Mais uma vez Alcântara está em estado de êxtase com mais uma edição do tradicional Festejo do Divino Espírito Santo. Neste ano par, sob o comando da Imperatriz, a cidade já se encontra mergulhada num clima que mistura devoção religiosa e festa, movimentando centenas de milhares de pessoas, dentre as quais se encontram turistas, fotógrafos, pesquisadores, fiéis de outras localidades e curiosos que vêm de longe prestigiar essa manifestação cultural tradicional que já atravessa séculos, trazida de além mar pelos colonizadores portugueses açorianos que vieram de longe povoar (juntamente com os africanos) este território inicialmente habitado pelos tapuias e, posteriormente, pelos tupinambás.


Embora existam várias versões sobre o Divino, e compulsando os inúmeros pesquisadores que já se debruçaram sobre as origens do Festejo do Divino Espírito Santo, destaca-se a contribuição do sociólogo, etnólogo e etnógrafo português Moisés Espírito Santo Bagagem (nascido em Rebolaria, Batalha, Portugal, em 1934). O estudioso foi professor da Universidade Nova de Lisboa até 1995, quando foi promovido a professor catedrático, sendo jubilado em 2004. Enveredando pelo segmento da sociologia das religiões, ele foi, dentre outras inúmeras incursões no âmbito da pesquisa, fundador e presidente do “Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões” da Universidade Nova de Lisboa, e fundador e diretor da “Revista Fórum Sociológico”, ligada ao Departamento de Sociologia dessa mesma universidade
Das suas obras publicadas, sobretudo no que se refere à história das religiões, destacam-se La Religion des Paysans Portugais (Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1978), Religião Popular Portuguesa (2ª Edição, Assírio e Alvim, 1988) e Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa – seguido de: Ensaio Sobre Toponímia Antiga (Lisboa, Assírio e Alvim, 1988). Relativamente ao festejo do Divino Espírito Santo, defende o estudioso português a tese de que as origens dessa festa estariam assentadas nas antigas celebrações de povos pagãos, que teriam sido assimiladas pelos judeus. Segundo ele, os hebreus festejavam o shabüoth ou shavuot (de acordo com a Torá), celebração que acontecia 50 dias após o término da Páscoa, marcando no calendário agrário judaico o encerramento da colheita do trigo. No Antigo Testamento, segundo o livro do Êxodo, existiam três grandes festas entre os israelitas: Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos. (SOUSA, 2019).


O festejo do Divino Espírito Santo se espalhou pela Europa e chegou a Portugal, onde se desenvolveu de forma consistente, tendo se consolidado nos Açores, evoluindo posteriormente para as colônias portuguesas espalhadas pelo mundo. Nesse país, o festejo encontrou na rainha santa Isabel de Aragão sua maior devota, que começou a celebrar o Divino Espírito Santo em pagamento de promessa (feita para apaziguar os ânimos entre o seu marido e o filho pela disputa de direito à sucessão no trono de Portugal) no dia de Pentecostes, no ano de 1296.
De acordo com o escritor português Antônio de Abreu Freire, “Isabel de Aragão, esposa do rei D. Dinis, descendente pela via materna dos imperadores do Sacro Império Romano-Germânico e sobrinha-neta de santa Isabel da Hungria, também ela uma construtora de hospitais e de confrarias de assistência, imitou a postura dos seus antepassados nos últimos anos do século XIII, quando fundou nas terras de Alenquer que lhe pertenciam (em 1296) uma Irmandade do Espírito Santo, introduzindo em Portugal aqueles mesmos rituais que ainda hoje fazem parte das manifestações sócio religiosas mais divulgadas no mundo da diáspora portuguesa: a coroação do menino-imperador numa cerimônia religiosa em honra do Espírito Santo e um arraial popular com distribuição de comida aos necessitados – em Alenquer a boda era feita com a carne das rezes abatidas nas touradas. As ideias do monge calabrês tiveram sucesso em Portugal graças ao franciscano aragonês Arnaldo de Vilanova (1238-1316), médico, teólogo e chanceler de Jaime II de Aragão que era irmão da rainha santa Isabel. O monge franciscano foi solicitado pela rainha para promover em Portugal o culto do Espírito Santo como um vasto projeto de criação de irmandades e de confrarias para a prática das Obras de Misericórdia. Assim nasceram os Impérios do Espírito Santo. (SOUSA, 2019).
A manifestação religiosa alcantarense, trazida de Portugal, teve, naturalmente, que se adaptar à realidade local, sendo acrescentadas ou abolidas algumas nuances da festividade original, assim como é normal acontecer em qualquer fenômeno cultural. Muda-se o toque das caixas, personagens desaparecem (como é o caso das ciganinhas), as antigas caminhadas em busca de joias foram reduzidas, restritas, salvo exceções, à sede do município. Atualmente existe patrocínio oficial feito pelo governo estadual, pela prefeitura, conferindo luxo às vestimentas do Império, diminuiu o número de devotos, o lado profano do festejo cresceu. Enfim, o tempo é o dono da mudança, e o povo (que ordena a mudança) vai alterando de forma natural e permanente, aos poucos, os elementos do ritual.


Nesta semana já aconteceu a busca dos mastros (no domingo passado), o carregamento e levantamento do mastro da Imperatriz, na quarta-feira, dia 13, a Missa de Ascensão do Senhor, dia 14 (quinta-feira, na igreja do Carmo), e nesta sexta-feira o carregamento e levantamento do Mastro da Mordoma-Régia. Amanhã, sábado, também conhecido como sábado do meio, acontecerá a visita da Mordoma-Régia ao Império. A cada visita solene existe distribuição de doces e de chocolate para os participantes, uma das marcas do festejo, a partilha. No domingo do meio, ocorrerá missa solene na igreja do Carmo, seguida de cortejo, marcando a visita do Império aos Mordomos. Em todos esses momentos, merece destaque a participação das caixeiras, com seus toques encantadores, com cânticos de música sacra. A banda de música também dá suporte aos cortejos, abrilhantando a festa e animando os participantes. Felizmente, a essência da celebração permanece, com forte participação popular, com crescimento do turismo religioso e com a imprescindível resistência da fé. Viva o Divino Espírito Santo de Alcântara!!!
Texto: Paulo Melo Sousa
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