Desde que o artesanato feito com a Syngonanthus nitens foi “apresentado” ao mundo, muita coisa mudou na vida dos moradores do Jalapão, uma região conhecida tanto pelas belezas naturais quanto pela escassez de oportunidades econômicas.


novembro, para garantir sua preservação – Foto: Emerson Silva
O capim diferente, que era usado apenas para fazer peças simples e utilitárias ganhou ares de jóia rara após várias capacitações com designers levados ao Jalapão ao longo dos anos, pelo Governo do Estado e entidades privadas. Os artesãos se organizaram em associações cadastradas no Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins) e autorizadas ao manejo, desde que sigam regras para sua preservação.
Este trabalho é a base da economia criativa jalapoeira, que muito deve à Dona Miúda (Guilhermina Ribeiro da Silva, 1928-2010), uma liderança local que se tornou referência cultural do Tocantins.


Os moradores da Comunidade Mumbuca, distrito a 35 km de Mateiros, são originários da Bahia e viveram praticamente isolados por cerca de 150 anos. O início do manuseio do capim dourado teria começado com Dona Laurinda, que aprendeu e ensinou a outras mulheres o trançado do capim unido pela “seda” retirada do buriti, palmácea abundante nas veredas úmidas do Jalapão. Coube à Dona Miúda assumir este legado e difundir o
artesanato.
“O legado de Dona Miúda, sua pedagogia sem graduação, sem mestrado, sem doutorado, conseguiu ultrapassar fronteiras do Quilombo Mumbuca para Boa Esperança, Rio Novo, Rapadura, Carrapato e, foi à sede de Mateiros, para o Prata, Quilombo do município de São Félix do Tocantins, Ponte Alta do Tocantins, Novo Acordo, Lagoa e Santa Tereza do Tocantins, chegou ao sudeste do estado, entrou sem pedir licença, no mundo dos artesãos da capital Palmas. Hoje vemos a arte e artesãos na Oscar Freire (SP), Curitiba (PR), Brasília, Goiânia (GO)”, refletem a bacharel em Direito Janete dos Santos Borges e o especialista em Gestão Pública José de Ribamar
Félix, técnico da Secretaria de Turismo do Estado.
Em artigo, o casal ainda ressalta: “a economia criativa do Tocantins tem muito a se orgulhar e ao mesmo tempo a se empenhar em realçar, fomentar, tamanhas criatividades de negócios e, porque não, premiá-las. Dona Miúda embalou o setor econômico do Turismo, que em muitos momentos se desloca rumo à busca de um produto artesanal que está quase se tornando um atrativo, um produto turístico.”


Diretora executiva da Associação de Artesãos e Extrativistas do Povoado do Mumbuca, Railane Ribeiro ressalta que o capim dourado é a principal fonte de sustento da comunidade, a partir do artesanato ensinado de geração em geração, que ganhou o mundo com Dona Miúda. “É o que põe o pão na mesa, dá sustento e visibilidade”, afirma.
Segundo Railane, no ano passado a colheita gerou produção em torno de 15 mil peças.
A expectativa para este ano é de colheita farta para garantir a comercialização do
artesanato durante todo o ano de 2024.
Festa da Colheita


O impulso econômico inicialmente liderado por Dona Miúda continua refletindo na vida dos moradores de toda a região do Jalapão. Um dos momentos mais aguardados é o período liberado pelo Naturatins para a colheita do capim dourado, entre setembro e novembro. Para comemorar, a Comunidade Mumbuca realiza a Festa da Colheita, que este ano aconteceu entre 15 e 17 de setembro e contou com a presença do governador
Wanderlei Barbosa.
Um dos momentos mais festivos foi o desfile ocorrido na noite de sábado, 16. Crianças, homens e mulheres da comunidade desfilaram na passarela, sendo muito aplaudidos pela plateia de autoridades, visitantes e moradores do quilombo. As filhas de Dona Miúda, Dona Dotora e Dona Antônia também desfilaram com adereços feitos de Capim Dourado.
“A festa da colheita é um momento de alegria imensa, porque a mamãe deixou uma fortaleza na sua geração e a cada dia a gente tem que fortalecer a nossa cultura”, destacou Dona Dotora. Dona Antônia falou como o Capim Dourado mudou a realidade dos moradores do quilombo. “Para nós é a coisa mais linda do mundo, nós não tinha casa pra morar, nós não conhecia carro bonito, não conhecia nada, através do capim dourado, Deus em
primeiro lugar e em segundo lugar esse Capim Dourado que nós conhece gente bonita, conhece carro bonito, conhece as coisas boas”, agradeceu Dona Antônia. “Minha mãe deixou uma história de riqueza para o Tocantins, para o Jalapão e para o Mumbuca”, completou a artesã. (Com informações da Setur/TO).
Texto: Seleucia Fontes
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