

O Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo recebe a exposição Marlene Barros: Tecitura do Feminino, primeira mostra individual da artista maranhense na instituição. Com curadoria de Betânia Pinheiro, a exposição reúne 15 trabalhos produzidos em diferentes momentos da trajetória de Marlene Barros, entre esculturas, bordados, crochês, instalações e objetos, que transformam técnicas tradicionalmente associadas ao ambiente doméstico em linguagem artística para discutir questões relacionadas ao corpo feminino, à memória, ao cuidado e às estruturas históricas que invisibilizaram a produção das mulheres.
Com mais de quatro décadas de atuação, Marlene Barros construiu uma pesquisa artística que tem o universo feminino como eixo central de sua produção. Em suas obras, linha, tecido, bordado e crochê deixam de ocupar o lugar do fazer utilitário para se afirmarem como instrumentos de elaboração estética, crítica e política.
Inspirada em uma pesquisa iniciada durante seu mestrado em Arte Contemporânea na Universidade de Aveiro, em Portugal, a artista parte da ideia da costura como gesto de reparação simbólica. O projeto nasceu a partir da proposta de intervir em uma casa em ruínas localizada no campus da universidade, experiência que levou Marlene a estabelecer relações entre arquitetura, memória e corpo.
Na exposição, costurar torna-se um gesto de reconstrução, enquanto o entrelaçamento das linhas remete às relações familiares, aos afetos, às heranças culturais e às marcas deixadas pelo tempo. Ao mesmo tempo, a mostra evidencia como atividades historicamente desempenhadas por mulheres foram sistematicamente desvalorizadas e afastadas do reconhecimento institucional no campo das artes.
“Essa exposição nasceu de uma pesquisa muito íntima sobre a condição da mulher, os saberes transmitidos entre gerações, o trabalho invisibilizado, os afetos, as cicatrizes e as resistências que atravessam nossas vidas. Ver esse trabalho ganhar novos sentidos a partir do olhar de cada visitante foi um dos maiores presentes que eu poderia receber. Esse é, para mim, o verdadeiro sentido da arte.” comenta Marlene Barros
Reunindo obras produzidas em diferentes períodos da trajetória da artista, Marlene Barros: tecitura do feminino apresenta um percurso que atravessa temas como maternidade, identidade, sexualidade, violência, pertencimento e memória. Sem seguir uma ordem cronológica, a mostra propõe um percurso livre, aproximando trabalhos que dialogam entre si por meio da materialidade dos tecidos, dos bordados e das esculturas.
Entre os destaques está “Eu tenho a tua cara”, instalação composta por 49 rostos femininos que tensiona as relações entre identidade, alteridade e construção social do indivíduo. Em “Caixa Preta”, fotografias, colagens, intervenções têxteis e escritos formam um autorretrato expandido, atravessado por memórias pessoais e afetivas.
Já “Coso porque está roto” utiliza um casaco bordado para estabelecer relações entre corpo, cura e reparação simbólica, enquanto “Entre nós” propõe uma imersão em peças confeccionadas em crochê que revisitam práticas tradicionalmente atribuídas às mulheres. Em “Quem pariu, que embale”, Marlene Barros questiona a naturalização do cuidado como responsabilidade exclusivamente feminina.
Durante o período expositivo, a programação educativa reúne atividades voltadas a públicos de diferentes idades, como visitas mediadas, oficinas, palestras e experiências de criação coletiva relacionadas aos processos de bordado, costura e crochê. As ações ampliam o diálogo com a exposição e convidam o público a experimentar essas técnicas como formas de expressão, elaboração da memória e compartilhamento de experiências.

“Iniciamos essa conversa em São Luís, ampliamos esse percurso em Belo Horizonte e agora esperamos que o público de São Paulo entre nessa ciranda para dar continuidade a esse diálogo. É uma conversa que não se encerra nas obras, mas se amplia nas experiências compartilhadas entre muitas pessoas. Espero que sigamos refletindo sobre o feminino como uma construção histórica, social e cultural, honrando as ancestrais que abriram os caminhos para que hoje possamos compartilhar experiências, memórias e narrativas de mulheres.” comenta a curadora Betânia Pinheiro.
Para Gabriela Azevedo, gerente geral do CCBB São Paulo, “receber esta exposição, que transforma práticas têxteis em expressões poéticas e políticas, é reafirmar a diversidade das expressões femininas na arte brasileira. São esculturas, instalações, objetos que representam práticas e memórias historicamente marginalizadas e realizá-la no CCBB é fortalecer o compromisso com a escuta, a reflexão e ampliação de perspectivas sobre o feminino na contemporaneidade”.
Edição: Redação JP Turismo
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