Espaço do Leitor

E AÍ, MORAES VIROU AZULEJO!

(Joãozinho Ribeiro)

“Dezesseis de março 

Teve um grande pavor”

A toada que meu pai João Situba costumava cantarolar, lembrando os bois de zabumba de sua saudosa Genipaúba, amanheceu ecoando no meu juízo. Um pressentimento matinal, com gosto de assombro e saudade, precedia a confirmação que a telinha implacável do celular reduziria em pouco tempo a notícia de obtuário: Moraes acabara de virar azulejo!

“Abalou Praia Grande

Maria Celeste incendiou”

Aquele mesmo sorriso maroto, misto de criança traquina com a disposição permanente de participar de alguma conspiração cultural, compartilhando com os amigos de uma cumplicidade canina toda encharcada de humanidade. Estava lá na telinha, desafiando minha incredulidade e uma ficha da memória que até o momento não caiu por inteira.

Segunda-feira, dezesseis de março, do ano da (des)graça de 2020.

O camarada da vida & da arte, o companheiro de boas e inspiradoras boemias, o incansável guerreiro da Cultura Popular, tinha cumprido com louvor, até por demais, a sua missão e a sua passagem por esta breve estação terrena. Moraes, meu irmãozinho de copo e de alma, havia atravessado o umbral sagrado que escancara os caminhos para o mundo dos encantados e das encantarias.

“Baía tá de luto

Porque perdeu o seu cantor”

De luto, o coração daquele povo todo presente no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, naquela tarde/noite de segunda, dezesseis de março…

Atravesso mecanicamente todo o corredor da velha casa, sem vislumbrar nem decifrar os semblantes das pessoas que me cumprimentavam durante o deslocamento que parecia uma eternidade. 

Direto para o ataúde, onde o corpo do guerreiro descansava de muitas pelejas, das grandes batalhas culturais, que enfrentou com a dignidade dos grandes homens, que não podem ser reduzidos àquelas meras medidas de madeira polida, nem mesmo às ínfimas linhas das “notas de pesar”, emitidas pelos órgãos públicos de cultura, aos quais dedicou com denodo a maior parte da sua memorável existência.

“Foi com dois tambô

Que o fogo começou”

Cumprimento sua inconsolável companheira Ana e seu amado filho Fábio, com sinceros e sentidos abraços, pouco me importando com os protocolos editados sobre o vírus que no momento ameaça toda a vida humana existente no Planeta. Em seguida, sigo para a área de uma espécie de quintal do casarão, onde uma turma se prepara para puxar os cânticos do tambor de choro.

De choro também são feitos os poetas! 

Demais, para conter a cachoeira dos olhos, desaguando solta nas águas de março e nas marés do Desterro; do Boi da Madre Deus e da catuaba do Diquinho; do Grupo Escolar Luiz Serra e da Rua da Saúde; de muitas noites da memória navegadas sob o desamparo dos ventos.

Rosa Caixeira desafia a parelha firmada – tambor grande, meião e crivador – vai botando versos no improviso, prestando as justas homenagens, sob o formato de ladainha, a altura do passamento do nosso guerreiro da Cultura Popular.

“Explodiu dois túnel

Matou diverso estivador”

E lá se foi meu velhinho, como costumava chamá-lo carinhosamente, com seus boizinhos de fita, seus cortejos de muitos Divinos, com suas matracas matreiras, seus cordões de infinitas brincadeiras, para uma outra dimensão do universo das nossas ancestralidades, onde deve já estar de encontro marcado com outros guerrilheiros da Cultura Popular – Nelson Brito, Valdelino Cécio, D. Terezinha Jansen, Mestre Felipe de Sibá, D. Teté, Mestres Leonardo, Apolônio Melônio, Nivô…integrando esta constelação infinita de azulejos e patrimônios de todas as nossas humanidades. 

Vai querer! Vai querer!



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