Ao chegar ao Brasil, essa tradição encontrou um território onde a mistura cultural ampliou ainda mais seus sentidos, dando origem a uma das manifestações populares mais diversas do mundo


Desde que o ser humano aprendeu a plantar e colher, ele aprendeu também a celebrar. Muito antes de calendários, desfiles e arquibancadas, o carnaval nasceu como uma pausa consentida na ordem do mundo. Nas antigas civilizações, as festas marcavam o fim do inverno e a esperança da fertilidade da terra. Com o passar dos séculos, essas celebrações ganharam máscaras, excessos e inversões sociais.
Na Roma Antiga, as Saturnálias ocupavam dias inteiros do calendário e suspendiam, de forma oficial, a ordem cotidiana. Durante essas festas dedicadas ao deus Saturno, o trabalho era interrompido, as hierarquias sociais eram temporariamente dissolvidas e o riso tomava o lugar da disciplina. Escravos sentavam-se à mesa com seus senhores, críticas públicas eram permitidas e o uso de máscaras ajudava a apagar identidades, garantindo uma liberdade rara em uma sociedade rigidamente organizada.


Essas celebrações não eram simples excessos festivos, mas mecanismos coletivos de equilíbrio social. Ao permitir o caos por um período limitado, Roma reafirmava a própria ordem no restante do ano. O corpo, a comida, o vinho e a sátira funcionavam como linguagem, uma forma de dizer o que não cabia nos espaços formais de poder.
Com a queda do Império Romano e a ascensão do cristianismo, essas festas não desapareceram, se transformaram. Na Europa medieval, o carnaval passou a coexistir com a moral cristã, ocupando o período que antecedia a Quaresma. Era o momento do “adeus à carne” (carne vale), mas também da liberação temporária dos impulsos reprimidos. Surgiram festas populares marcadas por desfiles grotescos, personagens caricatos, críticas às autoridades religiosas e civis e a inversão simbólica dos papéis sociais. Reis eram zombados, clérigos eram satirizados e o povo assumia o protagonismo das ruas.
Apesar das tentativas da Igreja de controlar ou suavizar esses excessos, o carnaval medieval persistiu como uma válvula de escape coletiva. Em muitas cidades europeias, corporações, guildas e comunidades organizavam seus próprios festejos, mantendo viva a tradição da máscara, do riso e da crítica social. Essa lógica de celebração popular atravessou os séculos e ainda hoje encontra ecos em festas como o Carnaval de Veneza, o Mardi Gras, na França, e o Fasnacht, na Alemanha e na Suíça, onde a fantasia e o uso simbólico do espaço urbano continuam centrais.
Esse fio histórico, que liga Roma, a Idade Média e os festejos contemporâneos, é o que permite compreender o carnaval não como uma criação moderna, mas como uma herança cultural milenar, moldada pelas sociedades que a adotaram e reinterpretaram.


Atravessando o Atlântico
Ao chegar ao Brasil, o carnaval encontrou muito mais do que um novo território: havia culturas vivas, ancestrais e em permanente movimento. Trazido pelos colonizadores portugueses, sobretudo por meio do Entrudo, uma brincadeira popular marcada por excessos, água, farinha e irreverência, o carnaval logo deixou de ser apenas uma reprodução europeia. Em solo brasileiro, ele foi transformado e reinventado pelas mãos de povos africanos escravizados e das populações indígenas, que imprimiram novos sentidos à festa.
Das culturas africanas vieram o ritmo, a percussão, o canto coletivo, o corpo como linguagem e a festa como resistência. Dos povos indígenas, permaneceram a relação espiritual com a dança, o uso de máscaras e pinturas corporais, a ocupação ritual do espaço e o entendimento da celebração como ato comunitário. Essa convergência fez com que o carnaval brasileiro se afastasse rapidamente do modelo original europeu e se tornasse uma manifestação plural, profundamente conectada às realidades locais.
Com o passar do tempo, cada região do país passou a moldar o carnaval à sua própria história, clima, geografia e formação social. No Sudeste, especialmente no Rio de Janeiro, o carnaval urbano ganhou contornos de espetáculo, com a consolidação das escolas de samba, os desfiles competitivos e a profissionalização da festa, que passou a dialogar também com a indústria cultural. Em São Paulo, essa estrutura se desenvolveu em paralelo ao crescimento urbano e à diversidade de comunidades migrantes.


No Nordeste, o carnaval se afirmou, sobretudo, como ocupação da rua e expressão popular. Na Bahia, os trios elétricos e os blocos afro transformaram a festa em um movimento de massa, marcado por identidade, ancestralidade e força política. Em Pernambuco, o frevo, os maracatus e os bonecos gigantes mantiveram viva uma tradição que mistura música, dança e patrimônio histórico. Em cada estado nordestino, o carnaval ganhou sotaque próprio, refletindo o cotidiano e a memória de seu povo.
No Norte do país, as manifestações carnavalescas dialogaram com a floresta, os rios e os ciclos naturais, incorporando elementos simbólicos das culturas tradicionais e reafirmando a relação entre festa, território e espiritualidade. Já no Centro-Oeste e no Sul, o carnaval assumiu formas híbridas, combinando influências nacionais com características regionais, em festas que também revelam processos de identidade e pertencimento, onde até mesmo o “sertanejo elétrico” tem seu lugar.
Assim, o carnaval brasileiro não se construiu como uma celebração única, mas como um mosaico cultural. Em cada estado, ele se adapta e se reinventa, mantendo viva uma tradição milenar que, no Brasil, encontrou sua expressão mais diversa e profunda.
É nesse mosaico que o Maranhão ocupa um lugar singular.
Alegria coletiva


No Maranhão, o carnaval não se limita ao entretenimento. Ele é memória viva, construída no chão da rua e sustentada pela coletividade. Os blocos tradicionais, com seus instrumentos de percussão marcante e fantasias ricamente bordadas, carregam uma estética própria, que não se confunde com nenhuma outra do país. Cada desfile é, ao mesmo tempo, celebração e apresentação da história, da cultura, do pertencimento.
As escolas de samba, por sua vez, dialogam com essa identidade, incorporando temas históricos e sociais que refletem a realidade. E, de forma única, o reggae, ritmo que encontrou no Maranhão uma segunda pátria, também se inscreve no carnaval, sendo inserido como mais uma atração que se figura ao lado do tradicional Tambor de Crioula, das batucadas de samba, das tribos de índios, das casinhas de roças, sambas de raiz e dos trios elétricos que hoje fazem parte desse acervo momesco nacional.
O carnaval maranhense resiste porque nasce da comunidade. Ele é feito por mãos que costuram, bordam, ensaiam, tocam e desfilam não apenas por alguns dias de festa, mas ao longo de todo o ano. Gera trabalho, renda, transmissão de saberes e afirmação cultural. É um carnaval que não se curva totalmente à lógica do espetáculo, porque que sua maior força está na identidade.
Ao olhar para essa trajetória milenar, que começou como rito ancestral, atravessou impérios, oceanos e séculos, o Brasil reconhece no carnaval uma de suas mais potentes expressões culturais. E no Maranhão, essa herança segue viva, pulsando nas ruas, nos blocos, nos tambores e nos sopros, lembrando que celebrar também é um ato de resistência, memória e futuro.
Texto: Seleucia Fontes
Edição: Gutemberg Bogéa





































































