Quem sabe, faz A Hora e outros jornais

Foi o inesquecível professor Fernando Moreira, contista e teatrólogo de mão-cheia, também, que quis, em nossa turma de Comunicação Social (Jornalismo) da UFMA, avivar a motivação do pendor profissional dos seus mais novos pupilos, numa das suas aulas imperdíveis de História da Literatura, no Instituto de Letras e Artes (ILA), em 1976, antes de seguirmos para o Campus Universitário do Bacanga. Numa classe aprovada, há pouco, no requisitado vestibular da Federal, dentre outros,  com Alex Brasil (Alsenor Duailibe Garcia, já publicitário, mais tarde, poeta e prosador e membro da Academia Maranhense de Letras-AML), Ribamar Correia (que seria secretário estadual da Comunicação, diretor de Redação do jornal O Estado do Maranhão e agora titular  da Coluna  Repórter Tempo), José Faustino dos Santos Alves-J.Alves (já prestigiado em emissoras de rádio e televisão nativas), José Carlos Serra Castelo Branco (com Alex Brasil, em agência de publicidade), recordo que Regis Marques, que antes enaltecera o tio Oswaldino Marques, poeta e mestre de Literatura, no Brasil   e nos EUA,   acentuou bem que, ao enviar um telegrama, regozijando sua aprovação no exame acirrado,  ao seu pai, fora de São Luís, atuante ainda no jornalismo e nome alteroso da velha escola, recebeu “Parabéns, futuro colega! Votos de muitos sucessos na carreira abraçada”! Na minha vez, falei, a convicção em pessoa, haver sido evasor do Curso de Direito, ir para a concorrência de outro curso universitário, e na Revisão Literária do Serviço de Imprensa e Obras Gráfica do Estado (Sioge), corrigindo os cochilos dos nossos autores, com que, na Academia da UFMA, fui chamado de poeta e pegou, cresceu o meu querer o Jornalismo e enveredar na Literatura, sem um livro, então.

Em abril de 2017, num encontro, com almoço, em sua residência, no Cohafuma, não faltaram colegas do Diário do Norte e do Jornal de Hoje, em pé: Oliveira Ramos, Ribamar Cordeiro, Wilson Martins, Souzinha, Herbert, Josélia, Sílvia Moscoso; sentados: Jorge Ribeiro, Lilico, Marina, Jersan, Nonnato Reis, Josy Ribeiro, Francisca Silva e Maurício Alexandre – Foto: Álbum de família

Éramos, ali, um covil de contestadores, que quis a cabeça de uma professora substituta, que havia escrito, com letras garrafais, no quadro-negro, suíssa (com dois esses), quando, corretamente, seria Suíça (com c cedilhado, para o país europeu e as costeletas, indo do pé do cabelo, passando pelas bochechas, se unindo ao bigode ). Não nos faltou debate sobre a distensão iniciada no governo do general Ernesto Geisel que o general João Baptista Figueiredo prometera intensificar, para dar um basta ao regime de exceção e de obscurantismo iniciado com o golpe militar de 1964. Com a participação de Ribamar Cordeiro, do Curso de Desenho Industrial (que faria fama, em jornal, que nem chargista), foram homéricas aquelas discussões nossos sobre a polêmica entre Paulinho da Viola e Benito di Paula, pela descaracterização do samba, em relação ao ritmo instrumental, com base no piano, com Argumento do primeiro, sucesso em 1975, que ouviria, parecendo para ele,  Retalhos de Cetim, samba tocado em piano,  composição exitosa de Benito. Na última vez que falei com Regis Marques, ao telefone, há cerca de um mês, ele não me deixou por menos: “Compadre, você era Paulinho da Viola!” Para ele, padrinho da minha segunda filha, Alessandra, pouco antes da nossa formatura, já há bastante tempo, eu seria um dos maiores poetas originais! Prefaciador do meu primeiro título de crônicas, prêmio literário (Um Dedo de Prosa, em 1984), achou: “Foi no reencontro, vinte e cinco anos depois, com a garota que lhe perguntou qual era a cor do Sol, ele, menino, indo para a casa paterna, na Madre de Deus, e que via na menina dos olhos de verde esmeralda a cor do Sol, é que explode o grande poeta que há em Herbert de Jesus Santos(…)!”

Tirando a prova dos noves: o começo da carreira — Com a nossa colação de grau, em julho de 1980, cedo Regis Marques estava no Jornal de Hoje, contratado pelo jornalista e empresário (Raimundo Nonato) Cordeiro Filho, que tinha vista de lince para ganhar dinheiro e trabalhar com bons jornalistas. Redator-chefe no Diário do Norte, em 1986/7, com a supervisão de Cordeiro Filho, RM levou-me para melhorar o nível dos trabalhos dos mais verdes, que foi buscar na UFMA, sabedor de que, após o estágio curricular, em O Imparcial, fiquei, incontinenti, repórter, ali, na Rua Afonso Pena, revisor, em O Debate, e copidesque, em O Estado do Maranhão, e era para eu copidescar os textos dos novatos, enxugando-os, antes da composição. Dito e feito! Quando ele saiu, assumi as suas funções, numa equipe redacional competente e coesa, com Carlos Andrade e Edurval Correia (diagramadores), Raymundo Souzinha (editor de Polícia), até a assunção de Wady Hadade, diretor de Redação, que me tornou editor-geral. Regis Marques voltou para o Jornal de Hoje, onde nos reencontramos em 1988.

“Quem sabe, faz A Hora” — Após ser assessor de imprensa na Câmara Municipal de São Luís, em 2005 prepara, desde a contratação de pessoal, no diário A Hora, de propriedade do ex-deputado federal e ex-prefeito de Caxias, Paulo Marinho, e sociedade de dois capitães de indústria gráfica portentosos: Cordeiro Filho e Júlio Rodrigues. Funcionando no São Francisco, possuía, propositadamente, o slogan “Quem sabe, faz A Hora”, que ele cantava, amiúde, no Campus da UFMA,  a música Pra não Dizer que não Falei de Flores,  de Geraldo Vandré, que, em 1968,  se  tornou um dos maiores hinos da resistência ao sistema ditatorial, com Vandré perseguido pela repressão e exilado: “(…)Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe, faz a hora, não esperar acontecer(…)!”

No jornal Veja Agora, com carta branca, também — Sem haver muita longevidade no A Hora, na Av. Castelo Branco, no São Francisco, foi dirigir, com carta-branca, o Veja Agora, do ex-deputado federal e ex-secretário estadual da Saúde, no governo Roseana Sarney, Ricardo Murad, na Vila Ivar Saldanha. Dali, foi ser assessor de Imprensa, na Secretaria de Estado da Saúde, e, a seguir,  diretor de Comunicação da Assembleia Legislativa do Estado (Alesma).

Em nome do pai: Em cerimônia, na Alesma, Regis recebeu, por Vera-Cruz Marques, condecoração das mãos do deputado Joaquim Haickel – – Foto: Álbum de família

Em nome do pai, condecoração na Alesma — Dentro da programação em comemoração ao Dia do Poder Legislativo, no Maranhão, e do aniversário da Assembleia Legislativa, que completou 178 anos de sua instalação, em 18.2.2013, em cerimônia simbólica de devolução dos mandatos parlamentares dos deputados Benedito Buzar, Sálvio Dino e Kléber Leite (em memória), cassados pela ditadura militar de 1964,  em sessão solene presidida pelo deputado Arnaldo Melo (PMDB), foi também reverenciada a memória de Vera-Cruz Marques, suplente de deputado e líder sindical preso pelos militares e ameaçado de perder seu Registro de Jornalista Profissional. Na ocasião, Regis Marques recebeu pelo pai, das mãos do deputado Joaquim Haickel, condecoração alusiva. Foi recordado que Vera-Cruz Marques teve o companheirismo de outros gigantes, no Jornal do Povo, com Neiva Moreira, e no Jornal do Dia e no O Estado do Maranhão, com Bandeira Tribuzi.

Agradecendo a presença de todos, ao seu convite, ouvido por Jersan Araújo, Ribamar Cordeiro, Wilson Martins, Souzinha e Herbert – Foto: Álbum de família

Testemunho alteado de um da nossa Turma — Régis Marques: um dos destaques da sua geração no Jornalismo maranhense foi como Ribamar Correia reconheceu a presença do confrade na profissão.  Repórter Tempo, falou de cadeira, assim que o desenlace foi embalado nas redes sociais: “A Coluna registra com pesar a morte do jornalista Régis Marques, 67 anos, ontem, vítima do novo coronavírus, na UTI do Centro Médico, em São Luís. A perda abriu uma lacuna no jornalismo maranhense, do qual ele foi um profissional atuante e destacado. Sua marca de jornalista diferenciado e competente ficou evidente por onde ele passou – nas redações do Diário do Norte, Jornal de Hoje, O Estado do Maranhão, entre outros veículos, e nas assessorias da Câmara Municipal e Assembleia Legislativa. A escolha do jornalismo como profissão foi feita seguindo o mesmo caminho do pai, o jornalista e político Vera-Cruz Marques, que se destacou na sua geração e pagou preço alto por enfrentar a ditadura militar. Régis Marques ingressou no Curso de Comunicação da UFMA em julho de 1976, na turma integrada também pelo titular desta Coluna, por Herbert de Jesus Santos e pelo radialista J. Alves. Partiu cedo, mas levou a consciência tranquila de que fez a parte que lhe coube na seara jornalística do Maranhão.”

Seu necrológio: Vida profissional em síntese — Todos os matutinos são-luisenses registraram o desaparecimento do ilustre conterrâneo, como um resumo da sua atuação no Jornalismo. Falecido na tarde de quinta-feira(17.12.2020), aos 67 anos, no Centro Médico, no Monte Castelo, onde se encontrava internado, há uma semana, na UTI, vítima do Novo Coronavírus (Covid-19), o corpo do jornalista Regis (Vera-Cruz Furtado) Marques foi cremado, na tarde de sábado(19), no Memorial da Pax União (Cemitério da Maioba), e com o féretro acompanhado de carreata de familiares, parentes, amigos e colegas jornalistas,  desde a Central de Velório da Pax União, no Bairro do Diamante, Centro de São Luís.

Regis Marques teve atuação realçada no Jornalismo maranhense, começando no Jornal de Hoje, e também no Diário do Norte, no A Hora e no Veja Agora.  Foi, durante um bom tempo, diretor de Comunicação da Alesma. Nasceu em São Luís, a 23.8.1953, filho do legendário jornalista e sindicalista Manoel Vera-Cruz Marques (que foi diretor da Rádio Timbira e perseguido pela ditadura militar) e de Francisca Furtado Marques (D. Santa), Regis Marques deixou viúva Neusa Lima Marques (graduada em Filosofia) e os filhos, Rafaela Lima Marques (jornalista formada pela da UFMA) e Regis Adriano Lima Marques (arquiteto com graduação no Ceuma) e neta, filha de Adriano, Alice.

Regis Marques não perdia uma noite de autógrafos minha, com incentivo para eu fazer o Maranhão ler mais obras minhas, prêmios literários, ou não! – Foto: Álbum de família

Seu último elogio ao compadre e colega — No mês retrasado, ele publicou, na Imprensa, com confrades jornalistas e outros meus amigos queridos, sua força para a minha possível candidatura à Academia Maranhense de Letras:  “Quando eu o conheci ele já era um intelectual respeitado. Na faculdade, já era chamado de poeta. Quando vínhamos do Campus do Bacanga, sempre depois das 10 da noite, sentávamos lado a lado no ônibus, depois de uma longa jornada de trabalho e várias horas de aulas. Na nossas cabeças, os mesmos sonhos: Sermos jornalista e ajudarmos a combater as mazelas sociais. Durante a viagem até à Praça Deodoro, quase sempre vínhamos em silêncio. Ele, de cabeça baixa, rabiscava versos, elaborava personagens e fazia samba-enredo, mesmo sem saber uma nota musical. Usava uma caixa de fósforos para ritmar o samba que seria cantado na passarela quando o carnaval chegasse. Em silêncio, eu arriscava uma olhada vez ou outra. Via nascer ali, um poeta maduro, solidário e dono de um talento extraordinário. Eu tenho orgulho de ter sido seu amigo todos esses anos.”

Texto: Herbert de Jesus Santos



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