Tenho compromissos no sul do país. Estou a caminho de Curitiba e Florianópolis para entrevistas e rever pessoas queridas. Gosto do Sul do Brasil. Admiro as cidades e seu povo, muito diferentes de minha São Luís do Maranhão, no nordeste ensolarado e temperado do Brasil.
Dormi pouco, acordei cedo, fiz os ajustes finais na bagagem que tenho que levar para a viagem de uma semana.
Checo, recheco, checo novamente. Mesmo já tendo viajando muito, toda viagem é como se fosse a primeira. Atravessar o mundo e desembarcar em Auckland, Nova Zelândia, não se diferencia de sair de casa para ir visitar Cururupu no interior do Maranhão.
Combino com Frederico, meu filho, o horário que vou para o aeroporto. Sempre chego com antecedência em aeroportos. Já tive problemas em sair em cima da hora. Se tiver que dar problemas, comigo é certeza de que terei problema.
Na hora combinada Frederico me apanha e me leva para o Marechal Hugo da Cunha Machado, minúsculo aeroporto de São Luís, porta de saída para o mundo.
Desço do carro, tiro fotografias em frente à placa que homenageia minhas andanças pelo mundo. Quando cheguei a 130 países visitados, a Infraero, então administradora do aeroporto, permitiu que fosse homenageado com essa placa. Motivo de orgulho e satisfação.
Tenho o costume de ao entrar no carro, retirar o aparelho de celular do bolso e colocar no bolsão da porta ao lado.
Me encaminho para o check-in e procuro o celular. Nada. Enfio as mãos nos bolsos da calça na vã esperança de achá-lo. Nada.
Fila longa, apenas um atendente. Procuro por alguém conhecido. São Luís, mesmo com mais de um milhão de almas, ainda conheço bastante gente. Nenhum rosto conhecido. Peço o celular de uma senhorinha, na fila, explico que é para ligação local, é urgência. Falo que esqueci o celular no carro do meu filho. Ela me passa o aparelho de celular, reticente.
Ligo algumas vezes, nada dele atender. Não ligo para o celular de Frederico pois não sei o número. Aliás, não sei o número do celular de ninguém. A senhorinha, desconfiada, pede o celular de volta. Entendo a atitude dela. Em quem confiar? Não temos mais confiança em ninguém.
Peço licença na fila para ser logo atendido pelo funcionário da GOL. Explico o motivo de minha pressa, falo da angústia de ter esquecido o aparelho no carro.
Maxuel Santos, o atendente da GOL, me disponibiliza o celular dele, e diz para eu ficar tranquilo.
Ligo diversas vezes e nada. Segundo a lei de Murphy: “Se alguma coisa pode dar errado, dará. Dará errado da pior maneira e no pior momento, causando o maior dano possível”. A angústia aumenta.
Como ficamos dependente do celular. Ali está toda nossa vida. As informações necessárias para a vida funcionar. Eu não tinha o endereço de onde iria me hospedar em Curitiba, os contatos dos amigos e jornalistas que iriam me entrevistar. Não teria como falar com a família, mulher e filhos.
Quase no desespero me lembrei do número de contato de Heloísa. Ela localizou Frederico, e correndo foi até o aeroporto me entregar o benfazejo celular.
O que move o mundo são as pessoas. As pessoas certas, disponíveis, que têm empatia, nos lugares certos, contribuem para um mundo melhor.
Como um simples ato, ao emprestar-me o celular, confiando em mim, Maxuel resolveu meu problema naquela manhã de sábado.
Em minhas andanças pelo mundo, tenho encontrado diversos anjos, que Deus salpica por onde passo, facilitando a minha caminhada.
É tão simples ajudar. Na maioria das vezes não custa nada, basta ter boa vontade e iniciativa.
Minha primeira oração do dia, ao acordar, é perguntar ao senhor Deus como posso ser útil a alguém.
Caro leitor, amiga leitora, você assim como eu, só chegamos até aqui, porque fomos ajudados pelos anjos que surgem em nossos caminhos. Todos nós fazemos parte de uma engrenagem. Ninguém é autossuficiente em absolutamente nada. Precisamos uns dos outros.
Só posso agradecer à Deus pelos anjos que ele coloca no meu caminho. Obrigado, Maxuel Santos.
Luiz Thadeu Nunes e Silva – Eng. Agrônomo, Palestrante, cronista, escritor e viajante. Autor do livro “Das muletas fiz asas”; o latino americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 151 países em todos os continentes da terra
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