Por Euclides Moreira Neto – Ph.D em Comunicação, Linguagem e Cultura/UNAMA e Prof. do Curso de Jornalismo/UFMA
São Luís está atrasada. E não é em relação a uma tendência estética ou a um modismo cultural. Estamos atrasados em relação ao básico: garantir dignidade para quem faz cultura nesta cidade.
É urgente. É inadiável. É uma necessidade gritar: São Luís precisa da sua Passarela do Samba. Não como capricho. Não como obra para foto. Mas como espaço sagrado, permanente, estruturado e multimodos para abrigar as manifestações que dão sentido à alma maranhense.
Falo de um lugar para as Escolas de Samba. Para os Blocos Tradicionais do Maranhão. Para as Tribos de Índios. Para as Turmas de Samba, as Charangas, os grupos de percussão, os brincantes. Para todo o ciclo carnavalesco que sustenta milhares de famílias e movimenta a economia criativa da cidade por meses.
Mas não é só isso. E é aqui que mora o equívoco de quem acha que “passarela” é coisa só de fevereiro. Essa Passarela do Samba precisa nascer já pensando grande, porque o Centro Histórico de São Luís e a cidade como um todo exigem um equipamento cultural de múltiplas utilidades.
Esse mesmo espaço sagrado vai servir aos desfiles de 7 de Setembro. Vai receber os festivais de Natal. Vai abrigar grandes shows de artistas nacionais e internacionais que hoje não vêm para cá por falta de estrutura. Vai sediar eventos turísticos, lançamentos de projetos, feiras comunitárias, festejos religiosos, mostras de arte, eventos históricos.
Será um equipamento público, vivo o ano inteiro. Não um tablado desmontável que se levanta 15 dias antes do carnaval e vira entulho depois.
O atraso tem nome: descaso institucional. Enquanto isso, o que temos? Incerteza. Pires na mão. Todo ano a mesma cena: fazedores de cultura mendigando apoio, correndo atrás de verba de última hora, montando arquibancada improvisada, pedindo licença, implorando segurança. A cultura popular do Maranhão, uma das mais ricas do Brasil, é tratada como problema, não como solução.
Vejam o contraste. Rio de Janeiro tem a Sapucaí. São Paulo tem o Sambódromo do Anhembi. Vitória tem o Sambão do Povo. Manaus tem o Sambódromo. Porto Alegre, Brasília, Belém, Macapá, Florianópolis, Salvador, Recife… todas já entenderam há décadas que um espaço próprio para o desfile não é gasto. É investimento.
Nessas cidades a cultura popular só cresce. Gera emprego, turismo, identidade, autoestima. Aqui em São Luís a gente debate se vale a pena ou não. E enquanto debate, a nossa cultura sangra.
Multimodos: porque cultura não é só carnaval. É preciso dizer com todas as letras: este espaço não é só para o samba. É para a cidade. É para o povo.
No Natal, pode receber a cantata e o auto de natal. Em setembro, o desfile cívico com escolas e forças armadas. No meio do ano, um grande festival de arte e música. Nos fins de semana, feiras de economia solidária e de artesanato. No verão, palco para shows que hoje só acontecem em outras capitais porque aqui não temos onde fazer.
É um equipamento estratégico para o turismo, para a economia e para a cidadania. Um local onde o Centro Histórico respira e se conecta com as periferias que produzem cultura todos os dias.
O ano eleitoral cobra posicionamento. Estamos às vésperas de mais um pleito. E é fundamental que os candidatos ao governo do Maranhão se posicionem agora. Com compromisso público, com projeto, com cronograma, com orçamento.
Chega de promessa vazia. Chega de “vamos estudar”. Chega de “é importante”. O que queremos é pé no chão: onde vai ser, quanto vai custar, de onde vem o recurso, quando começa, quando termina. A cadeia produtiva da cultura não aguenta mais viver de promessas.
E é preciso enfrentar um ponto sensível. Existe um temor legítimo na classe cultural: candidatos que professam fé evangélica e que olham para o carnaval e para as manifestações populares como algo “pagão”, ligado ao demônio.
Respeito todas as crenças. Mas governar é governar para todos. O Estado é laico. A cultura do Maranhão é diversa, plural, sincrética. Negar o carnaval, negar a tribo de índio, negar o tambor de mina é negar o Maranhão.
Quem quiser governar este estado precisa entender que cultura não se escolhe por religião. Cultura se respeita, se fomenta, se estrutura.
Acabar com a cultura do retrocesso. O que vivemos hoje é uma cultura de retrocesso. É achar que investir em cultura é supérfluo. É tratar o brincante como coitadinho. É esperar a tragédia para lembrar que a cultura gera renda.
Não dá mais. Precisamos avançar. Precisamos transformar para melhorar. Precisamos dar visibilidade imediata a essa pauta. Que as entidades, os blocos, as escolas, as tribos, as turmas, os mestres e mestras se manifestem. Que cobrem dos candidatos. Que transformem voto em compromisso.
A Passarela do Samba de São Luís não é luxo. É reparação histórica. É justiça com quem mantém viva a nossa identidade quando o poder público sumir. É o mínimo que uma capital com o título de Patrimônio Cultural da Humanidade deve aos seus fazedores de cultura.
Se outras capitais já entenderam isso há 30, 40 anos, por que São Luís insiste em ficar para trás? O tempo de esperar acabou. O que a cidade precisa agora é de obra, de concreto, de luz, de som, de arquibancada, de respeito.
O que a cidade precisa é do seu espaço sagrado. E ele se chama: Passarela do Samba de São Luís. Multimodos. Para o povo. Para a cultura. Para o futuro.
Legendas:
Foto 1 – Passarela do Anel Viário, no Aterro do Bacanga – Foto: Reprodução
Foto 2 – Um espaço sagrado das agremiações carnavalescas de São Luís – Foto: Reprodução
Foto 3 – Vista aérea dos desfiles da Passarela do Anel Viário – Foto: Reprodução
























































