

A tradição cultural, fundamental para a manutenção dos alicerces estruturantes das comunidades, é sinônima de união social, e fortalece os vínculos entre pessoas que cultivam práticas e crenças em comum; trata-se de um elo que une o passado com o presente, e que permite que as novas gerações desenvolvam o sentimento de pertencimento, no âmbito da valorização da herança cultural de nossos ascendentes.
Dessa forma, o antigo e bem preservado Festejo do Glorioso São Benedito, realizado anualmente em Alcântara no mês de agosto, durante o período da lua cheia, no adro da bela igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, também conhecida como igreja do Galo, atrai visitantes e devotos de todos os lugares, além de coreiros e coreiras que se deslocam para o município, visando participar desse evento que é um dos mais importantes do calendário do turismo cultural e religioso do Maranhão.
A igreja do Galo foi construída em razão do fato de que, na época, os negros escravizados eram proibidos de frequentar a igreja dos brancos (igreja do Carmo). “A construção dessa igrejinha constituiu-se em uma novela que se arrastou durante 24 anos, desde 1779, quando o procurador Paulo Viegas requereu ao bispado licença para levantar uma capela à Santa, havendo a confraria recursos suficientes para tanto, pois possuía 306$000 a juros para aplicar na obra”, segundo informa o historiador Carlos de Lima. O templo foi benzido no dia 29 de maio de 1803 pelo vigário José de Almeida e Silva, tendo início o culto, após a chegada, à igreja, das imagens de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito. Em 1974, uma parte da construção ruiu, sendo prontamente restaurada. Em razão do fato de que foram os negros que ergueram a igreja com o suor do próprio rosto, segundo os mais antigos tornou-se tradição festejar São Benedito, anualmente, em frente ao templo, numa festa que vem atravessando as décadas, tendo, no mínimo, mais de 200 anos de existência.


Embora tenha sofrido várias modificações, a festa continua atraindo o interesse dos devotos do santo, além de mestres de Tambor-de-Crioula, oriundos de vários povoados de Alcântara, sobretudo de comunidades quilombolas rurais, que se apresentam com seus grupos em frente à igreja, durante o transcurso da festa. Com o toque cadenciado dos tocadores, a dança frenética e sensual das coreiras, a realização de ladainhas, missas e de procissão, além da distribuição de donativos, contando com a presença de turistas e da comunidade alcantarense, o festejo continua atraindo a atenção dos adeptos da manifestação religiosa, que também apresenta seu lado profano, naturalmente.
Alcântara sempre recebe muitos visitantes por ocasião do festejo que, neste ano, terá início no próximo dia 7 de agosto (quinta-feira), prosseguindo até a próxima segunda-feira, dia 11 de agosto, sob o comando da Associação de São Benedito de Alcântara – ASBA (instituição fundada a 23 de agosto de 1994), atualmente com 43 membros, que substituiu a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, antiga organizadora do evento. As mudanças no festejo vêm acontecendo ao longo dos últimos anos, alterando a manifestação cultural, que se transforma e se reorganiza. No entanto, a essência dessa tradição religiosa e cultural se mantém, bem como a sua realização no período da lua cheia, como sempre aconteceu desde o começo do festejo. Isso se deu em virtude de, na época de seu início, a cidade não possuir luz elétrica, e a lua ajudava, com a ajuda das fogueiras, a iluminar o local. A luz elétrica chegou, contudo, sempre se observou a tradição, com a presença da lua.
Tambor com Lua deve amanhecer


Um festejo dessa envergadura requer planejamento, garantindo alimentação dos participantes, traslado de coreiros e coreiras, acomodação decente na cidade, decoração do ambiente, dentre outros detalhes importantes. Segundo Alda Pinheiro, atual diretora da ASBA, “o meu envolvimento com o festejo se dá em razão da participação da minha família, tanto do lado paterno quanto materno, na organização do mesmo desde há muitos anos. O meu pai, desde cedo, participou da Comissão que organizava o festejo, que também contava com a participação de dona Naíza, seu Raul, seu Laureano, Maria Silva Costa (minha mãe), Clenir Borges Pinheiro, esposa do meu tio, seu Alberto, pai de Lourdinha, seu Diógenes Ribeiro e demais pessoas. Com a formalização da ASBA, na qual consto como sócia-fundadora, eu me comprometi cada vez mais e pretendo dar continuidade ao festejo, preservando essa cultura bicentenária, que vem se realizando, apesar das dificuldades, com muita devoção, pois temos como missão garantir a permanência desse marco cultural para a nossa cidade”.


O festejo possui vários ícones. Existe um pequeno jornal denominado “O Tambor de São Benedito”, trabalho da Universidade Federal do Maranhão – UFMA, publicado em São Luís em agosto de 1987, no qual seu Liene Pinheiro (já falecido), que comandou o festejo durante muitos anos, junto com sua família, diz: “Quando conheci a festa, quem organizava era o Chico Beleza, Domingos Silva e Hilário Silva. Eles eram zeladores da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos; nessa época a prefeitura não assumia a festa, quem fazia a festa era a Irmandade…


Naquela época, as mulheres que dançavam o Tambor-de-Crioula eram daqui, da cidade. Tinha daqui e do interior; as mulheres eram de vestido bonito, saia tipo de fazer balão, vestido ramalhudo, tipo serpentina, não era como no dia de hoje”. Dona Naíza também é relembrada por todos como fiel devota do santo, e grande organizadora da festa. Ao longo do festejo os tambores ecoam, relembrando o vibrante esplendor do evento, e garantindo a permanência dessa importante manifestação cultural maranhense. O tradicional festejo consegue reunir moradores da cidade, visitante de São Luís e de outros lugares, que se deslocam para a maravilhosa e encantada Alcântara em busca de felicidade, renovação da fé e dos laços de amizade que são permanentemente construídos nos recantos históricos da cidade eterna.
Serviço
O quê? Festejo de São Benedito de Alcântara
Quando? De 7 a 11 de agosto de 2025
Onde? Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (igreja do Galo)
Promoção: Associação de São Benedito de Alcântara – ASBA
Ações do festejo: Missas, ladainhas, procissão, distribuição de alimentos, toque de Tambor-de-Crioula.
Doações pelo pix: 00.744.167/0001-67
Texto: Paulo Melo Sousa
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