Entre Trasladação lotada, corda partida na Presidente Vargas e festas que unem sagrado e profano, maior manifestação religiosa do Brasil reafirma sua força cultural e turística

Quatorze romarias fizeram da festa do Círio de Nazaré uma peregrinação contínua de fé e amor pelas ruas de Belém. A maior manifestação religiosa do Brasil e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, voltou a transformar a capital paraense no epicentro da devoção no segundo fim de semana de outubro.
O conjunto de carros que enriquece as procissões segue como um dos pontos altos da beleza da festa: Carro de Plácido, Barca da Guarda Mirim, Barca Nova, Cesto de Promessas, Barca com Velas, Barca Portuguesa, Barca com Remos, Carro Dom Fuas, Carro da Sagrada Família e Carro da Saúde, além dos quatro Carros dos Anjos, conduzidos pela Catequese da Basílica Santuário, e a Berlinda com a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré.
Na noite de sábado, 10 de outubro, Belém viveu a segunda maior romaria da Quadra Nazarena. Segundo estimativa da Diretoria da Festa de Nazaré, 1,9 milhão de pessoas acompanharam a Trasladação, no trajeto de 3,7 km do Colégio Gentil Bittencourt até a Catedral Metropolitana, fazendo o caminho inverso da grande procissão.
A madrugada alegrava as pessoas com a Festa da Chiquita, na Praça da República, que permanecia lotada após a transladação. Nos arredores do palco armado para uma das mais tradicionais festa que mistura o profano ao religioso no ambiente do Círio, artistas locais e nacionais interagiam com o público.
Com o tema: “Festa da Chiquita – 50 anos Patrimônio Cultural da Humanidade”, a noite reuniu grupos de carimbó, e nomes da música e do cenário artístico e jornalístico como: Dona Onete, o estilista Dudu Bertholini, Milton Cunha, Jana Figarella, Mídia Ninja, Zeca Camargo, Julia Santos, Kenia Sade e Covas Casemiro.
O evento destacou a contribuição da manifestação para a cultura paraense e brasileira, além de sua relevância na história da comunidade LGBTQIAPN+. A programação começou após a passagem da Trasladação, uma das procissões que antecedem o Círio, e reuniu diferentes gerações em uma noite marcada pela música, pelo humor e pela valorização da diversidade.

Em outro ambiente, na Praça Waldemar Henrique, o Círio Iluminado da Equatorial Pará reuniu diversas atrações culturais. Do dia 5 a 12, os paraenses e visitantes foram premiados com o melhor da música brasileira. E numa noite Rock no dia 10, ainda após a transladação, o cantor e compositor Frejat iluminou a noite de Belém cantando inúmeros sucessos da banda Barão Vermelho, em parcerias suas com Cazuza, assim como canções de Roberto Carlos, Angela Ro Ro, entre outros artistas que fizeram parte de sua trajetória.
Procissão do Círio 2026
O Círio é uma tradição que atravessa gerações. Mais do que fé, é o momento de união familiar e renovação de votos, onde milhares renovam promessas mantendo viva a relação do povo paraense com Nossa Senhora.
O domingo, 11 de outubro de 2026, Belém amanheceu diferente. Antes do sol, a capital paraense já pulsava com pessoas . Com participação estimada de 2,3 milhões de fiéis, a procissão principal percorreu 3,6 km da Catedral até a Basílica Santuário.
O que leva tanta gente para a rua sob o calor da Amazônia? O Círio não é só procissão. Para os paraenses, é o marco que divide o ano. É o “Natal da Amazônia”, onde a cidade para, as casas se abrem para receber parentes vindos de todo o Brasil – sendo sua maioria do Maranhão, Ceará, Tocantins, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo – e o espaço urbano vira um altar a céu aberto.
“É a primeira vez que trago meus dois filhos. A gente veio de São Luís em transporte rodoviário, 16 horas de viagem, só para sentir isso aqui. Não tem explicação, tem que estar no meio do povo”, diz Antônio Carlos Pereira, 41 anos, motorista e turista maranhense.

Corda do Círio de Nazaré se rompe na subida da avenida Presidente Vargas
A corda do Círio de Nazaré 2026 se rompeu na manhã do domingo (11), durante a subida da avenida Presidente Vargas, no centro de Belém. O incidente aconteceu poucas horas após o início da procissão, em um dos pontos considerados mais desafiadores para os promesseiros. O rompimento ocorreu entre as estações 3 e 2.
Após o incidente, a estação 2 passou a ser a cabeça da corda.
O trecho exige esforço dos fiéis durante a passagem da procissão da avenida Boulevard Castilhos França para a Presidente Vargas. A mudança de percurso e a concentração de romeiros tornam a subida um momento de grande dificuldade ao longo do trajeto. Segundo a Diretoria da Festa, a corda foi desatrelada e a Guarda de Nazaré decidiu cortar a corda para evitar tumulto entre os promesseiros.
A Corda: de improviso em 1855 a patrimônio afetivo
Se a Berlinda é o centro espiritual, a corda é o maior ícone popular. Ela não fazia parte do projeto original. Em 1855, uma enchente da Baía do Guajará alagou a orla do Ver-o-Peso até as Mercês e a berlinda puxada por bois atolou. Fiéis pegaram emprestada a corda de um comerciante para puxar. O improviso nunca mais saiu.
Desde 2004, por segurança, a corda tem formato linear, com estações ligadas por suportes de duralumínio. Tocar, puxar ou levar um pedaço ao final, no desatrelamento, é o ápice para o promesseiro, que leva para casa a relíquia como selo da promessa paga.

Operação Círio: 5 mil agentes na segurança
Para garantir a festa, o Governo do Pará montou a Operação Círio 2026 com 5 mil agentes de segurança, cerca de 750 viaturas e motocicletas, além de drones. O monitoramento foi feito em tempo real pelo Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) da Segup, com sala de situação acompanhando a Berlinda. Um CICC Móvel foi instalado na Travessa Quintino Bocaiúva com Avenida Nazaré como posto avançado.
A estrutura se completa com arquibancadas, palcos, policiamento, bombeiros e equipes médicas – uma operacionalização que transmite segurança mesmo com a multidão se aglomerando.
700 toneladas de lixo e o Ecocírio
A grandiosidade exige limpeza. Segundo a Prefeitura de Belém, mais de 700 toneladas de resíduos foram recolhidas após as duas maiores procissões. A força-tarefa da Sezel contou com 2 mil profissionais, 140 veículos e 14 cooperativas.
No sábado, entre Romaria Fluvial, Motorromaria, Arrastão, Cordão do Peixe-Boi e Trasladação, foram 150 toneladas de lixo domiciliar. No domingo, após o Círio, mais 350 toneladas. Na coleta seletiva, o projeto Ecocírio mobilizou 200 catadores no sábado e 200 no domingo, com 14 cooperativas, retirando 200 toneladas de recicláveis – 80 toneladas só na Trasladação e 120 no domingo – gerando renda para as famílias.
“Eu trabalho no Ecocírio há 5 anos. Só no sábado juntei 80 quilos de garrafa. Esse dinheiro ajuda muito nas despesas de casa”, comentou José Roberto Costa, 38 anos, catador e integrante de uma das cooperativas do Estado.
Estação das Docas: turismo, cultura e entretenimento

Durante o Círio, a Estação das Docas se torna o ponto de encontro de todos. Instalada nos antigos armazéns do porto, com sua arquitetura de ferro inglês preservada e a suntuosidade do espaço às margens da Baía do Guajará, a Estação deixa de ser apenas um cartão-postal e vira a grande sala de visitas da Amazônia. Ali se cruzam sotaques diferentes, vindos do interior das mais diferentes regiões do país, entre música, arte, artesanato e sabores marcantes do tacacá, do açaí, pato no tucupi e da variedade de peixes do mar paraense.

Além do convívio, o espaço se revela como alternativa para passeios em embarcações por diversos atrativos na capital e em suas proximidades. Da Estação partem barcos que levam o turista para um outro olhar de Belém: a orla da cidade, a Ilha do Combu, o Ver-o-Peso visto do rio e o pôr do sol na baía. É quando o Círio também se vive sobre as águas, mostrando que a fé, o turismo e a beleza amazônica seguem no mesmo barco.

Tradição religiosa move fiéis e turistas
Uma festa que mostra gastronomia, artesanato, diversidade e religiosidade paraense para o mundo. Uma festa que, mesmo com desafios climáticos do calor extremo em 2026, com postos de hidratação e apoio médico, segue provando que a fé, quando vivida coletivamente, é resistência cultural.
Não é apenas uma procissão, é um deslocamento humano que toma conta de Belém e transforma outubro no mês mais esperado do calendário paraense. Famílias inteiras atravessam o Brasil para estar ali, sob o sol forte da Amazônia, com a mão na corda ou com os olhos marejados esperando a passagem da Berlinda.
Belém se revela nesses dias como uma cidade rica em tradições que se mantêm vivas pela fé do seu povo. É o cheiro do pato no tucupi e da maniçoba no almoço de sábado, é a casa aberta para receber parentes, é o miriti nas mãos das crianças e o artesanato espalhado pelas ruas. O Círio organiza o tempo da cidade, é o verdadeiro ano-novo do paraense, onde a cultura, a religiosidade e a hospitalidade se encontram na mesma mesa.
E no coração desse percurso está um dos símbolos mais representativos do estado e, consequentemente, de todo o Norte do país: o Ver-o-Peso. Mais que mercado, é o altar onde a festa começa e termina, onde a imagem peregrina encontra o rio e o povo.
Entre barracas de ervas, peixes, açaí e artesanato, o Ver-o-Peso resume o Pará — cheio de cores, sabores, fé e resistência — e mostra ao turista que chega para o Círio por que Belém é Patrimônio não só pela devoção, mas por tudo que ela carrega em suas margens.
Texto: Gutemberg Bogéa
O repórter viajou a Belém a convite da J. Lago Turismo.
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