambas tenham raízes africanas.

Popular e urbano
O espaço é relativamente compacto, mas a proposta está longe de ser apenas contemplativa. Uma das características mais interessantes do museu é justamente a presença de uma rua de paralelepípedos em seu interior, uma referência direta ao caráter popular e urbano do carnaval.
A exposição reúne objetos, fotografias, fantasias, máscaras e registros audiovisuais que ajudam a acompanhar a transformação da festa ao longo do tempo. Há também referências aos antigos tablados, aos grupos de murga e às diferentes categorias que formam o carnaval uruguaio.
Com seus coros, personagens, humor e crítica social, a murga é uma das expressões mais características do carnaval de Montevidéu. Ao lado dela estão os parodistas, humoristas, revistas e as sociedades de negros e lubolos, cada qual com sua linguagem e seus códigos próprios. A própria Intendência de Montevidéu define essas manifestações como gêneros artísticos que ganharam forma própria no carnaval montevideano.


Do museu para a rua
O museu funciona como uma espécie de chave para compreender a folia uruguaia. Talvez seja esse o principal encanto da visita guiada por profissionais como o educador cultural Vicente Greco, ele próprio integrante de um dos mais de 200 grupos de tambores. “Carnaval é um orgulho para nós”, enfatiza, ao lembrar que “nós, americanos, somos o povo mais diverso do mundo.”
Quem vai a Montevidéu durante a temporada pode sair dali e encontrar a festa acontecendo de verdade. O calendário reúne o desfile inaugural, as chamadas, o concurso oficial e os tablados espalhados pela cidade. Em 2027, por exemplo, o Desfile Inaugural está marcado para 21 de janeiro e o Desfile de Llamadas para 5 e 6 de fevereiro.
Mas, mesmo fora da temporada, quando os tambores estão mais silenciosos e as ruas não estão tomadas pelos grupos carnavalescos, o museu cumpre o seu papel de preservar a memória de uma festa que faz parte da identidade da cidade.
No fim, dá até para experimentar um pouco dos tambores e suas batidas — tão diferentes dos ritmos brasileiros — e perceber que, apesar das muitas diferenças, existe uma familiaridade curiosa naquela vontade de colocar a rua para cantar, dançar e lembrar quem somos.
O Museo del Carnaval fica na Rambla 25 de Agosto de 1825, nº 218, esquina com Maciel, na Ciudad Vieja, em frente ao porto e próximo ao Mercado del Puerto. A programação e os horários podem variar, por isso vale consultar as informações oficiais antes da visita.
Texto: Seleucia Fontes
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