

Vindas de Pindaré-Mirim, no Maranhão, as irmãs Vanda e Dayana Bandeira transformaram, com esforço e persistência, o artesanato em fonte de renda, autonomia e impacto social, conectando tradição e empreendedorismo feminino
Irmãs, mães atípicas e artesãs, Vanda e Dayana Bandeira transformaram o bordado em sustento de famílias e reafirmação da força do artesanato maranhense dentro e fora do estado.
O que começou com linha, agulha e paciência agora é uma rede que impacta dezenas de mulheres em São Luís. A trajetória começou de forma simples, há mais de duas décadas, mas ganhou novo impulso por volta de 2017, quando uma cena comum nos arraiais despertou um olhar empreendedor. “A gente estava em um arraial e viu um turista encantado com o chapéu do vaqueiro. Ele queria comprar, mas não podia. Foi ali que pensamos: por que não fazer chapéus para os turistas?”, lembra Dayana.
A ideia virou prática, e depois negócio. No início, os modelos eram mais simples, com lantejoulas. Mas um teste ousado mudou o rumo da produção. “A gente fez um chapéu mais elaborado e ficou até com medo de não vender, por causa do valor. Mas foi o primeiro a sair. Ali a gente entendeu que precisava investir mais nisso”, conta.


Do improviso à estrutura
Sem ponto fixo e com dificuldades de comercialização, as vendas aconteciam no boca a boca. No início, enquanto Dayana trabalhava fora, ela apresentava os produtos para colegas e conhecidos, mostrando modelos e divulgando que elas produziam as peças. Ao mesmo tempo, as duas já atuavam diretamente na confecção dos chapéus. “A gente ia mostrando, falando para as pessoas, e assim os pedidos começaram a surgir”, resume Dayana.
A virada veio com a oportunidade de expor em um arraial. “Quando chegamos lá, foi uma loucura. As pessoas praticamente tiravam os chapéus da sacola antes da gente organizar a barraca. Foi ali que a gente começou a ser procurada”, relembra Vanda.
Hoje, a produção é contínua. Embora o pico de vendas aconteça no período junino, os pedidos chegam durante todo o ano. “A gente envia para todo o Brasil e exterior. Tem cliente que compra para usar em festas, eventos e até fora do país”, diz Vanda.


Artesanato como base de tudo
Mais do que um negócio, o artesanato é o eixo central da vida das duas. Foi com ele que construíram patrimônio e reorganizaram suas rotinas, especialmente diante dos desafios pessoais.
“Tudo que eu tenho veio do artesanato. Minha casa, minhas conquistas. É ele que sustenta minha família”, afirma Vanda, que é formada em Administração, mas optou por se dedicar integralmente ao ateliê.
Para Dayana, o trabalho também representa realização pessoal. “Eu me encontrei aqui. Já fiz outras coisas, mas não era feliz. Hoje, sentar para bordar, criar, ver o resultado… isso não tem preço”, diz.
Empreender sendo mãe atípica
A rotina das irmãs é marcada por um fator que exige ainda mais organização: ambas são mães atípicas. Entre terapias, consultas e cuidados com os filhos, o tempo precisa ser dividido com precisão.
“O nosso maior desafio é não parar. A gente se reveza: enquanto uma sai com o filho, a outra produz. Quando volta, troca. E assim a gente vai”, explica Vanda.
Nesse contexto, o artesanato se tornou também uma alternativa viável de trabalho, permitindo flexibilidade e presença familiar. “Se a gente estivesse em outro emprego, talvez não conseguiria conciliar tudo”, completa Dayana.


Uma rede de mulheres
O crescimento da produção trouxe uma necessidade: ampliar a equipe. Hoje, entre 25 e 30 mulheres trabalham direta ou indiretamente com as irmãs, muitas delas também em situação de vulnerabilidade ou com histórias de superação.
“A gente começou a trazer pessoas da família, depois outras mulheres que precisavam. Hoje, tem muita gente que tira o sustento daqui”, conta Dayana.
Entre os exemplos está o de uma bordadeira que chegou ao ateliê em um quadro de depressão. “Ela mal falava. Hoje é uma das melhores que a gente tem. O artesanato ajudou ela a se reconstruir”, relata Vanda.
Há também mulheres que conciliam outros trabalhos com o bordado, além de casos de inclusão de pessoas com deficiência. “A gente trata todo mundo como família. Porque o apoio delas, a gente não conseguiria produzir”, reforça Dayana.
Cultura que gera renda
Os chapéus produzidos carregam referências diretas da cultura popular maranhense, especialmente do bumba meu boi. As peças são personalizadas, coloridas e, muitas vezes, únicas.
A criatividade vem do cotidiano. “A gente observa tudo: uma estampa, um azulejo, uma paisagem. Tudo pode virar inspiração”, diz Dayana.


Esse olhar atento já levou o trabalho das irmãs a diferentes estados e até ao exterior. Clientes de lugares como Recife, Goiânia e até do Canadá já adquiriram peças. Em eventos, os chapéus chamam atenção e viram vitrine da cultura local.
Hoje, a produção também reflete a valorização do trabalho artesanal. Os chapéus são comercializados em diferentes faixas de preço, variando entre R$ 300 e R$ 1.800, dependendo do nível de detalhamento e personalização das peças.
A geração de renda se estende para além das irmãs. O ganho das artesãs envolvidas no processo varia de acordo com a produtividade de cada uma, já que o trabalho é manual e exige tempo e habilidade. Além disso, parte da equipe também atua diretamente nas vendas durante o período junino e em eventos privados, o que garante uma renda extra. “Nos arraiais, a demanda é muito grande. Tem gente da equipe que trabalha com a gente na exposição e também consegue aumentar sua renda nesse período”, explicam.
Dados que reforçam o impacto
O protagonismo feminino no artesanato também aparece nos números: no Maranhão, as mulheres representam 88,1% dos artesãos cadastrados, evidenciando a força feminina na preservação cultural e na geração de renda em diversas comunidades. Esse cenário reforça o papel do artesanato como ferramenta de autonomia econômica e inclusão produtiva.
Força do São João na economia criativa
É no período junino que essa produção ganha ainda mais visibilidade e valor econômico. No Maranhão, o São João movimenta significativamente a cadeia do artesanato, impulsionando a venda de peças ligadas à cultura popular, como indumentárias, adereços e acessórios inspirados no bumba meu boi. Para muitas artesãs, esse é o principal período de comercialização do ano, concentrando grande parte da renda e fortalecendo o turismo cultural no estado.
Olhar para o futuro
Com planos de expansão, Vanda e Dayana querem ir além dos chapéus e investir em peças completas para o São João e outros mercados. A ideia é ampliar a produção e alcançar novos públicos.
“A gente quer crescer, levar mais longe ainda o nosso trabalho. Mostrar que daqui, do nosso cantinho, a gente consegue chegar em qualquer lugar”, afirma Vanda.
Ao resumir a própria trajetória, as irmãs não hesitam: “Somos guerreiras”. Mas acrescentam um elemento essencial: “E muito gratas. Ao artesanato e a tudo que ele nos proporcionou”.
Uma história que, entre fios e cores, revela algo maior: quando tradição e oportunidade se encontram, o impacto vai muito além do produto final e constrói caminhos.
Texto: Geíza Batistta
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