Museus, vinho, gastronomia e uma rica história são alguns dos motivos que devem fazer o turista passar alguns dias a mais no país

Há um Uruguai que os brasileiros conhecem bem: Montevidéu, Punta del Este, Colonia del Sacramento, as praias, o vinho e o futebol. Mas, para quem chega ao país pelas regiões mais distantes da fronteira, existe um território ainda pouco conhecido e que merece entrar no roteiro, Canelones.
Vizinho da capital, o departamento integra a chamada Costa de Oro, uma faixa de aproximadamente 70 quilômetros ao longo do Rio da Prata, que começa em Canelones e se estende em direção à região de Punta del Este. São cerca de 30 localidades praianas de perfil familiar, entre elas Atlántida, considerada a capital turística da região.
No verão, as praias naturalmente assumem o protagonismo. Fora dele, porém, Canelones revela outras vocações, como vinícolas, pequenas cidades cheias de história e tradição, jardins, patrimônio e uma forte identidade rural.
É um pedaço do Uruguai que pode ser descoberto sem pressa, e que está praticamente à porta de Montevidéu.
Entre vinhos e histórias
O vinho é uma das grandes portas de entrada para conhecer a região.
O Uruguai possui mais de 180 vinícolas, também chamadas de bodegas, registradas em seu território. E a Região Metropolitana, formada pelos departamentos de Canelones e Montevidéu, concentra mais de 70% delas.
Entre as possibilidades está a Bodega Familia Deicas, que combina produção de vinhos, gastronomia e história. A trajetória da família começou em 1979, com a aquisição adquiriram o histórico Establecimiento Juanicó. Hoje, é uma das vinícolas mais prestigiadas, inovadoras e premiadas do Uruguai. A visita inclui o restaurante e a antiga adega de pedra originalmente construída pelos jesuítas, em 1745.
É uma experiência que vai além da degustação e mostra como vinho e patrimônio podem caminhar juntos.

Parada em Montevidéu
Canelones está tão próxima da capital que é difícil pensar em uma viagem à região sem passar por Montevidéu. E a cidade merece mais do que uma passagem apressada.
Para quem gosta de futebol, uma das visitas que vale incluir no roteiro é o Museu do Estádio Centenário.
Construído para sediar a Copa do Mundo de 1930, o estádio ainda preserva os assentos originais das áreas mais próximas ao campo. O museu funciona sob a Tribuna Olímpica e reúne objetos, cartazes, documentos e vestígios da primeira Copa do Mundo da história, sediada e vencida pelo Uruguai.
Há bolas e chuteiras, troféus e medalhas olímpicas de ouro das conquistas de 1924 e 1928, além de peças relacionadas à Copa de 1950.
Entre as relíquias estão ainda camisas autografadas por algumas das grandes lendas do futebol mundial, incluindo Pelé e Diego Maradona.
Para o brasileiro, há uma particularidade: o Brasil está muito presente no acervo — e o respeito demonstrado à história do futebol brasileiro é daqueles que fazem o visitante rever um pouco a conhecida rivalidade entre os dois países.

Museu a céu aberto
De volta a Canelones, o patrimônio ganha outra forma na Quinta Capurro, em Santa Lucía, a cerca de 64 km de Montevidéu.
O espaço é um jardim de oito hectares, um museu a céu aberto, onde árvores de grande porte, flores e espécies de diferentes origens convivem com intervenções cuidadosas feitas pelas mãos humanas. É um lugar para desacelerar.
Entre árvores imensas, camélias, gerânios e glicínias, há também um túnel formado por bambuzais que parece convidar o visitante a diminuir o passo. Mais adiante, chama a atenção uma imponente Agathis robusta, o chamado Pinheiro de Damara, originário da Austrália, além de plátanos e espécies de origem japonesa.
A acessibilidade também faz parte da experiência, com rampas e descrições em braile.

Um Uruguai rural
Se praias e vinícolas já ajudam a ampliar o repertório de quem visita Canelones, é na ruralidade que aparece talvez uma das faces menos conhecidas do departamento pelos brasileiros.
A tradição das chacras continua presente na paisagem, na gastronomia e nas histórias das comunidades rurais. E uma boa maneira de conhecê-la é pela Fiesta y Museo de la Chacra.
Os ranchos apresentados aos visitantes não são cenários criados apenas para a festa. Eles reproduzem ambientes relacionados à trajetória das próprias mulheres e organizações que participam do projeto.
A festa reúne 22 organizações, entre cooperativas, grupos de fomento rural, associações e redes, incluindo a Asociación de Mujeres Rurales del Uruguay (AMRU).
A participação das mulheres ocupa lugar importante nessa história e se relaciona também ao Dia Internacional das Mulheres Rurais, celebrado em 15 de outubro.
Em 2026, a nona edição da Fiesta y Museo de la Chacra será realizada nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, em San Jacinto, no departamento de Canelones.
Além da gastronomia e das tradições familiares, a iniciativa procura ampliar o reconhecimento das raízes culturais e dos povos originários presentes na formação uruguaia.
História em uma palavra
De origem quéchua, o termo “chacra” faz parte da herança indígena incorporada ao vocabulário e à cultura produtiva da região. Outras palavras de origem indígena, como chala, quincha, totora, tambo e chasque, também permaneceram no cotidiano uruguaio.
Ao longo dos séculos, sistemas produtivos desenvolvidos pelos povos originários se combinaram a elementos trazidos pelos europeus, como o trigo, outros grãos, o arado e os animais de tração. Dessa mistura nasceu um modelo produtivo que, transformado pelo tempo, ainda pode ser reconhecido nas paisagens rurais de Canelones.
É essa dimensão que a Fiesta y Museo de la Chacra procura preservar.

Descubra sem pressa
Toda essa diversidade – e muitas outras que não couberam no texto – faz Canelones valer uma descoberta.
Há a Costa de Oro e suas praias familiares, as bodegas e a gastronomia, cidades, jardins e espaços de memória. E há uma ruralidade que preserva sabores, modos de fazer e histórias que ajudam a compreender o Uruguai para além de seus destinos mais conhecidos.
Para o brasileiro que já conhece a capital ou que está planejando sua primeira viagem ao país, Canelones pode ser aquela descoberta que não estava necessariamente no roteiro, mas que, depois de conhecida, faz sentido acrescentar à viagem.
Um Uruguai próximo, diverso e ainda pouco explorado por nós.
Texto: Seleucia Fontes
Edição: Gutemberg Bogéa
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