Uma polêmica envolvendo a Prefeitura de Santo Amaro, Associação Brasileira de Agências de Viagens, seccional do Maranhão, Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, ICMBio, e agências independentes colocou em evidência a fragilidade do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses diante do turismo de massa.


Alardeada como ‘fato’, um suposto fechamento do destino Santo Amaro, hoje uma das preferenciais portas de entrada do Parque tombado pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade, acendeu o alerta sobre a sustentabilidade do destino. E, sobretudo, da carência de mais rigor na fiscalização da sua preservação como polo natural exuberante.
Em nota pública, a Prefeitura de Santo Amaro, por meio da Secretaria Municipal de Turismo, desmentiu as informações disparadas em perfis de redes sociais por dirigentes de agências de viagens que operam no sistema bate-volta. A prefeitura anunciou tomar medidas judiciais cabíveis para conter e reparar danos e prejuízos causados pela fake news.
Segundo a Secretaria de Turismo de Santo Amaro, não houve edição de norma recente sobre a redução do número de passageiros transportados pelos veículos que realizam passeios neste trecho do parque nacional dos Lençóis Maranhenses no município. A norma de vincular o número de passageiros transportados à categoria da Carteira Nacional de Habilitação, CNH, está contida no Código Nacional de Trânsito, Contran.
No trade, a polêmica entre os operados, reside na discrepância entre preços cobrados pelos passeios, principalmente, aqueles denominados bate-volta, emitidos por empresas independentes, aquelas não associadas à Abav-MA. Enquanto as independentes vendem pacotes ao preço de R$ 80 por pessoa, com direito a café da manhã, almoço e passeio no parque, as empresas antigas e do município taxam o serviço em torno de R$ 360 por pessoa. A taxa de turismo cobrada por pessoa pela Prefeitura de Santo Amaro é de R$ 10 com permanência de até três dias.
Para se ter uma noção do aumento do fluxo turístico no parque em um intervalo de dez anos, o número de visitantes saltou de 40 mil para 400 mil pessoas em 2025, pisando no parque.


A presidente da Abav-Maranhão, Dayana Barbosa , considera que da forma como vem se adensando o turismo no Parque Nacional dos Lençóis dentro de breve tempo o destino estará esgotado. No entendimento da presidente, com esse turismo de massa, predatório, não tem futuro garantido tanto às empresas que vendem a preço irrisório como as agências que cobram preços justos.
“O preço justo é o que é cobrado hoje pelas agências de viagem que trabalham o turismo de ponta a ponta. São as agências que fazem investimentos de divulgação, de captação de clientes nacionais e internacionais. Temos que, sobretudo, pensar na sustentabilidade do destino. Esse tipo de turismo está ameaçando os Lençóis Maranhenses’, acentua a presidente da Abav-MA.
Dayana Barbosa expõe números exagerados do fluxo turístico para os Lençóis como a principal ameaçada. Segundo ela, há finais de semana com até 20 ônibus transportando grupos de turistas para Santo Amaro. “Isso é insustentável. Se não tivermos uma programação de pessoas entrando, monitorados por agências com atuação responsável no mercado, a ameaça de esgotamento do destino é cada crescente”, alerta.
A fiscalização sobre o fluxo de turista no parque Nacional dos Lençóis Maranhenses cabe às Prefeituras municipais, Governo do Estado e ICMBI. Mas tem sido débil diante dos números exorbitantes.
A imensidão do parque impede a fiscalização eficiente, permitindo mil e uma alternativas de acessos. Dentro do parque estão instaladas 84 comunidades. Muitas dessas comunidades colaboram para criação de entradas alternativas. O turismo de base comunitária poderia funcionar para a fiscalização, mas isso ainda não vem ocorrendo. Há comunidades que recebe até 80 pessoas por dia, tendo como retaguarda sanitária apenas uma fossa rasa.
“Muitas das vezes essas empresas que operam de maneira independente contratam pessoas sem conhecimento das leis ambientais e até mesmo sem habilitação”, chama atenção Amadeu Lisboa, da Babaçu Turismo, uma das empresas mais antigas com atuação no Maranhão.
Uma pesquisa contratada pela Abav com acompanhamento do ICMBio para a atividade chamada trekking (caminhadas) cobrindo algumas comunidades revelou a inexistência de sustentabilidade do parque.


em discussão no turismo local – Foto: Reprodução
Há distinção entre agências que enxergam a sustentabilidade como fator de negócios e as que operam pela escalação do turismo em massa. A questão do volume acende um sinal vermelho em relação à preservação do parque. Visões mais pessimistas preveem um esgotamento até 2030. O impacto incide sobre as águas, areias, aves migratórias e todo um universo abrigado no parque com a extensão comparativa ao estado de São Paulo.
Algumas das agências independentes que operam na região dos Lençóis demonstram imensa força no universo virtual. Entre elas existem algumas, como por exemplo a Vem Viajar, que beiram duzentos mil seguidores, potencializando assim sua atuação no trade.
Para Miguel Filho, da Agência Sunshine, que recentemente transferiu seu negócio para Barreirinhas, é necessário que haja um consenso sobre as normas de sustentabilidade turística do parque. Ele aponta algumas exigências que estão sendo estudadas pelo ICMBio como completamente fora da realidade. Como a estipulação de data de fabricação dos veículos autorizados para circular nas trilhas do parque.
“Existem pessoas que tem seu automóvel bem cuidado e em condições satisfatórias e seguras para o passeio que poderão ser prejudicadas pela medida”, observa Miguel Filho.
A emissão do selo de autorização para o veículo é apontado também como mais um empecilho para as operadoras do turismo no parque. A prefeitura de Barreirinhas estendeu para o dia 7 de maio a data limite que se encerraria no dia 30 de abril para que as empresas participem do edital. Mesmo assim, o dono da Sunshine acredita que persistirá desvio que possibilitem a venda de selo a preços de até R$ 15 mil, como ocorria com os antigos taxímetros, objeto incluído em espólios.
Texto: Henrique Bóis
Edição: Gutemberg Bogéa
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