Esporte, educação, cultura e cidadania se cruzam no projeto Raízes Africanas, realizado no Varjão, pelo Instituto Cultural Raízes e Mestre Aladin
Por séculos, a capoeira sobreviveu onde a liberdade era proibida. Nascida nos engenhos, quilombos e portos do Brasil, ela misturou luta, música, espiritualidade e estratégia. Foi considerada subversiva, criminalizada, perseguida e, justamente por isso, se tornou símbolo de resistência. Hoje, muito longe das senzalas, ela continua cumprindo seu papel de transformar vidas.


A capoeira se expandiu pelo país muito antes de ser reconhecida como patrimônio. Ganhou força na Bahia, cresceu no Rio de Janeiro e em Pernambuco, encontrou redutos no Maranhão, Minas Gerais e São Paulo. Cada canto a moldou de um jeito, criando estilos, musicalidades e formas de ensino.
Do Recôncavo às periferias urbanas, ela nunca saiu do seu território mais fiel, a comunidade. Era ali que se aprendia a gingar para a vida, a olhar o mundo de baixo para cima, a acreditar no corpo e no coletivo.
E foi por esses caminhos que a capoeira chegou a Brasília, primeiro pelas mãos de grupos tradicionais que migraram para a capital, depois formando núcleos – em Ceilândia, Riacho Fundo, Taguatinga – que se tornaram grandes centros de referência nacional.
A capital, tão nova, recebeu a capoeira como quem acolhe uma velha guardiã. E nela encontrou terreno fértil.
De menino a mestre
Entre essas histórias está a de um garoto que, aos três anos, viu uma roda improvisada numa praia, decidiu que aquele seria seu mundo e, hoje, carrega em sua própria trajetória a prova de que essa arte ancestral segue pulsando como um instrumento de cidadania.
Gabriel Cristian Monteles Pereira, o Mestre Aladin cresceu entre viagens, brincadeiras de piruetas, treinamentos com quem estivesse por perto. A infância na estrada pelos anos 90, entre o interior paulista, Ribeirão Preto (SP) e a Chapada dos Veadeiros (GO), fez da capoeira sua casa mais constante.
Seu primeiro mestre não teve corda nem academia. Foi o pai, capoeirista de rua, apaixonado, espontâneo, que lhe mostrou que a roda é antes de tudo um espaço de liberdade.
Depois vieram Juba, Angolinha, Buriti, Fabrício, tantos nomes que ele lembra com devoção. Vieram também as rodas da Oca em Alto Paraíso, as madrugadas de treino, os encontros com mestres que plantaram sementes profundas.
Aos 12 anos, já puxava aulas para colegas que apareciam quando o professor faltava. Aos 16, dava aulas no Rio Grande do Sul. A capoeira sempre o escolheu antes mesmo que ele pudesse decidir.
Quando chegou a Brasília, em 2006, Aladin viveu um período difícil. Foi a capoeira, de novo, que o puxou de volta à vida.
Uma roda no Riacho Fundo, um grupo que o acolheu, o Mestre Cobra, os irmãos de caminhada. Ali, ele descobriu algo que mudaria tudo: “a gente não faz capoeira, a gente é capoeira”.
Essa frase virou norte. Ele largou um emprego estável, mudou-se para o Varjão, uma das regiões administrativas de Brasília, e decidiu viver da capoeira, levando seus ensinamentos às crianças, aos jovens em situação de risco e aos adultos com dificuldades motoras.


Capoeira que ensina a viver
O que começou como uma oficina virou um projeto. Depois, uma instituição. E hoje, o Instituto Cultural Raízes atende mais de 700 crianças no CEF 01 do Varjão – tendo a capoeira na grade curricular da instituição de ensino –, além de oferecer aulas em escolas particulares, creches e ações sociais, sempre com a mesma filosofia que moldou a vida do mestre: disciplina, respeito, humildade, ancestralidade e afeto.
A capoeira que Mestre Aladin leva para as escolas não é só movimento. É um sistema de valores. Uma educação que se aprende gingando.
Crianças de dez meses a adolescentes, jovens e adultos encontram na aula de capoeira um espaço de movimento e também de pertencimento. Aprendem que cada corpo tem seu ritmo, que cada um tem sua vez na roda, que ninguém joga sozinho.
Histórias como a de Cecília – que encontrou na capoeira força para voltar a andar após cirurgias – mostram o tamanho do impacto do projeto. Mas talvez a maior mudança seja silenciosa: a autoestima que cresce, a construção do vínculo, o horizonte que se amplia.
“Meu primeiro resgate foi o da minha própria vida”, diz Aladin. “Depois disso, eu entendi que o projeto precisava continuar”.


16º Batizado
“Muitos já tentaram, mas só o Aladin consegue promover batizados todos os anos”. Quem revela é Mestre Jacaré, seu amigo, parceiro e mestre.
No próximo sábado, 13 de dezembro, a partir das 15h, no CEF 01 do Varjão, o Instituto realiza seu último grande evento do ano, o 16º Batizado de Capoeira.
O batizado é um rito de passagem. Uma celebração da trajetória de cada aluno, da energia da comunidade, da persistência que move o projeto há mais de uma década.
Neste ano, o projeto Raízes Africanas – Oficinas de Técnicas e Vivências em Expressões Culturais Afrodescendentes, foi mantido com recursos do FAC – Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal.
A supervisão é do próprio Mestre Aladin, com a participação dos Mestres Jacaré, Sarakura e Tia Rosa, da Contramestre Kekel, além de organização de Jasmine, Carlos, Takay, Cria e Gameleira.
Um dia para celebrar mestres, alunos, pais, moradores – e a própria história da capoeira, que segue viva porque continua encontrando mãos dispostas a preservá-la.
Texto: Seleucia Fontes
Edição: Gutemberg Bogéa


































































