Chico Coimbra rejeitado e o puto do cronista (*)

(Como a flor do samba preferiu Astro de Ogum ao seu campeão. Enoque Silva sucesso na escola Grande Rio e no mundo. A volta de Américo Azevedo Neto ao jornal)

Chico Coimbra, ao lado do poeta Dyl Pires, com o meu livro são luís em preamar, após prestigiar a noite de autógrafos, em 2005. Foto: Arquivo de Herbert de Jesus Santos

Ao Mestre com Carinho seria o enredo da Flor do Samba, visando ao carnaval 2015, em consonância com representações da gloriosa agremiação do Desterro sobre o caixão do inesquecível estilista e carnavalesco Chico Coimbra, falecido, em São Luís, a 7.2.2014. Insuflado, pela honra ao mérito, o Sotaque da Ilha anunciou, no dia 14, a justiça ao figurinista conterrâneo de carreira internacional e vencedor diversas vezes fantasiando a Flor, Unidos de Fátima e blocos tradicionais. Ledo engano! Apesar da minha cobrança incessante, os tais, sempre pela tangente, sob alegação de que seria caro, especialmente, para quem tem ojeriza a arregaçar as mangas, quanto no áureo tempo do legendário Piranha, em que a sede, em todas as promoções lucrativas, saía, no bom sentido, pelo ladrão. Puseram, na passarela do samba, na alteza honrosa de Chico Coimbra, Astro de Ogum, que é uma persistência em si para a usurpação da decência, e permaneceu, faz anos, no segundo lugar. Erraram feio! Se quiserem purgar esse inferno astral de 2015, em 2016, enalteçam Chico Coimbra, na competição, e chamem Enoque Silva, que assinou a bela fantasia do bloco Os Brasinhas, que homenageou nesse fuzuê o nosso saudoso amigo, e já é uma consagração na Escola de Samba Grande Rio, no carnaval carioca. Ele criou o traje típico com que o modelo (é masculino, sem dependência de sexo)  maranhense Mayara Carvalhal faturou o título de “Miss Seven Continents”, em desfile na Turquia, em maio de 2014, em que extravasava o Brasil da Fartura, na exaltação à flora nacional, com suas florestas e frutas tropicais.

De volta às páginas de um jornal: Américo Azevedo Neto — Com o título citado, o poeta e cronista Américo Azevedo Neto regressou a uma coluna impressa, no Jornal Pequeno,  todas as segundas-feiras, com a sinalização de que vai fazer bem aos olhos, na entressafra, ou hibernação, textual,  há  um longo e tenebroso inverno.   O ás de Cartas a Daniel, no Jornal de Hoje, em alusão ao fundador de São Luís, La Ravardière, não tem parelha quando incursiona pela crônica poética e corrosiva, a ponto do também poeta aqui alardear ser ele um puto de um cronista, com uma elegância de mandar para as profundas um supliciado, e não deixa transparecer quando está um cronista puto. A mordacidade em pessoa, uma vez desceu o cajado na incumbência da Coliseu, empresa municipal de coleta de lixo, com o mandachuva, no júri do campeonato das nossas escolas de samba, em 1986, para dar sete à letra de Cesar Teixeira, no samba-enredo da Turma do Quinto, Poema Sujo (de Ferreira Gullar), e protestaram pelo excesso de sujeira denunciada.  E Américo, a resolução no cabeçalho, prometendo, em síntese, maneirar no chiqueirador: “TÁ LIMPO!”

            O mesmo  satírico de sempre — Entre nós, cronistas calejados,  na edição do JP de 16.2 passado, o autor de É Possível que Ainda Seja Azul (crônicas) e Infelizmente Amém (poemas) veio do ostracismo jornalístico com malas e bagagens em sua linguagem necessária, para os seus chegados do ramo e do assunto: “Estreio numa segunda-feira antigamente chamada de segunda feira gorda de carnaval. Hoje ninguém a chama assim. Aliás, no nosso atual carnaval, nada é gordo. Até o rei, antes obeso, deixou de ser gordo”. E pra não dizerem que ele não falou de flores: “Nosso carnaval emagreceu. Tudo e todo. É hoje esquálida lembrança do que já foi um dia. E essa magrém não é cultural. É gestão mesmo”. E dá um prazo para a satirização: “Mas isso é conversa para outra ocasião!”

Não se fala em segunda-feira gorda, uma vírgula, seu poeta! — AAN, em toda tessitura do seu discurso, em que parece ironizar a queda de cabelos de um deputado estadual nosso com a calvície de neurônios e inteligência, só pisou na bola na instância em que generalizou não mais dizermos que a segunda-feira de carnaval  é gorda.   Não, aqui! Folgamos — eu e o Sotaque— em ter o prestigioso subsídio de um mestre em carregar o piano e a nitroglicerina numa exortação,  ou na execração, porém aqui sai bem!

O chute da terça-feira gorda e quaresma, na  Wikipédia — Uma das menos indigestas versões para a terça-feira gorda: “Pode ter a ver com a quantidade de crianças que eram geradas no carnaval antigamente. Na terça, já teria milhares de mulheres grávidas-gordas”!  O audacioso sobre a quaresma: “Ora, o povo, que não é bobo nem nada, sabendo que as pessoas teriam que passar 40 dias sem nenhuma alegria, criou a terça-feira gorda (porque todos comeriam tudo a que tinham direito e que não poderiam comer depois), no dia que antecede à quarta-feira de Cinzas, quando não mais poderia manifestar-se com suas festas ditas pagãs.”

Segurando a onda sozinho e o fofão do cronista que encheu as medidas — Passamos aqui esse tempo todo, com um pé nos 20 anos, dando uma cacetada, no cravo, outra, na ferradura, e clamando no deserto,  como quando a Secretaria da Segurança Cidadã, no Governo Jackson Lago, em 2007, deu uma de Cafeteira, prefeito de São Luís, em 1966 :  Defensores das nossas tradições culturais, aceitamos com reservas o impedimento do artefato de pano e plástico que disfarça a face dos carnavalescos, tirando-lhe o quê de mistério e faceirice. O poeta Américo Azevedo Neto, sintonizado em nossa alma popular,   achou que o fofão, que ocorre exclusivamente no Maranhão, nasceu de um projeto defeituoso de uma costureira que errou, redondamente, nas medidas da sua fantasia, saindo assim pior do que a encomenda. A festa já estava nas ruas de São Luís, e assim, para não perder a presença, entre pierrôs, colombinas e arlequins de seda importada, o nosso fofão primacial, com o tecido de chitão berrante e vistoso, escondeu a vergonha das vestes mais humildes, metendo na pessoa uma máscara que menos o identificasse, saída  horripilante  da sua inabilidade e pela pressa.

A dissimulação da nossa querida personagem — Para mais camuflagem à decepção, com a dança não surgida  nos suntuosos salões são-luisenses, o fofão foi  brincar na  rua, com a sua gente, metendo a ginga de dois passos para a frente e um recuo estratégico, como se ensaiasse um voo em sua passada de coxo, suspendendo as asas do que deu panos pras mangas, a boneca, para solicitar  esmola, na sugestão de um grode,  os guizos e uma vara, para espantar cachorros, e o seu  conhecido “Ô, lá,lá”! Nossos carnavalescos só têm este período para usar este fingimento, que está  com os dias contados, deixando sem concorrência  os astuciosos da política que agem como bandidos e vice-versa.        A Segurança Cidadã caiu e o fofão não mudou.

A origem da terça-feira gorda: O Rei dos Açougueiros em Paris — Na tarde da terça-feira da fuzarca, os romanos desfilavam com velas acesas, como se penitenciassem, pagando os excessos da  gula. Longe da sisudez papal, e gafanhotos, numa comilança,  os franceses encerravam o tríduo,  pelas ruas de Paris, com um boi gordo, conduzido por uma criança batizada O Rei dos Açougueiros. Originou-se daí a terça-feira gorda de carnaval, e, no Brasil, gordos considerados os dias da folia, e magros os da semana antecessora. Restou para o nosso povo, o tempo das vacas magras, pois as do soçaite nunca vão para o brejo,  uma vez que em todos os dias são gordas para si e seus sequazes: os fora da lei impunes. Com Américo Azevedo Neto, mais força,  para  o discernimento cultural da juventude mais frágil, e lucidez à preservação do essencial. Recordando Luiz de França, da Turma do Quinto, compositor de mão-cheia, que tirava o samba de uma cabaça: “Quem viver, verá!…”

(*) Publicamos este texto no JP Turismo de 20.2.2015. Há pouco, fiquei contente em saber, pelo presidente da Flor do Samba, Luís César Maia, que Chico Coimbra será enredo da agremiação em 2021. Podem contar com meu samba-enredo concorrente!      



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