
Chef Leila Carreiro resgata receitas centenárias da região do recôncavo BAIANO e seu restaurante acaba de entrar para a lista dos 100 melhores do Brasil

Que o Brasil possa descobrir no Dona Mariquita o que o baiano já bem sabe – comer é também um ato cultural, emocional e de resistência, além é claro, de delicioso.

O Conceito de Cozinha Patrimonial da Chef Leila Carreiro
Salvador é uma cidade onde a comida conta histórias. Histórias de povos, de fé, de encontros e de resistência. Mas, em uma capital conhecida mundialmente por ícones como o acarajé e a moqueca, existe um restaurante que há 20 anos convida moradores e visitantes a descobrirem uma Bahia ainda mais profunda, afetiva e surpreendente.
O Dona Mariquita, comandado pela criativa chef Leila Carreiro, tornou-se referência nacional por defender um conceito que vai muito além da gastronomia: a cozinha patrimonial. Em vez de apenas reproduzir receitas tradicionais, o restaurante pesquisa, preserva, interpreta e devolve à mesa sabores que atravessaram gerações no Recôncavo Baiano.
O reconhecimento desse trabalho é recorrente. O Dona Mariquita foi incluído na mais recente lista dos 100 Melhores Restaurantes do Brasil 2026, publicada pela revista Exame, consolidando uma trajetória construída muito mais pela autenticidade do que pelas tendências passageiras da alta gastronomia.
Com duas unidades em Salvador — a casa original no tradicional bairro do Rio Vermelho, onde nasceu a história da marca, e uma filial instalada em frente ao Terminal Marítimo, no bairro do Comércio, porta de entrada de milhares de visitantes que chegam ou saem pelo mar à capital baiana — o restaurante tornou-se parada obrigatória tanto para turistas quanto para os próprios soteropolitanos e baianos em geral.
Nas duas unidades tudo é simbólico, dos pratos do menu à decoração, incluindo o fardamento dos atendentes, que segundo Leila Carreiro “é uma homenagem aqueles que vieram antes de nós e vai muito além da moda. Confeccionado em tecidos africanos, que carregam significados profundos, representando a identidade, orgulho cultural e história através de cores, padrões e símbolos. Cada estampa africana usada está ligada a uma etnia” explica a Chef.

Quando comer é um ato emocional e de memória
“Não é raro encontrarmos clientes emocionados ao provarem um prato que desperta lembranças da infância. Aqui a comida vai muito além do paladar, mas atinge o coração das pessoas, e tudo é feito também com muito amor e cuidado. É um reencontro com a memória. São receitas que remetem ao almoço preparado pela mãe aos domingos, ao tempero da avó no fogão de lenha, às panelas fumegantes das feiras e das cidades do Recôncavo, às festas populares e às cozinhas que fizeram da Bahia uma das culturas gastronômicas mais ricas do país e que fazemos questão de resgatar e eternizar em nossas pratos” resume a Chef Leila Carreiro, um misto de pesquisadora e alquimista dos sabores baianos.
Essa capacidade de transformar comida em memória afetiva explica por que tantos baianos retornam ao Dona Mariquita. Não apenas para comer, mas para revisitar suas próprias origens.
Para Leila Carreiro, preservar essa herança sempre foi um compromisso. Ao longo de duas décadas, a chef mergulhou em pesquisas sobre ingredientes, modos de preparo, tradições familiares e saberes populares que corriam o risco de desaparecer diante da padronização da gastronomia contemporânea.
O resultado é uma cozinha que respeita profundamente a tradição, mas que também imprime personalidade, técnica e delicadeza às receitas centenárias. Não se trata de reinventar a culinária baiana, mas de valorizá-la em sua essência, revelando ao público uma Bahia muito mais ampla do que aquela conhecida pelos cartões-postais gastronômicos.

Cada prato funciona como um documento cultural. Cada ingrediente carrega uma narrativa. Cada receita reafirma que cozinhar também é preservar identidade.
Em tempos em que a valorização das origens ganha força na gastronomia mundial, o Dona Mariquita tornou-se um exemplo de que tradição e contemporaneidade podem caminhar juntas sem perder autenticidade.
O restaurante demonstra que a verdadeira inovação pode estar justamente no resgate do que parecia esquecido. Mais do que servir refeições, Leila Carreiro construiu um espaço onde cultura, história e afeto são ingredientes tão importantes quanto os temperos que chegam às panelas.
Em Salvador, onde a culinária é parte inseparável da identidade do povo, o Dona Mariquita consolidou-se como um guardião da memória alimentar baiana. E talvez seja exatamente esse o maior segredo de seu sucesso.
Enquanto muitos restaurantes procuram surpreender criando sabores inéditos, o Dona Mariquita emociona fazendo o caminho inverso: devolvendo aos clientes o gosto das suas lembranças.
É essa cozinha de memória, patrimônio e pertencimento que hoje coloca o restaurante entre os grandes nomes da gastronomia brasileira — uma conquista que confirma que preservar o passado também pode ser a forma mais sofisticada de construir o futuro.


Meu mergulho pessoal na Cozinha Patrimonial do Dona Mariquita
Fui levada pelo jornalista e Presidente da Febtur (Federação Brasileira de Joralistas e Comunicadores de Turismo) Gorgônio Loureiro para almoçar no Dona Mariquita no Rio Vermelho.
Já me impressionei com a decoração logo na chegada, pois é acolhedora e transpira cultura em cada detalhe. Nos quadros, nos objetos de artesanato, no menu em palha, tudo acolhe e comunica.
Mas o forte dessa experiência foi conhecer pessoalmente a simpática Chef Leila Carreiro, uma verdadeira apaixonada pela cozinha baiana e que me encantou ao me receber de forma tão acolhedora. Leila tem um prazer genuíno em explicar cada ingrediente e a história de cada prato.
Já conheci muitos chefs renomados e profundos experts em gastronomia, mas poucos me impressionaram tanto e tão bem quanto Leila Carreiro, que é também um ícone da gastronomia brasileira. Simples, acolhedora e comunicativa, Leila é daquelas raras pessoas com quem só precisamos de cinco minutos de conversa, para já nos sentirmos literalmente em casa ou em família.
Eu que achava que conhecia bem a culinária baiana, percebi que só sabia mesmo era de moqueca e de acarajé. Muito além dessas duas delícias, o menu do Dona Mariquita oferece um mergulho profundo na mais rica e farta culinária baiana.
Pratos como Acaçá (prato votivo para Oxalá), Abará (comida votiva para Oxum), Amalá (comida favorita de Xangô), carne de fumeiro (pernil ou lombo de porco feito com a técnica da defumação), e muitos outros que ganham rica descrição no menu, na parte “Glossário da Cozinha Baiana do Recôncavo”. Antes mesmo de comer, já ganhamos uma aula de gastronomia.
O restaurante segue uma pegada inclusiva e também oferece opções de comida vegana e se desejado, a sobremesa Bolinho de Estudante que já é sem glúten e sem lactose; pode contemplar os celíacos, e ser fritada em gordura virgem, quando solicitado.
Experimentei as sugestões da Chef Leila, e iniciamos a nossa degustação com a entrada “Carne de fumeiro com farofa D´água”. Em seguida, provamos o tradicional Arroz de Hauçá que estava divino. Quentinho e saboroso, o prato consiste em carne seca servida com arroz de coco e camarão defumado com molho de camarão defumado.

Como prato principal comemos a Cabeça de Rubalo, que é a parte da barriga do caranguejo recheada de carne de caranguejo catado, servido com pirão da corda do caranguejo. E foi companhado da comida votiva Acaçá de Leite (dedicada ao orixá Oxalá), que vem embrulhado na folha de bananeira, e que existe desde o século 19 e que era vendido pelas baianas em seus tabuleiros, preparado com milho branco ou vermelho. Tudo isso degustado sem moderação entre uma conversa (uma verdadeira aula) e outra com Leila e ainda, brindando com uma típica caipirinha de cajá que estava muito saborosa.
De sobremesa, ainda teve o refrescante e maravilhoso “Bob Leal” – sorvete de coco verde servido com compota de goiaba; cujo nome é uma homenagem ao arquiteto Roberto Leal.
Mais que uma visita a um restaurante, me senti abraçada pelo melhor da hospitalidade baiana, seja pelo encontro com o jornalista e anfitrião Gorgônio Loureiro, com quem elaborei altos planos para a criação da Febtur – MA; seja pela inesquecível e calorosa recepção da Chef Leila Carreiro e sua comida mágica.
Quem prova, nunca mais esquece e já quer voltar, como eu, o quanto antes ao Dona Mariquita. Muito mais que um restaurante impecável, um patrimônio afetivo baiano que merece a visita de todos.
Texto: Adriana Vieira

























































