Sem sombra de dúvida, outubro é o mês em que o Brasil revela, sem maquiagem, quem é. É quando, nos quatro pontos cardeais, o país transforma a fé em festa e a festa em identidade. Não por acaso, as duas maiores manifestações religiosas do país acontecem agora, com o mesmo sentido e linguagens diferentes. Há quem reze, há quem ore, há quem apenas acompanhe em silêncio. Todos, de alguma forma, celebram.
No dia 12, o Sudeste se volta para a imagem pequena e negra, de apenas 36 centímetros e 2,5 quilos, encontrada em dois pedaços no Rio Paraíba do Sul, em 1717. Primeiro o corpo, depois a cabeça. Era uma Nossa Senhora da Conceição em terracota, mas como apareceu, o nome se fez sozinho: Aparecida. Muito procurada por quem precisa de amparo em momento de aflição, sua festa já não cabe em um só dia. Ocupa o mês inteiro com novena, solenidades na Basílica, orquestra, carreata e shows populares que transformam Aparecida na capital da devoção brasileira.
Quase dois mil quilômetros ao norte, no segundo domingo do mês, Belém para. É o Círio de Nazaré, herança dos colonizadores portugueses que o povo amazônico recriou à sua maneira. A história mais contada lembra que em 1700 o caboclo Plácido José de Souza encontrou uma pequena imagem às margens do Igarapé Murutucu, onde hoje ficam os fundos da Basílica-Santuário. Hoje são cerca de dois milhões de pessoas nas ruas, entre Trasladação, procissão principal, romarias fluvial e a tradicional Festa da Chiquita. Já não é só uma procissão católica. É cidade em movimento, é Patrimônio Imaterial, é economia, turismo e promessa paga com a mão na corda.
E o Brasil, com a sensibilidade de quem sabe misturar o sagrado e o humano, colocou no mesmo 12 de outubro, desde 1924, o Dia das Crianças. Fomos um dos primeiros países do mundo a ter uma data dedicada a elas. A coincidência não é coincidência. É recado. Não há futuro de fé sem infância protegida, nem infância protegida sem alguma esperança no futuro.
Outubro nos lembra que o Brasil não é plural por ser indiferente à crença, mas por ter crença demais, e de muitos modos. No Círio, o católico de berço, o evangélico, o visitante sem religião e a criança com balão dividem a mesma rua sem pedir licença um ao outro. Enquanto houver um pescador que lança a rede sem esperança e um caboclo que encontra um sinal nas águas, outubro continuará sendo o nosso espelho mais honesto. Não o do calendário oficial, mas o da alma brasileira.
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