A poucos quilômetros da cidade de Juruti, no oeste do Pará, a Expedição VerAmazônia encontrou um lugar onde a Amazônia permanece praticamente intacta. Entre praias de água doce, lagos cristalinos, floresta preservada e comunidades tradicionais, Juruti Velho revela um potencial turístico ainda pouco conhecido, capaz de unir natureza, cultura e turismo de base comunitária em uma das regiões mais belas da Amazônia brasileira.

Com João Ramid e Mariluz Coelho, a Expedição VerAmazônia percorreu comunidades, conversou com moradores, registrou paisagens e descobriu que Juruti Velho oferece muito mais do que beleza natural. Ali está a origem da própria história do município.
Quem chega hoje a Juruti encontra uma cidade dinâmica às margens do rio Amazonas. Poucos sabem, porém, que a história começou em outro lugar. Começou em Juruti Velho.
Foi ali que, em 1818, se estabeleceu a Missão de Nossa Senhora da Saúde, marco da organização colonial da região. Mas a história daquele território é muito mais antiga. Antes da missão, povos indígenas, especialmente os Muirapinima e os Munduruku, já habitavam a região, conhecendo profundamente os rios, lagos, igarapés e caminhos da floresta.
Juruti Velho não representa apenas o passado de Juruti. Representa a origem de um território cuja identidade continua profundamente ligada às águas amazônicas e às comunidades que aprenderam, ao longo de gerações, a viver em equilíbrio com a floresta.

Onde a Amazônia continua viva
Ao contrário de muitos destinos turísticos transformados pela urbanização, Juruti Velho preserva uma Amazônia autêntica. Durante o verão amazônico, praias de areia branca surgem às margens do rio Amazonas. Lagos cercados por floresta refletem o céu como espelhos naturais. Igarapés conduzem visitantes por corredores verdes onde ainda predominam o silêncio, o canto das aves e o ritmo das águas.
Não existem grandes hotéis nem estruturas convencionais de turismo. O que existe é uma Amazônia vivida por quem nasceu nela. São comunidades ribeirinhas, pesca artesanal, agricultura familiar, produção tradicional e conhecimentos transmitidos entre pais e filhos. É justamente essa simplicidade que transforma Juruti Velho num destino singular.

Turismo de base comunitária
Essa realidade faz de Juruti Velho um território especialmente vocacionado para o turismo de base comunitária, modelo em que as próprias famílias recebem visitantes e compartilham sua forma de viver. Entre elas está a família de Graça Bentes e Idelcifran de Souza.
No meio da floresta, construíram um espaço preparado para receber casais, famílias e pequenos grupos interessados em experimentar o cotidiano amazônico. “Estamos organizando o espaço e já estamos prontos para receber famílias e casais que desejam viver essa experiência”, conta Graça.
A propriedade foi construída ao lado de uma nascente de água natural. Em torno da casa convivem árvores frutíferas, animais domésticos e a floresta preservada. Graça sonha ampliar esse conhecimento. “Quero estudar Biologia. Quero juntar os conhecimentos da universidade com aquilo que aprendi com meu pai e minha mãe. Assim poderei tornar nossa propriedade ainda mais sustentável e ajudar a preservar o meio ambiente.”
Idelcifran resume o propósito da família. “Aqui o visitante não vem apenas conhecer um lugar bonito. Ele participa da nossa rotina, conhece a floresta, os animais, as plantas e vive conosco um pouco da vida amazônica.”

Os saberes das águas
Outro personagem que impressionou a equipe da Expedição VerAmazônia foi Helder Batista. Artista, escultor em madeira e mergulhador nativo, ele domina um conhecimento raro sobre os rios amazônicos.
Sua técnica de pesca é feita com arpão. “Eu mergulho para buscar o peixe no fundo do rio. Procuramos não pescar os menores, que ainda estão crescendo. O mergulho permite escolher o peixe e preservar os filhotes.”
Além da pesca, Helder participa de operações de resgate de embarcações submersas. “Já mergulhei para retirar barcos do fundo dos rios. A gente conhece nossas águas. Mergulhar no rio Amazonas, com águas turvas e praticamente sem visibilidade, exige experiência. Esse conhecimento vem da prática e dos ensinamentos dos mais velhos.” É um conhecimento tradicional que dificilmente pode ser aprendido em livros.

Mulheres que lideram
Em Juruti Velho, a liderança feminina chama atenção. São mulheres que administram negócios, organizam a economia familiar e mantêm vivas muitas iniciativas comunitárias.
Diana Castro administra o posto de combustível que abastece barcos e veículos da região. Sua irmã, Silene Castro, produz doces e salgados utilizando ingredientes tradicionais da Amazônia, entre eles o frito de carimã, preparado a partir da mandioca.
“Precisamos de apoio para desenvolver nossas atividades. Temos um lugar lindo, com enorme potencial para o turismo. Com um pouco de incentivo, nós fazemos o restante.” A frase resume um sentimento comum entre os moradores. Juruti Velho não precisa reinventar sua identidade. Precisa de oportunidades para mostrar ao Brasil e ao mundo aquilo que já possui.
Mulheres conectadas pela Amazônia
Durante a expedição, o projeto VerAmazônia convidou as mulheres da comunidade a integrarem a Rede Amazônia Delas, iniciativa que conecta lideranças femininas da região em torno da adaptação climática, da proteção dos territórios e da geração de renda.
Para a jornalista e pesquisadora Mariluz Coelho, as mulheres ocupam uma posição estratégica nesse processo. “Essas mulheres precisam de muito pouco para crescer e fortalecer suas famílias. São lideranças naturais. Cuidam da casa, dos filhos, dos mais velhos e da comunidade. Quem cuida da vida cotidiana também está preparada para cuidar da nossa casa maior: o planeta”, afirma.]

Um destino ainda por descobrir
Com aproximadamente 12 mil habitantes, Juruti Velho pode ser acessada tanto por estrada quanto por embarcação. A facilidade de acesso contrasta com o pouco conhecimento que ainda existe sobre o lugar.
Ao final da expedição, o fotógrafo João Ramid percorreu praias, lagos e comunidades registrando novas imagens para o projeto VerAmazônia. Diante da paisagem, fez uma observação simples que resume o sentimento de quem visita a região pela primeira vez.
“Olha a paz deste lugar. Talvez seja essa a maior riqueza de Juruti Velho. Num tempo em que o turismo procura experiências autênticas e sustentáveis, esse pedaço da Amazônia oferece exatamente aquilo que o mundo procura: natureza preservada, hospitalidade, cultura viva e uma forma de viver que continua profundamente conectada à floresta”, afirma João Ramid.
Juruti Velho não é apenas o lugar onde começou a história de Juruti. É um destino onde a Amazônia continua a escrever, todos os dias, novos capítulos da sua própria história.
Texto: Mariluz Coelho
Fotografia: João Ramid]
Edição: Gutemberg Bogéa
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