



Belém, a capita do Pará, considerada porta de entrada da Amazônia, recebe, nesta semana, o festival gastronômico Porto e Norte & Centro de Portugal. Em cartaz até domingo, 26 de abril, no Vila Galé Collection Amazônia, às margens da Baia do Guajará, o evento aproxima duas tradições culinárias que se encontraram a partir de uma história comum.
A própria cidade ajuda a compreender esse movimento. Fundada pelos portugueses e nomeada em referência a Belém, em Portugal, a capital paraense carrega marcas profundas dessa presença histórica. Ao longo dos séculos, ingredientes, técnicas e hábitos europeus foram incorporados, adaptado, misturados com a riqueza da cozinha indígena e transformados no território amazônico, dando origem a uma das cozinhas mais singulares do mundo, reconhecida pela UNESCO como Cidade Criativa da Gastronomia.


Antes da abertura ao público, no dia 22, um jantar para convidados reuniu chefs da gastronomia portuguesa e nomes da culinária local, como Rubão, figura emblemática da cozinha paraense. Conhecido por uma culinária direta, afetiva e profundamente ligada ao território, ele construiu sua trajetória valorizando sabores locais dentro de uma lógica popular, não elitizada. Seu bar, na Cidade Velha, tornou-se ponto tradicional de Belém, integrando a experiência cultural da cidade e atraindo públicos diversos, inclusive visitantes. A sua presença no encontro com os chefs portugueses reforça a centralidade da cozinha amazônica nesse diálogo, como expressão viva de território e identidade.
É nesse contexto que o festival se insere. Mais do que apresentar pratos, ele propõe um reencontro. “É isso mesmo: um reencontro entre duas gastronomias de excelência”, afirma Pedro Ribeiro, diretor comercial do Vila Galé.
Segundo ele, o evento faz parte de uma estratégia mais ampla. “Temos como objetivo promover Portugal como destino turístico. A gastronomia é cultura, e a cultura é muito importante como produto turístico”, diz. A escolha de Belém, acrescenta, não foi casual. “Belém é um novo mercado para nós, com a abertura do Vila Galé Collection Amazônia e o voo direto da TAP para Lisboa”, afirma o diretor comercial do grupo.


O festival acontece em um hotel cinco estrelas inaugurado em outubro de 2025, hoje entre os empreendimentos de maior padrão da capital paraense. A ligação histórica também foi determinante para a escolha da cidade. Luís Pedro Martins, presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, afirma que Belém reúne condições únicas para esse tipo de iniciativa. “Decidimos ampliar esse festival para territórios onde houvesse voo da TAP e também ligações históricas e culturais com Portugal. Aí apareceu Belém no radar”, explica.
Na avaliação de Luís Pedro Martins, a cidade não surge apenas como mercado emergente, mas como território de memória. “Belém faz parte da história de Portugal. É fácil criar aqui narrativas em comum”, diz. Essa proximidade torna o encontro gastronômico mais do que simbólico. “A partir daqui, temos, de fato, pontos em comum”, afirma, ao reconhecer afinidades entre ingredientes e práticas culinárias. Sobre a cozinha local, o reconhecimento é direto: “A gastronomia daqui é muito rica”, diz.
No Vila Galé Collection Amazônia, essa percepção também aparece na experiência concreta do evento. Para Sofia Ribeiro, gerente do hotel, o festival foi pensado como homenagem à presença portuguesa e às raízes locais. “Quisemos homenagear a grande comunidade portuguesa que temos aqui e também as raízes dos moradores do Pará”, afirma.


Recém-chegada à cidade, Sofia diz perceber essa ligação no cotidiano. “Há aqui realmente uma coesão muito forte entre Brasil e Portugal”, afirma. Segundo ela, o público respondeu de forma imediata. “Os próprios clientes se sentem bem com essa cultura portuguesa que temos enraizada e também procuram isso”. A adesão superou as expectativas, com os almoços do festival esgotados ainda antes da abertura.
Se a gastronomia funciona como linguagem, a aviação sustenta essa ligação. Para Douglas Lima, gerente regional da TAP Air Portugal para Pará, Amazonas e Amapá, a companhia vê o Norte do Brasil como eixo estratégico há mais de uma década. “Já vínhamos enxergando o Norte do Brasil como um dos pontos para entrar na região”, afirma.
A presença em Belém remonta a 2014 e segue em expansão. “No dia 3 de junho de 2026, a TAP completa doze anos de operação em Belém”, diz. Hoje, a companhia mantém seis voos semanais e aponta o Norte como uma das principais frentes de crescimento. “A região Norte é um dos pontos que a companhia colocou para crescer”, informa. Douglas Lima, referindo-se ao Pará como “o estado mais português que existe”.
Na cozinha, o reencontro ganha forma concreta. Para Francisco Ferreira, chef executivo do Vila Galé em Portugal, a relação entre as duas tradições nunca deixou de existir. “Há sempre esses reencontros gastronômicos, de sabores e de receitas”, afirma. “Há sempre um encontro de temperos, de matérias-primas, de peixes, de carnes e de métodos de preparo”, conta.


A experiência amazônica, segundo ele, amplia essa percepção. “É fantástico conhecer novos sabores, cheiros, perfumes”. O chef destaca ainda a força dos saberes tradicionais. “A influência indígena é fantástica”.
Clodoaldo Ramos, chef executivo do Vila Galé Brasil, organiza esse encontro em uma chave mais estrutural. “A culinária brasileira tem um tripé muito forte: Portugal, África e os povos indígenas”, afirma. No Pará, esse cruzamento ganha intensidade própria, marcada pela diversidade de ingredientes e técnicas.
O chef chama atenção para o risco de simplificação da gastronomia amazônica. “Não podemos resumir a gastronomia desta região àquilo que está mais na moda”, diz. “A culinária de Belém não se resume somente a filhote. Tem muito mais peixe, muito mais fruta, muito mais textura”.
Essa leitura aproxima o festival de uma dimensão mais ampla, em que comida, território e cultura se cruzam com questões contemporâneas. Para Rui Ventura, presidente do Turismo do Centro de Portugal, o futuro do turismo passa pela autenticidade e pela relação com os territórios.
“Não há turismo sem pessoas. Há o turista que visita, mas também a pessoa que recebe”, afirma. Na visão dele, preservar tradição e cultura é condição essencial. “Se um território perde a sua tradição, perde tudo. Torna-se apenas mais um destino turístico”.
A sustentabilidade surge como eixo inevitável dessa equação. “O Centro de Portugal quer afirmar-se como um destino diferenciado pela sustentabilidade”, diz, ao destacar a necessidade de envolver comunidades, instituições e empresas.
No fim, a ideia de luxo também se desloca. “O turismo de luxo já não está nos hotéis de luxo. O verdadeiro luxo está na autenticidade”, afirma.


Até domingo, o festival permanece aberto. Mas o que ele revela ultrapassa o tempo do evento: um reencontro que não começa agora, e que continua a ser atualizado à mesa.
Serviço
Festival Gastronômico do Porto e Norte & Centro de Portugal
Até 26 de abril de 2026
12h30 às 15h
Vila Galé Collection Amazônia – Belém (PA)
Texto e Fotos: Mariluz Coelho / João Ramid
Edição: Gutemberg Bogéa
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