A Ilha é um santuário de biodiversidade e cultura, mas a vida dos seus guardiões está prestes a mudar. Diante de pressões externas e da busca por autonomia financeira, a tradição milenar dos Iny se encontra com a modernidade em uma aposta no turismo


Na cosmologia Iny (lê-se inã, e se traduz como “nós”), havia um outro mundo embaixo da terra submersa pelas águas que circundam a Ilha do Bananal. A abertura de um buraco fez com que um grupo submergisse nas profundezas das águas e se encantasse com a natureza e os animais. Ali ficaram e tiveram os primeiros contatos com o mundo dos “tori” somente no século 17, com a chegada dos bandeirantes e uma onda de mortandade e escravização.
Desde então, os Karajá e os Javaé, que formam o Povo Iny, lutam pela sobrevivência e permanência na Bdebute Hyky, a Ilha do Bananal na língua Iny Ribè, a maior ilha fluvial do mundo, com quase 20 mil km². Cercada pelos rios Araguaia e Javaé, é um santuário de biodiversidade e das tradições dos povos originais, mas este paraíso natural está no centro de uma profunda transição. Seus moradores, os guardiões da ilha, precisam costurar um novo futuro para as comunidades em meio a desafios urgentes.
Fim de ciclo e recomeço


Por 20 anos, um acordo entre as comunidades indígenas, fazendeiros e órgãos públicos permitiu o aluguel de pastos para o gado, gerando uma fonte de renda. Mas esse ciclo se encerra em dezembro de 2025, após denúncias de impacto ambiental e ocupação indevida de extensas áreas.
Diante disso, os povos Iny buscam no turismo uma nova saída econômica. O governo do Tocantins, por meio da Secretaria de Turismo, realiza uma “escuta ativa” para mapear o potencial de atividades como a pesca esportiva, o artesanato e a agroecologia.
No entanto, o Etnoturismo ainda é um segmento em construção no Brasil e traz singularidades que as outras áreas do turismo desconhecem. Entre elas, a necessidade de uma visão de todo um núcleo, suas tradições, modo de vida, interação com não indígenas, interesse real em apresentar seus saberes a possíveis visitantes particularmente interessados nesta temática, de uma forma que foge completamente às experiências do turismo tradicional. Para se visitar uma comunidade indígena é preciso se despir dos preconceitos alimentados por séculos e se abrir ao conhecimento ancestral, assim como aos desafios vividos por essas populações.


Outra questão que envolve a Ilha é a pressão da pesca esportiva. Uma das atividades turísticas de maior valor agregado, a pesca é uma realidade na região, com a atividade de empresários que montam ranchos sazonais ou já contam com pousadas para este segmento nas margens opostas e com pouco ou nenhum envolvimento das aldeias. Muitas comunidades querem trabalhar com pescadores esportivos, mas é preciso investimento financeiro e técnico para atender esse público.
A qualificação para atuar nas diversas atividades que envolvem o turismo e a própria compreensão sobre como desenvolver esse processo sem impactos negativos para as aldeias estão entre os obstáculos.
O cacique administrativo da Cláudio Karajá, da aldeia Fontoura, que soma mais de 900 moradores, ressalta a necessidade de capacitação das lideranças. “Nossa renda acabou, estamos abraçando qualquer projeto”, diz, em referência às dificuldades de lidar com as finanças e a burocracia de contratos e bancos.
A dupla face do turismo


O potencial é imenso. São centenas de quilômetros de áreas propícias à pesca esportiva, observação de animais e safári fotográfico. Isso sem falar das festas tradicionais de rara beleza, do rico artesanato, na medicina natural. Mas o turismo não é um caminho sem riscos.
O cacique Natanael Karajá sente na pele o impacto da pesca descontrolada. Ele relata ter encontrado peixes e botos mortos e ter sofrido pressão de empresários que levam turistas para a área sem autorização. “Todos os dias há pescadores em frente à minha casa”, desabafa em seu barco a motor cercado por botos.
Por outro lado, o turismo, se bem direcionado e controlado pelas comunidades, pode ser a chave para a autonomia. A família da aldeia Bella Werreria enxerga no turismo a chance de oferecer uma experiência autêntica, com foco em suas raízes. “Queremos ser exemplo e ajudar outras pequenas aldeias”, pontua o cacique Hiolo Werreria, único médico karajá formado após uma intensa luta contra o preconceito.
“Professor reprovou ele várias vezes, dizia que indígena não tem genética para ser médico, processamos ele”, conta sua mãe, Lenimar Werreria Kanela, ela mesma uma sobrevivente da quase extinção do povo Kanela e casada com o Pastor João Werreria, uma liderança histórica dentro da Ilha do Bananal, responsável pela criação de centros de recuperação de alcoólicos, grande desafio enfrentado dentro da Ilha, juntamente com os suicídios. “Não existe uma família que não tenha um caso de suicídio e agora estamos vendo casos de violência contra as mulheres”, relata Lenimar.


Crise e resiliência
A Ilha do Bananal enfrenta um difícil cenário social. A vida entre as tradições Iny e o modo de vida contemporâneo, somada a séculos de alienação, criou um ambiente de grande vulnerabilidade. A falta de saneamento básico é uma realidade preocupante.
“Falta segurança e fiscalização para entrada de não indígenas”, afirma o cacique Kubli Karajá, da Aldeia Nova Tytemã, ao relatar mais uma dificuldade. Se pelo lado Javaé, o acesso por terra passar por aldeias, na margem oposta, pelo rio Araguaia, uma balsa faz o transporte para o território Karajá, via São Félix do Araguaia (MT). Isso no período da seca, pois durante metade do ano boa parte da ilha, inclusive a BR-242, que corta o território de leste a oeste permanece submerso.
Há escolas nas aldeias maiores, mas avançar nos estudos depende de esforços para a ida às cidades mais próximas e a capitais como Palmas e Goiânia, para cursar uma faculdade.
Algumas famílias, como a Werreria, conseguem investir na educação e na autonomia como forma de proteção e resistência. “É uma luta constante e para uma mulher indígena é muito mais difícil romper com a cultura patriarcal”, completa Lenimar, que viu outra filha, Narubia Werreria, se tornar a primeira secretária da então recém-criada Secretaria dos Povos Originários e Tradicionais, no ano passado.
Já o artesanato permanece como fonte de renda e resistência cultural. O cacique Iwraru Karajá quer reverter a perda da arte canoeira ensinando a tradição aos jovens e sua filha, Kussina Iara, sonha em ter um viveiro de plantas para ampliar a produção das bonecas de cerâmica Ritxokò, uma arte reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil.
O cacique Mawysi Karajá, da aldeia Kutarya M, resume a urgência dos moradores da Ilha do Bananal: “estamos apressados para trabalhar”. Ele planeja construir uma Casa de Aruanã, a “Casa dos Homens”, para promover o resgate cultural e mostrar a pesca tradicional aos visitantes. “A casa atrai atividades tradicionais dos homens, das mulheres, reforça a língua, ajuda a resgatar hábitos alimentares Karajá. É pedagogia do Povo Iny. A pedagogia cultural adormeceu, as crianças estão no celular”, revela.


Visão profissional
“O turismo na Ilha do Bananal deve ser visto como uma possibilidade. Não é uma solução imediata. Pode ser trabalhado, pode crescer”, explica Marcos Luz, diretor da Tekoá Brasil, empresa de turismo que implantou projeto etno em parceria com o povo Krahô. “No momento, o protagonismo é do peixe; claro que esse segmento não pode e não deve ser esquecido, mas quem está operando a pesca esportiva traz o contexto da maior ilha fluvial do mundo, onde vivem comunidades ancestrais e que há regras a serem seguidas e, caso ainda não existam esta é uma questão urgente”, comenta.
Marcos Luz ressalta que não existe um mesmo modelo de negócio para todas as aldeias. “Cada comunidade precisa ser ouvida e conduzida a uma compreensão dos valores positivos e negativos que o turismo pode representar, para que se adote um modelo adequado às suas expectativas, ofertas e necessidades”, completa, ao lembrar que o valor maior são as pessoas, seus conhecimentos e cultura, uma riqueza que precisa ser tratada com o devido respeito. Somente assim o etnoturismo pode ser uma ferramenta de reconhecimento, pertencimento e proteção.
De acordo com o procurador do Ministério Público Federal, Álvaro Manzano, que esteve recentemente nas aldeias Fontoura e Santa Isabel, não há impedimento para as comunidades que já estejam em condições de realizar projetos de visitação. Representantes da Funai confirmaram que, apesar de solicitar plano de visitação de acordo com normativa federal, a instituição tem a função de colaborar e não impedir o trabalho.


Saiba mais
– A Ilha do Bananal é uma reserva ambiental brasileira desde 1959. Em 1993, passou a ser considerada Reserva da Biosfera pela Unesco.
– É território tocantinense, subdividida entre os municípios de Formoso do Araguaia, Lagoa da Confusão e Pium. Marca as divisas do Estado com o Mato Grosso, no rio Araguaia, e Goiás, na porção sul do rio Javaé.
– Parte da ilha é ocupada pela Terra Indígena Parque do Araguaia, pelo Parque Nacional do Araguaia, pela Terra Indígena Inãwébohona e pela Terra Indígena Utaria Wyhyna/Iròdu Iràna, que sobrepõem ao Parque Nacional do Araguaia.
– Além dos Karajá e dos Javaé, a Ilha é lar dos Tapirapé, dos Tuxá e dos Avá-Canoeiro (Cara Preta).
Texto: Seleucia Fontes
Edição: Gutemberg Bogéa





































































